Os mortos de Ancara

Ontem, mais um atentado terrorista atingiu a capital da Turquia, Ancara. Um carro-bomba matou 37 pessoas e feriu 71 no centro da cidade. A reação do governo turco foi culpar a minoria curda e iniciou uma campanha de bombardeio no norte do Iraque para enfraquecer o grupo terrorista curdo PKK. Mas nenhuma organização assumiu a autoria do atentado em Ancara.

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan afirmou em pronunciamento que vai dobrar os joelhos dos terroristas. Este foi o terceiro atentado em Ancara no espaço de tempo de 5 meses. A grande questão é que se adotar o discurso contra os curdos será a solução para conter terrorismo. Mas fica claro que o país tem que lidar com grupos como o próprio PKK e o Daesh.

O processo de paz com os curdos foi solapado por uma vontade megalomaníaca de Erdogan. Sempre que acontece um atentado. O presidente turco acusa a minoria e ainda não age para conter as ameaças do Daesh. Mas isso está criando um amplo debate na Turquia onde a questão da segurança nacional está sendo desvirtuada para censurar a imprensa.

Se nenhum grupo assumiu a autoria do atentado. Temos que ter o trabalho de apurar a história mesmo que o governo anuncie ter preso pessoas envolvidas no ato de forma rápida. Não sabemos a linha de investigação adotada pela polícia turca. Sempre vamos identificar os suspeitos ou terroristas mortos. Mas não temos a certeza sobre a versão oficial.

Quando temos um conflito aberto como entre turcos e os curdos. Uma verdadeira investigação deve ser feita mesmo que a imprensa e a população estejam de mãos atadas. Isso é importante como uma forma de demonstrar respeito a memórias da vítimas e seus familiares que sentiram uma perda. Os mortos de Ancara não devem ser esquecidos pelos próximos meses e anos.

Zaman

Sexta-feira passada, a justiça turca decretou a intervenção no jornal de mais lido do país, Zaman. A decisão se baseou no fato do diário ser propriedade de Fetullah Gulen, um clérigo muçulmano e inimigo político do presidente Recep Tayyip Erdogan. Nos últimos três anos, o Zaman adotou uma postura combativa contra o governo de Erdogan, mas pagou o preço de ser contra o mandatário da nação.

A redação foi invadida pela polícia que teve que enfrentar uma multidão de manifestantes favoráveis a liberdade de imprensa. Tão logo que os jornalistas foram expulsos. O jornal adotou uma postura de elogiar o governo de forma proselitista. Mas a última edição anterior a intervenção. O Zaman estampou uma capa preta alertando o perigo da violação da constituição.

Isso mostra que Erdogan tem pouco apreço pela constituição e pela liberdade de imprensa. A Turquia ocupa os últimos lugares nos rankings de países que censuram a mídia. A intervenção do Zaman reforça a tese que o presidente turco gosta da livre-manifestação de ideias. Desde que seja de seu agrado e que não faça críticas ao seu governo ou denuncie escândalos de corrupção.

Nos últimos anos, vários jornais de oposição foram fechados pelo governo. A constituição de 1980 em seu artigo 301 considera insultos contra o espírito turco e o estado crime com pena de prisão. Tal lei nunca foi mudada por governos posteriores ao regime militar de 1980 a 1983. Tal clausula foi usada em um processo penal contra o escritor Orham Pamuk em 2006. Mas a justiça arquivou o caso quando ele ganhou o prêmio Nobel no mesmo ano.

Os turcos tem que ir as ruas para exigir a preservação da liberdade de expressão. Erdogan está querendo enfraquecer os parlamentares de origem curda tirando-lhe direitos e a imunidade parlamentar. As fotos da resistência dos manifestantes em frente a sede do Zaman mostra que a liberdade está sendo defendida de forma honesta e consciente pelo mundo.

A ressurreição de Erdogan

Hoje, os turcos foram as urnas para a escolha de um novo parlamento em eleições antecipadas dado o fato que o partido governista AKP não conseguiu formar um governo de coalizão. O AKP ganhou 316 assentos contra os 134 do CHP (Kemalista), 59 do HDP (representantes da minoria curda) e 41 MHP (nacionaslistas). O primeiro-ministro Ahmet Davutoglu afirmou que a vitória do AKP foi uma vitória da democracia.

Mas é nítido a influência do presidente e fundador do AKP, Recep Tayyip Erdogan. Sua fala dura contra a oposição por não tolerar críticas a seu governo tem criado pesadelos em Bruxelas mesmo com o reinicio das negociações para aceitar a Turquia como membro da União Europeia. Mesmo estando em um cargo decorativo, Erdogan insiste em mudar o sistema de governo do parlamentarismo para o presidencialismo para ter plenos poderes.

