O alerta de Hollande

Hoje, o primeiro-ministro britânico David Cameron fez uma rápida visita a França para cúpula franco-britânica. Além de discutir a situação dos refugiados no porto francês de Calais que desejam ir ao Reino Unido. Cameron ouviu um puxão de orelha de Hollande afirmando que uma eventual saída da Grã-Bretanha da União Europeia teria grandes consequências para a Europa.

O alerta de Hollande vem ao mesmo tempo que o ministro da economia francês, Emmanuel Macron defendeu a vinda dos investidores estrangeiros para La Defense após a saída do Reino Unido na União Europeu em entrevista ao diário financeiro britânico Financial Times em sua edição dessa quarta-feira como uma forma de dizer que a França é um bom lugar para se investir.

Tanto as palavras de Hollande quanto a entrevista de Macron mostram que a França adota um discurso ambíguo em relação ao Reino Unido. Mesmo que os franceses terem concordado com o acordo que deu status especial aos britânicos. Ficou claro que Paris já trabalha em um cenário onde o Brexit seja efetivado em um futuro próximo com duras consequências para a Europa.

No Reino Unido, a campanha anti-Europa ganhou músculos com a adesão de secretários como Michael Gove (Justiça) e Iain Duncan-Smith (trabalho e pensões) junto com o prefeito de Londres Boris Johnson. No lado pró-Europa teve uma surpresa pelo apoio do ministro das finanças da Alemanha, Wolfgang Schäeble durante a sua rápida visita a Londres.

Cameron e Hollande terão que discutir outras questões como a crise humanitária nas estações do Eurotunel entre as cidades de Dover e Calais. França e Reino Unido tem um tratado em que as fronteiras são geridas de forma conjunta. Mas isso foi esquecido pela imprensa que está mais preocupada com a situação política do Reino Unido e sua indecisão sobre a permanência na União Europeia.

 

O pobre destino de um imigrante e do refugiado

A crise humanitária que atinge a Europa atinge proporções épicas. A decisão da Hungria de enviar os imigrantes e refugiados para Alemanha e Áustria como se fosse gado por não querer que fixem residência em seu território mostra o total desespero por lidar com uma questão urgente. Tanto os problemas causados por guerras e conflitos em regiões distantes mostram como o mundo precisa entender a questão migratória.

Tantos os imigrantes de origem africana quantos os refugiados oriundos de países em conflito como Afeganistão, Síria e Iraque desejam ter uma vida melhor e trabalhar para mandar dinheiro para o seu país de origem. Mas enfrenta resistência de grupos nacionalistas pelo medo de roubarem os empregos por serem trabalhadores de serviços pesados além de pedir benefícios oferecidos pelos programas sociais de tais nações.

O fluxo migratório tem crescido diante de uma desordem político-social. Os líderes europeus estão sendo honestos ao pedir a criação de uma política de imigração europeia. Mas o populismo de países como a Hungria do primeiro-ministro nacionalista Victor Orban ou a hesitação do premiê britânico David Cameron por temer problemas sociais no Reino Unido são síntese de uma resposta equivocada para uma questão de suma importância.

Não se resolve o problema construindo muros nas fronteiras. Isso cria uma falsa sensação de segurança. Países como Suécia e Alemanha estão afirmando seus valores de ajuda aos estrangeiros por terem um passado onde a imigração e a valorização do imigrante foram de vital importância para o desenvolvimento do estado de bem estar social. Mas isso é esquecido por outras nações como França, Reino Unido e a própria Hungria.

As cenas de imigrantes e refugiados protestando contra os maus tratos feitos pelo governo húngaro em Budapeste mostra quão complicada a resolução deste problema. Não se pode pedir que tais pessoas voltem para os países de origem ou que todos eles sejam aceitos de braços abertos. Mas um debate sério e que permita esclarecer os pontos em torno da crise imigratória pode mudar o destino de um imigrante e do refugiado.

