O drama espanhol

A Espanha vive mais uma novela política. O primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy renunciou ao cargo para formar um governo de coalizão com a mediação do Rei Filipe VI. Mas os boatos que um novo conselho de ministros poderá ser formado pelos partidos de esquerda como PSOE e Podemos é questão de horas mesmo com a divergência sobre a independência da Catalunha.

Estamos diante de uma indecisão onde os partidos como o conservador PP e o socialista PSOE querem evitar uma nova eleição para terem uma posição de liderança para formar um novo governo em um parlamento fragmentado que teria de ser aprovado por um moção de confiança na Câmara das Cortes assim que for anunciado pelo Rei Filipe VI após as negociações serem encerradas em Madri.

O papel de negociador de um monarca espanhol é uma novidade diante de um parlamento onde nenhum partido tem a maioria absoluta para governar sozinho. Filipe VI terá uma árdua tarefa de convencer os líderes partidários como Rajoy, o socialista Pedro Sanchez e o esquerdista Pablo Iglesias a negociarem a formação de um governo que possa sobreviver a moção de confiança para evitar a convocação de novas eleições.

Não se sabe a posição do centrismo representado pelo Ciudadanos. O partido tem 40 assentos na Câmara das Cortes e defendia a formação de uma grande coalizão entre conservadores e socialistas para isolar as posições radicais de Pablo Iglesias e o Podemos como a realização de um referendo sobre a independência da Catalunha tão rejeitada por PP e PSOE.

O trabalho de Filipe VI será longo para o jovem monarca. Seu pai, o rei Juan Carlos teve uma sensata habilidade política para levar a Espanha para a democracia lidando com conservadores e socialistas durante quase 40 anos. Filipe VI terá que criar uma relação cordial com os líderes partidários para ter a missão de criar um senso de estabilidade neste drama espanhol.

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O fim de Franco

21 de novembro de 1975. A Espanha vivia uma longa ditadura. Mas nascia uma perspectiva de mudança com a morte de um ditador. A longa liturgia do franquismo fez florescer uma democracia pujante mesmo após longos 39 anos de guerra civil, perseguições e censura nunca antes vista na história espanhola.

O general Francisco Franco assumiu a Espanha após derrubar e perseguir os republicanos. Ele queria um salvador da Espanha católica diante da ameaça comunista. Mas a longa ditadura que implantou em tal país ibérico prosperou longos 39 anos. Mas tinha uma fissura capaz de criar uma brecha para a democracia.

Franco não tinha um sucessor natural. O candidato a vaga era o almirante Carreiro Blanco. Mas ele foi morto por um atentado a bomba do grupo terrorista ETA em 1973. Então, evocou uma regra de 1957 em que ele dizia que um membro da família real espanhola poderia assumir o governo em sua ausência.

O sucessor seria o príncipe Juan Carlos. Ele assumiu o governo entre 1973 a 1974. Mas as mudanças começaram a acontecer como a queda da ditadura salazarista feita por jovens oficiais do exército português. Evento que seria conhecido como a Revolução dos Cravos. Isso pressionava Franco, que já estava com a saúde debilitada.

A notícia de sua morte naquele 21 de novembro pode criar um clima de esperança e incerteza de como seria feita a transição para a democracia sob o comando do Rei Juan Carlos. O processo foi feito de forma perfeita pelo primeiro-ministro Adolfo Suarez. Hoje, os espanhóis não tem um resquício dos tempos sombrios do franquismo.

Coalizão a espanhola

Hoje, a Espanha acordou quem seria seu primeiro-ministro. Mas ficou claro que os espanhóis estão cansados do bipartidarismo do conservador Partido Popular ou do socialista PSOE. Tanto que votaram no esquerdista Podemos e no liberal Ciudadanos. Agora, teremos uma longa semana de negociações para formar um governo de coalizão.

Este é um desafio para o rei Filipe VI. Ele terá que negociar com os partidos para a formação de uma coalizão. Mas está claro que os conservadores não tem força para formar um governo de união nacional mesmo sendo o partido com mais assentos no parlamento com 123 cadeiras seguidos por 91 do PSOE, 69 do Podemos e 40 do Ciudadanos.

O primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy pediu para que o monarca autorizasse o seu pedido para formar um novo governo. Mas fica claro que a coalizão terá de ser de três partidos. Os socialistas podem formar um gabinete com representantes do Podemos e Ciudadanos. Essa composição teria que sobreviver a um voto de confiança tão logo o acordo seja oficializado.

O líder do PSOE, Pedro Sanchez teve que pedir desculpas pelo fraco desempenho do partido nas urnas. Mas fica claro que pode ser um futuro primeiro-ministro porque pode formar uma coalizão junto com o Podemos e Ciudadanos. Isso fortaleceria a esquerda espanhola como forma de contraponto aos anos de austeridade econômica da Era Rajoy.

Mas agora tanto o líder do Podemos, Pablo Iglesias quanto o seu colega de Ciudadanos, Albert Rivera pode exigir compromissos de Rajoy ou Sanchez para fazer parte do futuro governo. A condução das negociações que será feita por Filipe VI será importante para o futuro de uma coalizão a espanhola.