Os turcos estão preocupados com isso. Mas o maior temor é recrudescimento do terrorismo do Estado Islâmico. Erdogan tem outro foco, a luta contra a minoria curda que é culpada por causar os recentes ataques terroristas. Mas isso não abalou a população que conseguiu eleger o partido curdo HDP com 10.5% dos votos para ter participação efetiva no novo parlamento e fazer uma forte oposição as pretensões de Erdogan.

A oposição turca acredita que a aceitação da Turquia na União Europeia seria um bom freio as pretensões de Erdogan. Mas o presidente turco transcendeu como líder do povo árabe por conciliar democracia e o islamismo. Mas ele caiu em descrédito no Ocidente por sua obsessão em perseguir aqueles que são críticos ao seu governo como fez nos protestos de maio de 2013 em Istambul contra o fim do Gezi Park para dar lugar a uma construção de uma mesquita no local.

Mesmo tendo maioria no parlamento. Erdogan não tem os assentos necessários para convocar um referendo ou mudar a constituição sozinho. Isso mostra que a população não lhe quis passar um cheque em branco mesmo confiando nele como um fator de estabilidade na Turquia. A vitória de hoje pode reforçar o poder do primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, que pode ser a ponte entre os desejos de Erdogan e os anseios do turcos nesse momento conturbado em que o país vive.

Turquia está revoltada com o Papa Francisco

Em uma missa no Vaticano. Papa Francisco citou o genocídio do antigo império otomano contra a população armênia em 1915. Isso gerou uma revolta na Turquia, onde o embaixador do Vaticano em Ancara foi convocado para dar explicações. No país, o artigo 301 da constituição de 1980 indica quem fizer uma simples menção ao genocídio comete o crime contra o espírito turco. Pelo jeito, o sultão-presidente Recep Tayyip Erdogan deve está cuspindo fogo pelas ventas.

A democracia autoritária turca

A Turquia vive tempos sombrios no quesito liberdade de expressão. A prisão de 24 jornalistas que trabalhavam no jornal Zaman e na tv Samanyolu. Ambos são conhecidos por sua linha editorial critica ao presidente Recep Tayyip Erdogan. Isso foi um grande choque para os turcos. A acusação de uma tentativa de golpe contra Erdogan foi usada para prender tais pessoas. Segundo o governo, tais orgãos de imprensa são ligados ao clérigo e opositor do presidente, Fetullah Gulen, que vive em um auto-exílio nos Estados Unidos.

Gulen é o fundador do movimento Himzet, que tem muitos membros que trabalham na polícia, judiciário, política e afins. Desde do início do duelo entre o clérigo e o presidente em 2013. A Turquia tem sido palco de prisões de jornalistas ou a detenção de membros do governo acusados de corrupção. Erdogan não tem alguém que lhe faça contraponto a sua política de mudar o país a sua maneira tanto com propostas como trocar o sistema parlamentarista para o presidencialismo via reforma constitucional patrocinada pelo seu partido AKP.

A população apoia Erdogan, mas sua forma arrogante de fazer política sem ouvir a oposição e encarcerar todo aquele que se opõe ao seu governo mostra a falta de tato de um político como o presidente turco. Ontem, ele criticou a reação da União Europeia, que pediu a libertação dos jornalistas. Mas o Erdogan respondeu que a UE deveria cuidar de suas coisas invés de criticar a Turquia. O país tenta ser membro da entidade desde de 2005, mas as tentativas fracassam nas reformas pífias adotadas pelo governo.

O duelo entre o clérigo e o presidente continua dando a tônica da política turca. Gulen é um sujeito recluso que dá poucas entrevistas (sendo a última para a rede de TV pública britânica BBC em 2013). As notícias que prejudicam o governo não são divulgadas por medo de represálias. Se algum jornal ou TV noticiar o custo da construção do suntuoso Palácio Branco, a nova sede da presidência turca. Isso pode servir como forma de punição por parte do governo. Tanto que o discurso do Papa Francisco em sua recente visita ao país quase foi censurado por Ancara.

Nos próximos dias, a pressão internacional e a esperança da população turca em exigir respostas sobre tais prisões pode mudar o curso da arrogância de Erdogan. O chefe de estado terá que explicar porque defende tais detenções sem ter provas que os jornalistas presos faziam parte de uma conspiração que visa derrubar o próprio presidente. Ele vai ter que usar a figura de Gulen para justificar as suas ações. Os turcos devem perder a paciência nesta briga entre o presidente e o clérigo que prejudica a democracia turca.