Um mar de mortes

Na manhã de domingo, o mundo fica chocado com a morte de mais 700 imigrantes que se afogaram em um barco que afundou no Mar Mediterrâneo. Estas pobres almas queriam uma vida melhor na Europa, mas suas vidas foram interrompidas na longa travessia. Os governos europeus estão tentando entender tal tragédia e encontrando maneiras de controlar a imigração. Mas com o fracasso econômico de países africanos junto com o fato da perseguição religiosa em muitas partes do Oriente Médio força tal jornada.

Quando o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi afirmou que pretende combater o tráfico de pessoas. Sinto que ele tem boas intenções, mas como um beija flor que não consegue apagar o fogo da floresta sozinho. Renzi tem mostrar um lado humano de um político que fica cheio de problemas. A União Europeia se reúne na quinta-feira para tentar solucionar está crise. Mas confiar em um ditador como o presidente do pequeno país africano chamado Niger não é a melhor solução para esse problema humanitário.

Os políticos apostam em desestimular a imigração. Mas quando se nota tragédias humanitárias. Nossos princípios deveriam vir em primeiro lugar em nossas mentes do que os interesses partidários, ideológicos e econômicos. A Europa está tendo uma crise humanitária em suas fronteiras. Mas o temor que os descendentes destes imigrantes se juntam a grupo radicais por não se sentirem como membros de um país acolhedor. Nos faz pensar sobre o triste fim do multiculturalismo.

A grande questão é o preconceito nacionalista que é uma coisa epidêmica em uma Europa em crise. As instituições europeias que foram criadas como um antídoto a isso estão frágeis ao lidar com um problema dessa magnitude. Este caso exige que o controle de migração seja feito respeitando o princípio de livre circulação de pessoas que é uma das bases dessa nova Europa que nasceu dos escombros da segunda guerra mundial. Mas como lidar com está pessoa que busca uma vida melhor.

A cúpula da União Europeia dessa quinta-feira vai ter que discutir como conter uma crise humanitária e permitir o salvamento de mais imigrantes que tomam essa arriscada jornada para ter uma vida melhor. Bruxelas vai ter que olhar com humanidade diante de um desafio que foge de seu controle. A imigração é um ato de uma pessoa buscar uma vida melhor em outro país longe de sua pátria mãe. Os imigrantes não querem morrer em um barco no Mar Mediterrâneo, mas sim prover seus parentes com um bom dinheiro para melhorar tais vidas.

O fim da era da humilhação?

Há horas atrás, a comissão eleitoral grega anunciou que o Syriza pode ter de 149 a 151 assentos do parlamento (de 300 cadeiras). Tal vitória de um partido de extrema-esquerda é um feito e tanto. Tanto o líder do Syriza, Alexis Tsipras quanto o primeiro-ministro conservador Antonis Samaras foram ao público para declarar para reconhecer a decisão das urnas. O resultado deve influir negativamente nos mercados europeus amanhã. Não se sabe qual será a posição da troika União Europeia, FMI e Banco Central Europeu.

Mas será que o fim da era da humilhação prometida por Tsipras está acabando para o alívio dos gregos? A grande questão é como será feita a renegociação da dívida externa do país. O Syriza promete acabar com as medidas de austeridade. Mas isso não será um fogo de palha diante da realidade de uma Grécia que vive o pior momento econômico de sua história recente. Os cortes de gastos e as duras reformas no setor trabalhista e previdenciário traumatizaram os gregos nestes últimos anos.

Tsipras fez um discurso em frente a universidade de Atenas onde festejou o fato da população um claro e poderoso mandato para ele. Enquanto Samaras afirmou que tinha que respeitar os resultados das urnas. Neste momento, a fala de Tsipras onde critica as medidas de austeridade que sacrificaram a vida dos gregos soam como um claro aviso para Bruxelas e Berlim. O novo primeiro-ministro defende a tese que a dívida seja renegociada do mesmo modo como foi feita com a então Alemanha Ocidental em uma conferência de 1953.

Os mercados europeus estarão tensos. Não se sabe da reação do presidente da comissão europeia, o luxemburguês Jean-Claude Juncker ou da chanceler alemã Angela Merkel. O resultado das urnas helênicas mostra o vigor de uma democracia que deseja terminar com a era da humilhação com medidas populistas. Mas a principal diferença de Tsipras é não ter um plano salvador da pátria helênica como estatizações e afins. Ele quer por a casa em ordem a sua maneira esquerdista de ser.