A indefinição espanhola

No domingo, os espanhóis irão as urnas para escolher um novo parlamento. Mas pela primeira vez na história da redemocratização espanhola. Tanto socialistas quanto conservadores não terão maioria absoluta para governar sem ter que fazer um governo de coalizão como o esquerdista Podemos e o centro-direita Ciudadanos.

Tanto Ciudadanos quanto Podemos nasceram da crise econômica espanhola em 2008. O Ciudadanos defende reformas econômicas sem ter sacrifícios para a população. Enquanto o Podemos acredita em uma reforma estatizantes de uma vertente da esquerda que ganhou força nos protestos de maio de 2011.

O primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy teve que adotar reformas necessárias e dolorosas para a população espanhola. Mas isso criou uma animosidade entre o presidente de governo e os espanhóis. Tanto que ele levou um soco durante um comício nessa semana junto com sua ausência no único debate realizado semanas atrás.

Isto fortaleceu tanto a oposição socialista liderada por Pedro Sanchez, que unificou o partido depois da luta interna entre Carmen Chacón e Alfredo Rubalcaba. Isso mostrou uma nova fase dos socialistas desde do fim do mandato do ex-premiê socialista José Luiz Rodrigues Zapatero no fim de 2011.

Os espanhóis estão divididos tanto entre os partidos tradicionais quanto nas novas agremiações partidárias. Isso cria uma nova relação política onde se faz necessária negociação para a formação de um governo de coalizão nos próximos dias se nenhum partido tenha maioria absoluta no parlamento. Está é a indefinição espanhola.

Ancelotti é demitido do Real Madrid por causa do ego inflado de Florentino Perez

Não é só o Brasil que demite técnico. Na Espanha, o técnico italiano Carlo Ancelotti foi demitido do Real Madrid pelo fracasso de não conquistar a Champions League e o campeonato espanhol. O craque-celebridade portuga Cristiano Ronaldo agradeceu o ex-treinador do clube merengue. A decisão foi tomada pelo presidente Florentino Perez. Pergunta: Será que o Ancelotti topa treinar o São Paulo?

Eleições pelo mundo

  • Na Polônia, O conservador Andrzej Duda vence o segundo turno da eleição presidencial por 57% dos votos. Problema para os russos e alemães.
  • Na Espanha, nas eleições locais, o partido anti-austeridade Podemos e o movimento anti-corrupção Ciudadanos ganharam votos e podem complicar a vida dos conservadores e socialistas na para a eleição geral no fim do ano. Ou seja, dores de cabeça para o primeiro-ministro Mariano Rajoy.

O recado da Catalunha

Ontem, a Catalunha foi as urnas para escolher se continuaria sob o domínio espanhol ou pediriam a independência de Madrid. Com mais de 2 milhões de eleitores indo aos centros de votação dos 5 milhões aptos a votar. O resultado foi que 80% da população queria a independência da região autônoma espanhola. O referendo considerado ilegal pelo governo central, mas a vitória dos nacionalistas catalães não pode ser ignorada pelo primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy.

A votação foi de grande importância que até o técnico do clube alemão Bayern de Munique, Pep Guardiola foi votar em Barcelona. O presidente da Catalunha, o nacionalista Artur Mas considerou o resultado importante para um eventual referendo de comum acordo com Madrid. Enquanto os conservadores criticaram a votação. O novo líder da oposição, o socialista Pedro Sanchez, adotou um tom moderado ao afirmar que o dia 10 de novembro é um novo marco na história espanhola por redefinir os termos do federalismo.

Um resultado de mais de 80% dos votos não pode ser ignorado. Os catalães querem o mínimo de intervenção do governo central em suas vidas. A população local teve sua língua censurada pela ditadura do general Francisco Franco por 39 anos. Com a redemocratização do país em 1977 sob o comando do rei Juan Carlos. A região começou sentir os ventos da liberdade e conquistar a autonomia no referendo de 2006 durante o mandato do premiê socialista José Luiz Rodrigues Zapatero.

A Catalunha quer a independência porque sempre foi contra a política de austeridade implantada por Rajoy. A região é rica e a mais industrializada da Espanha. Os catalães querem ter o direito de decidir o seu futuro econômico e não sustentar um país estagnado e decadente como o atual momento espanhol. Este sentimento de rejeição e ao mesmo tempo independência é claro nos discursos dos nacionalistas, que gozam uma grande popularidade no território.

Rajoy quer manter a Espanha unida por temer uma derrota nas eleições gerais de 2015. Pedro Sanchez é um líder jovem e pode capitalizar o sentimento de uma população que sente revoltada com as políticas econômicas de Madrid. O recado da Catalunha foi alto e claro. Isto não pode ser ignorado. A discussão sobre o federalismo espanhol foi aberta para que os partidos defenda uma Espanha forte. Mas não pode negar o anseio da emancipação catalã.