A doutrina Hollande

Em um país que sofre dois grandes atentados como a França neste ano. A figura do presidente François Hollande pode ser considerado um estadista nos momentos difíceis que a nação francesa vive. Mas a pergunta que fica é se a estratégia de combater o terrorismo e ao mesmo tempo, preservar as liberdades individuais será eficaz de derrotar tal mal.

Hollande conseguiu o apoio da população por sua estratégia de estar pronto caso a França seja atacada. Seu discurso no dia dos atentados de 13 de novembro mostrou o compromisso do presidente francês em derrotar o terrorismo como fez nos ataques de 7 de janeiro deste ano. É uma nova fase do Monsieur Normal.

O presidente francês que é impopular por seu fracasso econômico tem o apoio da população por sua postura sensata diante de atentados terroristas. Mas fica comprovado que não existe uma estratégia militar para derrotar o grupo Estado Islâmico mesmo com o apoio de Rússia e Estados Unidos.

Hollande adota uma postura de mandar tropas francesas em ex-colônias africanas como o Mali em resposta a ameaça terrorista no norte da áfrica. Mas hoje, um ataque a um hotel na capital malinesa que deixou 27 mortos põe em cheque qualquer estratégia em usar soldados para combater terroristas em territórios distantes.

As próximas semanas, Hollande terá que costurar os acordos para que se tenha uma grande coalizão militar contra o Estado Islâmico. Tanto que ele vai viajar aos Estados Unidos e a Rússia para ter apoio para tal empreitada. Isso vai exigir um amplo arranjo diplomático para evitar que a doutrina Hollande não fracasse.

França e Rússia

Na segunda guerra mundial. A Alemanha nazista tomou uma decisão precipitada de invadir a União Soviética afim de assustar o Reino Unido que resistia corajosamente aos bombardeios alemães em Londres. Passado-se 70 anos, uma nova aliança surge no horizonte para enfrentar o terrorismo do grupo Estado Islâmico: França e Rússia.

A decisão tomada pelo presidente francês François Hollande junto com o seu colega russo Vladimir Putin mostra-se acertada em um momento conturbado que vivemos. Mas como fica questões importantes como as sanções econômicas e militares aos russos impostos aos franceses junto com a União Europeia diante da guerra civil na Ucrânia?

Russos e franceses estão unidos após seus conterrâneos serem mortos em atentados feito pelo Estado Islâmico após a intervenção militar por ambos os países na Síria. Hollande quer unificar os esforços militares tanto dos Estados Unidos quanto da Rússia como uma forma de retaliação aos atentados de 13 de novembro.

O presidente francês ira fazer uma visita aos Estados Unidos e Rússia para tentar uma unificação de tais esforços sob a liderança da França. Hollande ainda terá um longo trabalho pela frente na sua luta contra o terror. Tanto que o primeiro-ministro britânico David Cameron anunciou que o Reino Unido vai se engajar na coalizão francesa na Síria.

Ainda não se sabe qual atitude a França irá tomar. Uma eventual resolução francesa para o conselho de segurança da ONU precisa ser aprovada sem ter algum veto russo. Mas em um momento em que ambos os países sofrem ameaças de novos ataques pelo Estado Islâmico. Fica claro que a aliança franco-russa será necessária neste momento.

Obama diz a Hollande que a NSA não está xeretando a vida de presidentes franceses

As tensões entre França e Estados Unidos diminuíram. Mas os panos quentes precisam ser trocados rapidamente. Após o jornal francês Liberaration junto com os sites Mediapart e Wikileaks terem revelado que a inteligência dos States espionou os presidentes franceses Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande entre 2006 a 2012. Hoje, Obama ligou para Hollande afirmando que o território que fica entre o Canadá e o México não está xeretando os políticos da terra de Napoleão. Pelo jeito, a desculpa do Moisés Negão não vai acalmar o sangue quente francófono.