A pergunta que fica sobre o fim da era da humilhação grega nos força fazer uma reflexão. Os anos de austeridade criaram um efeito colateral da ascensão de partidos extremistas como o próprio Syriza e o neo-nazista Aurora Dourada. Caso o Syriza não consiga maioria para governar sozinho. Ele pode formar uma coalizão com o partido centrista To Potami (o rio em grego). Isso pode ser o sinal de juízo que os líderes europeus tanto esperam deste novo primeiro-ministro e sua jornada para acabar com tais humilhações.

Syrizafobia

Nesse domingo, os gregos irão as urnas para escolher um novo parlamento. As pesquisas apontam que a coalizão de centro-esquerda Syriza pode vencer o pleito após dois anos de governo de união nacional entre o conservador Nova Democracia e o socialista Pasok. O resultado dessa eleição é tão temida que a chanceler alemã Angela Merkel pediu para os gregos se manterem na eurozona. Mas será que este pedido será atendido por uma população que sofreu com a crise de sua dívida desde de 2010.

O líder do Syriza, Alexis Tsipras disse em seu último comício antes da votação que tal momento encerrava uma era de humilhação para os gregos. O atual primeiro-ministro Antonis Samaras fará um discurso para a militância hoje a noite. Mas a eleição na Grécia será de fundamental importância. Mesmo com as contas públicas controladas após uma dura reforma no sistema econômico e social. Mesmo assim, a dívida grega está em 175% do pib do país. Tsipras defende uma renegociação disso.

A Alemanha de Merkel não aceita qualquer tipo de mudança em política econômica. Tanto que o Quantitative Easing (programa de estimulo econômico) lançado ontem pelo Banco Central Europeu levou muito tempo para ser aceito pelos alemães. Uma eventual renegociação da dívida grega vai ter que ser feita de forma gradual. Tsipras quer manter a Grécia na Eurozona. Mas o temor que a vitória do Syriza possa afundar ainda mais o projeto europeu defendido por garras e dentes por Merkel é muito grande.

As pesquisas de opinião apontam por uma vitória do Syriza. Mas o futuro parlamento grego pode ser muito fragmentado com a eleição de partidos nacionalistas e extremistas como o neo-nazista Aurora Dourada. Tsipras terá que negociar com estes novos atores para formar um novo governo caso não consiga uma maioria suficiente para governar sem auxilio de outros partidos. O Syriza terá que ser hábil com isso. Tanto que passou de um grupo radical para um partido moderado e com grande apoio dos gregos.

A eleição desse domingo será muito importante para o futuro do projeto europeu. O Syriza terá que vencer as desconfianças e permitir que sua tão desejada renegociação seja compreendida por Merkel e outros membros da eurozona. Este árduo trabalho terá que ser costurado as custas de esperanças e desilusões. Não sabemos se tal partido será capaz de cumprir a promessa do fim da era da humilhação. Mas os gregos querem um futuro melhor e isso não temos dúvidas.

Deflaçãofobia

Quando a economia vê uma queda de preços de produtos e serviços que não acompanha o ganho real do poder de compra de uma população. Isso é chamado de deflação. Muitos países viveram isso. O exemplo cabal disso é o Japão pós-crise financeira de 1987. O governo não fez reformas que criasse um equilíbrio das contas públicas mais um setor privado que pagasse suas dívidas acumuladas ao longo dos anos de euforia e farra. O Japão viveu uma década perdida nos anos 1990 até a volta da política de estímulos econômicos do premiê Shinzo Abe, o Abenomics.

O medo da deflação ronda a Europa. Os países-membros da Eurozona estão sofrendo com isso dado o fato de suas taxas de desempregos são muitos altas como Espanha e Grécia ou a economia está em um ritmo lento de crescimento no caso da Alemanha. Desde do começo do ano, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi vem propondo um programa de estímulo econômico. Mas isso é rejeitado pela Alemanha, que defende que as nações europeias arrumem a casa na questão das dívidas internas e deficit fiscal.

