Lembranças de 1977

Eu estava comentando com o meu amigo AVC sobre a falta de conhecimento dos youtubers contratados pela montadora Renault para divulgar o GP da Brasil diante da celebração dos 40 anos da estréia da mesma na Formula 1 com a inovação de criar o motor Turbo. Pensei um pouco sobre tal assunto e percebi que não temos memória sobre os eventos históricos ocorridos naquele ano.

Vou relembrar alguns fatos para refrescar a memória do caro leitor deste blog.

Em 1977, a banda punk Sex Pistols lançava o disco Never mind The Buzzcocks com a canção God Save The Queen, que era uma crítica pesada a monarquia britânica que festejava o jubileu de prata da Rainha Elizabeth II por seus 25 anos de reinado. Tanto que tal música não era citada nas rádios britânicas e os discos do grupo eram vendidos as escondidas.

Em 1977, um grupo de intelectuais checo-eslovacos resolveram publicar uma carta aberta com críticas ao regime comunista chamada Carta 77. Entre os signatários, estava o futuro presidente da República Checa e dramaturgo Vaclav Havel. Enquanto isso no Oriente Médio, o presidente egípcio Anwar Sadat fez a primeira visita de um líder árabe a Israel.

Em 1977, o Corinthians foi campeão paulista encerrando um jejum de 23 anos sem títulos no gol feito por Basílio na decisão contra a Ponte Preta enquanto o São Paulo foi campeão brasileiro derrotando o Atlético Mineiro na final no duelo entre o atacante do Galo, Reinaldo, junto com o artilheiro tricolor Serginho Chulapa.

Enfim, o ano de 1977 tem muitas lembranças que precisam ser discutidas por todos e não apenas para comemorar um feito que nem os youtubers nem procuraram ler para falar ao público.

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Diploma não garante credibilidade

Hoje a tarde, estava conversando com o meu amigo AVC enquanto fazíamos um briefing sobre o jogo entre Borússia Dortmund e Stuttgart quando ele comentou que tinha certos jornalistas cravando que o Corinthians é o maior vencedor do campeonato brasileiro se esquecendo de competições dos anos 1960 como a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa que eram os campeonatos nacionais da época.

Isso me fez lembrar de uma vez que tentava criar um ponte intelectual com um jornalista português que cobre o Rugby que ficava irritado com a minha pessoa porque estava mais atualizado do que tal ser humano em assuntos que ele ignorava como a tentativa da inclusão da África do Sul ou da Geórgia no Six Nations no lugar da Itália devido as desastrosas participações da seleção italiana.

Nestes dois casos citados. Tratamos de jornalistas que fizeram faculdade, mas tem problemas em lidar com o público por temer que tais pessoas sejam mais informadas mesmo não tendo um diploma de uma universidade, mas tem jeito pra coisa porque correram atrás das notícias que os nossos periodistas tanto brazucas quanto lusitanos ignoram claramente.

O jornalismo esportivo tanto no Brasil quanto no mundo precisa encarar uma realidade onde pessoas que tem domínio do assuntos mesmo não tendo um diploma possam fazer um trabalho bem feito por meio de redes sociais como facebook, twitter e blogs onde podem publicar comentários, análises e notas sobre tais assuntos após uma longa sessão de reflexão de tal assunto.

O jornalismo precisa encarar uma realidade onde escolas de comunicação e suas teorias caem por terra quando um caipira como este que vos posta sabe mais de assuntos que tais futuros jornalistas não se dão o trabalho de apurar tais pautas. Chega ser frustrante quando você é tratado como um idiota por um periodista. Mas temos que lembrar que um diploma não te dá uma credibilidade que eles tanto necessitam.

1968 e um concurso de mochila

Em maio de 1968, os universitários franceses foram as ruas para protestar contra o autoritarismo do presidente Charles De Gaulle que ia a proibição de dormitórios mistos até a política para o esporte passando por derrubar-lo. Em 2017, meu amigo zé ricardo está disputando uma vaga para o diretório acadêmico na faculdade na base de promoções como um concurso de mochilas para ter apoio entre os colegas.

Os intelectuais estariam pasmos que uma eleição para o diretório acadêmico como a faculdade do Zé Ricardo ser disputada através de concursos de mochila e afins. Nas universidades públicas, tal eleição seria feita com exaustivos debates sobre o posicionamento dos candidatos em questões vitais para a humanidade como o tal do imperialismo americano.

Se em 1968, o líder estudantil Dany Le Rouge liderou um movimento em que pedia o fim da sociedade burguesa em prol de um mundo justo e sem o autoritarismo. Em 2017, vejo o meu amigo Zé Ricardo querendo inspirar seus pares com a proposta de mais eventos sociais que deverão ser prontamente patrocinados se caso a chapa dele foi vencedora em tal eleição.

Os tempos de idealismo juvenil foram enterrados para ser palco do pragmatismo apolítico do capitalismo. Hoje, os estudantes estão preocupados em pagar as contas do fim do mês do que fazer protestos contra a repressão aos direitos individuais na Arábia Saudita. Isso junto com fato de termos uma eterna briga entre alienados e engajados em diretórios acadêmicos.