Estados Unidos espionou Chirac, Sarkozy e Hollande para desespero de Paris

Há poucos minutos, o site Wikileaks revelou que a NSA (agência de segurança nacional dos Estados Unidos) espionou os presidentes franceses Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande entre 2006 a 2012. O departamento de Estado não comentou as novas revelações. Pelo jeito, temos revolta no Palais Elyseé caso o NSA ter investigado a vida sexual de tais mandatários da terra de Napoleão.

A diplomacia de Merkel e Hollande

No pós-guerra europeu, Alemanha e França desenharam uma estreita relação diplomática. Isto foi o pilar para o nascimento da União Europeia. Alemães e franceses assinaram um tratado de amizade em 1963 e sempre tiveram uma grande influência na política do velho continente. O presidente francês sempre visita a Alemanha depois de sua posse para conversar com o chanceler alemão e vice-versa. Não é surpresa o acordo de paz firmado entre Rússia e Ucrânia na Bielorrússia sob a mediação franco-germânica.

A chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês François Hollande conseguiram parar um banho de sangue no continente europeu com uma negociação direta e frequente. Eles visitaram a Rússia e a Ucrânia para conseguir garantias do cumprimento do plano de paz no leste ucraniano. França e Alemanha foram capazes de unir forças para o improvável e sem o envolvimento dos Estados Unidos. Este foi um acordo 100% europeu e uma prova que a Europa pode resolver seus problemas internos sem a intromissão americana.

Angela Merkel mostrou ter uma força nunca antes vista. Em uma semana agitada, ela foi aos Estados Unidos, Bélgica, Rússia e Bielorrússia. Não demonstrou cansaço comum para uma senhora de 60 anos. Isso foi comentado na imprensa alemã. Isso prova o poder alemão. A diplomacia foi feita em palácios com longas horas de negociação. O fato de Merkel ser reeleita líder dos democratas-cristãos até 2017  pode reforçar a tese que pode disputar um quarto mandato a frente da chancelaria.

François Hollande tem conquistado uma boa fase politicamente falando. Ao mostrar ser um presidente que o país necessitava quando estava sob os ataques terroristas de 7 e 9 de janeiro. Ele não hesitou em nenhum momento e os franceses reconheceram isso quando aprovam a sua gestão no Palais Elyseé após meses em baixa. Não se sabe se ele poderá concorrer as eleições presidenciais de 2017 dado o fato dos socialistas terem candidatos como o primeiro-ministro Manuel Valls ou Arnaud Montebourg.

Merkel e Hollande foram capazes de fazer um acordo frágil entre Rússia e Ucrânia. Isso mostra um novo protagonismo no plano político europeu. França e Alemanha estão dando um sinal que podem romper com a influência americana sem o anti-americanismo tolo. A sensação de ver dois países unidos para tirar a Europa da paralisia mostra que o continente quer ser ouvido nas grandes questões da geopolítica mundial. O acordo de Minsk é o primeiro passo nesta direção para Merkel e Hollande.

As conversas de Moscou

Moscou sempre foi uma cidade em que os rumos da humanidade são decididos pelos políticos russos no Kremlin. Não foi diferente a visita da chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês François Hollande ao líder russo Vladimir Putin para discutir um eventual acordo de paz na Ucrânia. O conteúdo das negociações não foi divulgado e um funcionário do Kremlin afirmou que tais líderes irão fazer uma conferência telefônica no domingo para discutir a situação do país eslavo ensaguentado pela guerra civil que dura um ano.

Neste momento, o conflito ucraniano entra em uma batalha perdida. Os rebeldes do leste do país estão organizando uma ofensiva militar contra um vilarejo controlado pelo governo de Kiev. Merkel e Hollande foram a Ucrânia ontem para conversar com o presidente Petro Poroshenko. Existe nenhum consenso de ambos os lados para encerrar a contenda. Tanto que o vice-presidente americano Joe Biden defendeu o fornecimento de armamento para Kiev e disse que a Rússia não deve redefinir as fronteiras europeias.