O Quantitative Easing feito por Estados Unidos, Reino Unido e Japão teria muitos problemas legais porque o BCE não tem está prerrogativa. Mas uma decisão da corte europeia de justiça permite o uso do OMT (Outright Monetary Transactions). Este plano permite o financiamento das economias do velho continente via a compra de títulos da dívida destes países pelo Banco Central Europeu. Mas a oposição da Alemanha a está operação financeira vem do fato que os governos ainda não colocaram a casa em ordem como reformas no sistema de aposentadorias e trabalhista.

Mario Draghi terá que convencer os alemães usando o argumento da deflação. Se um europeu comum tem um salário baixo para um custo de vida que perde valor, mas mesmo assim se mantém caro. A deflação está agindo de forma a corroer o poder de compra. Mas como estimular os governos a investirem em infraestrutura ou o setor privado no mercado do velho continente em um cenário tenebroso. Mesmo com o anúncio de plano de investimentos pelo presidente da comissão europeia, Jean-Claude Juncker, a Europa não sai do atoleiro.

A chanceler alemã Angela Merkel terá que ser convencida a apoiar a estratégia de Draghi para conter a deflação. Isto vai exigir uma ampla argumentação que afirme que o OMT não vai prejudicar as contas públicas dos países endividados da Eurozona como Grécia e Espanha. Este cenário tenebroso pode prejudicar a Alemanha no longo prazo. Mas o europeu comum se pergunta como o OMT poderá ajudar na sua vida. A resposta será quando a economia tiver uma inflação controlada e tal ser poder ter um custo de vida simples e que cabe no bolso.

A Europolitik de Merkel

Ontem, a chanceler alemã Angela Merkel fez uma visita rápida ao Reino Unido. Em meio aos atentados contra o jornal francês Charlie Hebdo, Merkel e o primeiro-ministro britânico David Cameron condenaram o ataque. Mas tal viagem foi uma forma de negociar sobre os termos de associação que o Reino Unido pretende mudar em um acordo com a União Europeia que pode ser ratificado pela população por meio de um referendo em 2017 em caso de uma vitória do partido conservador nas eleições gerais de maio de 2015.

A rápida visita de Merkel mostra o poder da Alemanha na questão europeia. Desde que assumiu o poder em 2005, a chanceler tem mostrado uma força política nunca antes vista na história da Alemanha reunificada. A reeleição como líder dos democratas-cristãos reforça a tese que ele pode disputar as eleições gerais marcadas em 2017. Os alemães adotaram o modo da Mutti Merkel, Um mãe para aqueles que nasceram após a reunificação em 1990. Uma política tão habilidosa como Merkel não era vista desde Helmut Kohl.

Mesmo com protestos anti-islamitas feitas pelo grupo extremista Pegida. Merkel iniciou uma reação com um pronunciamento onde defendeu a Europa e os imigrantes. Desde de então, várias personalidades alemãs se engajaram em protestos e abaixo-assinados defendendo os muçulmanos e a imigração. Merkel já foi questionada em 2013 por ter dito que o multiculturalismo falhou. Mas seu discurso de fim de ano reforçou a impressão que ela quer liderar a Alemanha em uma nova Europa.

A Europolitik defendida por Merkel se mostra contra a restrição da circulação de pessoas entre os países-membros da União Europeia. Uma doutrina econômica onde o controle fiscal, corte de gastos e um amplo controle dos orçamentos nacionais sobre um órgão europeu comandado de Bruxelas. Um dogma na fé de uma Europa sem guerras e onde os direitos e deveres dos cidadãos são respeitados por membros da UE. Isso é feita a risca pela Alemanha de Angela Merkel desde de 2005.

A Europa nunca viu uma estadista tão determinada como a chanceler alemã. Ela é temida por gente como o presidente russo Vladimir Putin. Sua crença em uma Europa unida para evitar guerras e afins é um caminho que ela persegue com unhas e dentes. Isso não se via desde da união entre o líder alemão Konrad Adenauer e o presidente francês Charles De Gaulle. Mas os europeus confiam nesta nova forma de doutrina europeia formulada pela Alemanha? Está é europolitik de Merkel.