Kobane

Nos últimos dias, a Turquia virou o foco da preocupação internacional pelo conflito entre sírios de origem curda e militantes do grupo terrorista Estado Islâmico. O EI tenta controlar a cidade de Kobane, que fica na fronteira entre Siria e Turquia. Os avisos do presidente turco Recep Tayyip Erdogan que é preciso uso de tropas na região é uma maneira alertar o mundo o que significa uma intervenção militar em uma guerra assimétrica. Este é o momento onde o mundo ocidental não consegue achar uma solução.

Erdogan defendeu a criação de uma Buffer Zone em território sírio. Está zona permitiria a entrega de suprimentos como armamentos e treinamento para os grupos como os curdos e o exército livre da Siria para enfrentar o EI. Além de permitir a criação de um corredor humanitário para fornecimento de roupas, alimentos e afins para os refugiados sírios. A proposta foi apoiada pelo presidente francês François Hollande e pelo secretário de estado americano John Kerry em uma entrevista coletiva com o seu colega britânico Phillip Hammond ontem.

O momento que a batalha de Kobane continua. Os turcos tem medo de represálias do EI em seu território. Desde da volta de centenas de pessoas em uma negociação entre Ancara e o EI no mês passado. Isso foi liderado pelo novo primeiro-ministro Ahmet Davutoglu. A Turquia se uniu a coalizão que combate o grupo terrorista há poucas semanas após a autorização do parlamento para fazer incursões militares na Siria e Iraque além de bombardear as posições do grupo nestes países.

Os protestos da população contra a demora do governo em ajudar os militantes curdos na Siria é um grande problema para Erdogan. O país tem um acordo de paz entre Ancara e os separatistas na região do Curdistão. Isso só foi conquistado após um longo processo de negociação entre Erdogan e o líder do partido curdo PPK, Abdullah Octalan. A população quer uma ação militar para ajudar os vizinhos como a Siria, que sofre com uma longa guerra cívil entre aliados e opositores do presidente Bashar al-Assad.

As operações militares turcas estão sendo planejadas desde da eclosão do conflito sirio em 2011. O país é membro da OTAN e pode evocar o pedido de proteção da aliança militar ocidental em caso de ataque por parte do EI ou de outros agressores como está nos principios da organização. Erdogan quer uma ação para conter o radicalismo do EI através de infantaria e soldados. Mas o Ocidente ainda está traumatizado com a guerra do Iraque de 2003. Será que teremos tropas turcas em Kobane?

Ahmet Davutoglu

A Turquia vive um momento interessante. Hoje, Recep Tayyip Erdogan tomou posse como primeiro presidente eleito pela população local. A cerimônia no parlamento foi marcada por protestos de deputados opositores que afirmam que o Erdogan está manipulando a constituição de 1980. Na carta-magna, o presidente tem função cerimonial além de cortar laços com o seu partido, no caso o AK. Tanto que o ex-primeiro-ministro anunciou que o atual chefe da diplomacia turca, Ahmet Davutoglu é o novo chefe de governo.

Erdogan afirmou que Davutoglu não será uma marionete. O atual ministro das relações exteriores tem se destacado por adotar uma política de zero problemas com os vizinhos. Mas a doutrina deu água quando iniciou o incidente do navio humanitário Mavi Marmara, que este tentou entrar um águas israelenses para levar mantimentos para a Faixa de Gaza em 2010. Além de não ter boas relações com Egito e Síria por apoiar facções islamistas.

O novo premiê turco terá que adotar uma política de boa vizinhança com os parceiros no Oriente Médio. Davutoglu é o principal ideólogo de Erdogan. Ele apoia as mudanças constitucionais que permitirão mais poderes para o presidente. Objetivo almejado pelo novo presidente. Mas tais mudanças precisam ser aprovadas pelo parlamento. O AK terá que fazer negociações com a oposição para que isso ocorra de forma discreta.

Erdogan deseja que Davutoglu faça um papel discreto no cargo de premiê. Davutoglu terá muito trabalho em lidar com o impeto do novo presidente além de dissipar a desconfiança de ser uma marionete do mesmo. O novo primeiro-ministro será empossado nos próximos dias. Davutoglu tem uma postura moderada e conciliadora. Isto pode incomodar os erdoganistas que querem um fantoche do um líder político.

O desafio de Davutoglu é liderar o AK para a vitória nas eleições gerais de 2015. O partido vem conquistando uma hegemonia que dura mais de 12 anos no poder. Neste tempo, reduziu o poder dos militares e da justiça como forma de manter o controle do país na base de mão de ferro. A imprensa sofre como uma autocensura imposta para evitar qualquer problema com o governo. Após disso, Davutoglu será um premiê ou uma marionete de Erdogan.