Para muitos analistas militares, a Europa pode estar perto do cenário da invasão soviética a antiga Checoslováquia que encerrou a Primavera de Praga em agosto de 1968. O país desenvolveu uma política independente das ordens de Moscou, que ordenou a ofensiva e a prisão de líderes políticos como o secretário-geral Alexander Dubcek. A determinação de Hollande e Merkel de tentar parar a máquina russa ou a insistência ucraniana é sem precedentes na história recente da Europa.

Putin vive um momento delicado com a queda do Rublo. Mas as ambições imperiais no consciente coletivo russo persistem. A perda da Ucrânia para o Ocidente capitalista será mais uma catástrofe política de Putin. Ele não quer ser reconhecido nos livros de história como um sujeito fraco e servil ao mundo infiel como foi Mikhail Gorbachev, que nem é citado entre os russos ou Boris Ieltsin e sua fraca predileção a bebida. Putin quer ser o presidente forte que este grande país tanto necessita em sua propaganda estatal.

Merkel e Hollande reafirmam o poder franco-alemão que cimentou a União Europeia no tratado de amizade entre os dois países assinado em 1963. Os dois políticos foram a Rússia e a Ucrânia para tentar parar a máquina da guerra. Mas não conseguiram um consenso vital e necessário para a vida dos ucranianos do leste. França e Alemanha estão fazendo a sua própria política externa sem a interferência dos Estados Unidos. Isto foi um grande avanço, mas um pequeno passo nas conversas de Moscou.

Je suis Charlie

Cartunistas homenageiam vítimas de ataque à revista francesa

Fonte: Portal UOL.

Hoje, 7 de janeiro de 2015, o mundo viu a barbárie onde três terroristas mataram 10 jornalistas e 2 policiais em Paris. O motivo era a liberdade de expressão empregada pelo jornal satírico francês Charlie Hebdo. Depois que este ato sangrento ganhou a manchete dos jornais, sites, TVs, rádios e revistas. Um gesto sem precedentes tomou conta deste planeta, mais de 100 mil franceses foram as praças de cidades como Paris, Toulose, Nice, Nantes, Marseille e Lyon com uma única frase em suas mãos: “Je Suis Charlie” (Eu sou Charlie).

Quando se pensa que a liberdade de expressão estaria morta. O gesto destes 100 mil franceses e outros defensores da liberdade ganha pulso e força contra o extremismo. A coragem de um teclado, de uma máquina de escrever ou de uma simples caneta força uma reação onde todos querem preservar o direito de falar, escrever, comentar e fazer piadas em um mundo onde as loucuras humanas tomam conta de seres humanos que buscam utopias estúpidas e incapazes de abrir suas mentes para uma realidade.

A liberdade é um valor tão caro aos franceses que lutaram por isso durante vários períodos em sua história. A criação de Charlie Hebdo foi uma resposta a um gaulismo e seu ranço autoritário. O jornal semanal não abaixou a sua cabeça em momentos como o conservadorismo de Georges Pompidou. O solteirismo Valery Giscard D’Estaing. O socialismo de François Mittiterrand. As puladas de cerca de Jacques Chirac. O personalismo de Nicolas Sarkozy e a baixa popularidade de François Hollande.

Muitos avaliam que hoje foi um 11 de setembro para a imprensa. Mas como a reação norueguesa aos ataques de 2011, onde uma população e um governo defenderam a democracia com força contra o extremismo. Os franceses não vão abandonar seus valores por medo de enfrentar um inimigo que não teme a morte. A melhor resposta a este tipo de comportamento é não abandonar nossos hábitos ou fazer perseguição contra aqueles que possam ser uma possível ameaça, mas que são moderados e não merecem pagar os pecados do preconceito alheio.

As mortes de Stéphanne Charbonnier (Charb), Jean Cabut (Cabu), Georges Wolinski (Wolinski), Bernard Vilhacs (Tignous), Bernard Maris, Philippe Honoré (Honoré), Frédéric Boisseau, Frank Brinsolaro, Ahmed Berabet, Michel Renaud e Mustapha Ourrad entrarão para história como mártires da liberdade que a França sempre defendeu. O mundo não pode esquecer estes nomes como forma de fazer justiça de aqueles que sempre queriam rir deste planeta louco com um simples traço de humor e caneta.