Enquanto uma ala defende o festival da azaração em balada como se fosse o último dia de sua vida. Temos aqueles estudantes engajados que desejam ver os filmes de Godard como uma forma de falar sobre a vida com o prisma intelectual. Enfim, se o presidente francês Nicolas Sarkozy dizia que iria enterrar o espírito de 1968. Podemos dizer que o meu amigo Zé Ricardo conseguiu isso com um concurso de mochilas.

 

Eu tirei sarro de Godard

Sempre temos uns momentos onde dedicamos o nosso tempo para tirar sarro de figuras públicas. Bem, os nossos infantilóides humanos criaram o termo haters. Prova disso que este humilde blog sempre fez piadas sobre o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy e do ex-premiê italiano Silvio Berlusconi. Agora, vou ter mais um icone de piadas de meu repertório intelectual, o cineasta franco-suiço Jean-luc Godard.

Isso me lembra a peça “Eu odeio Hamlet” encenada pelo ator Guilherme Fontes onde os atores de teatro mostram sua aversão as peças escritas pelo dramaturgo britânico William Shakespeare em um momento onde todo mundo o venera posso aquele que desvendou os enigmas na alma, mas que foi reduzido ao amante apaixonado da rainha Elizabeth I no século 16.

No meu caso sobre Godard é como ele cortejado pelo mundo intelectual tupiniquim mesmo produzindo filmes onde tem gente nua do que um campo de naturismo inteiro ou películas cabeçudas com o objetivo de defender o proletariado da exploração do capitalista malvado como sempre foi relatado pelo anticapitalismo defendido pelos franceses.

Godard foi o comandante-chefe do movimento Nouvelle Vague junto com outros cineastas como François Trufaut e Claude Chabrol (todo qualquer cinéfilo metido a intelectual vai citar tal troika francesa de cor e salteado). Mas o meu desconforto é ver nossos intelectuais pagando pau do velhinho -suiço-francófono como uma maneira de dizer que estão acima da cultura do povão.

Eu respeito a filmografia de Godard. Mas percebo que os meus amigos intelectualoides assistem tais filmes só para dizer que tem uma massa cinzenta entre as orelhas conhecida como cérebro. Mas o mito godardiano só me serviu para tirar sarro de tais pessoas em uma conversa com a minha fisioterapeuta-confidente. Penso em continuar a tirar sarro de octagenário franco-suiço

 

As troças com a cultura

Nosso país virou um campo de batalho entre comunistóides e fascitóides desde do impeachment da presidente Dilma Rousseff no ano passado. Prova disso foi que o twitter virou um palco de troca de farpas e ofensas pelo fato de militantes não aceitarem o pensamento contrário as suas convicções e afins. Afinal, todo mundo quer ter a razão desde do debate em um centro acadêmico até no jogo de ping-pong.

Isso fica evidente quando vejo conhecidos de esquerda acusando a direita de ser ala retrógada de nossa nação ou vice-versa. Mas me pergunto se tais paladinos intelectuais tem propostas para a nação como as reformas necessárias para a nossa economia ou um plano para conter a evasão escolar ou estancar a hemorragia de nosso sistema cultural que necessita de investimento ora público ora privado para sobreviver.

Quando vejo um tweet do perfil fake de Paulo Francis (ressuscitaram nosso amado crítico para descer o porrete na esquerda como ele estivesse vivo) falando poucas e boas da cultura nacional. Tenho que concordar, mas me pergunto quem se atreveria a criticar-lo para fazer algo como criticar o mundo usando o subterfúgio de um intelectual morto por que acha que deve combater quem julga ser seu adversário.

Pergunto a tais cidadãos virtuais se teriam a coragem de não usar um perfil fake para denunciar aquilo que acham errado. Uma figura como Paulo Francis está no panteão intelectual por suas colunas como o Diário da Corte (publicadas na Folha S.Paulo entre 1975 a 1990 e nos jornais Estado de S.Paulo e O Globo entre 1990 a 1997) e suas análises sobre o mundo contemporâneo.

Mas hoje é mais fácil criar perfis fakes do que criar um personagem que possa interagir com o mundo real sem ter problemas como as represálias costumeiras neste mundo onde escrever é fazer inimigos como disse o escritor Fernando Moraes em uma entrevista para a Playboy em novembro de 2013. Enfim, eu estou com as minhas troças com a cultura tupiniquim.

Sendo um doutor Jivago

Nos anos 1930, a União Soviética vivia uma era de expurgos onde aqueles que criticavam o ditador Josep Stalin era mandados para gulags e tinham as suas reputações difamadas. Neste cenário, o escritor russo Boris Pasternak escreveu o romance Doutor Jivago, onde fazia uma dura crítica ao stalinismo por meio da história de Jivago, um médico que cuida de feridos e soldados na 1º guerra mundial.

Eu me sinto um Doutor Jivago quando ouço os desabafos dos meus amigos, conhecidos e parentes. Eles tem muitos problemas pessoais onde não contam com alguém para ouvir suas reclamações sobre a vida. Jivago cuida de feridos em uma época que não se tinha a penicilina. Eu cuido de tais pessoas em um tempo de redes sociais como facebook, twitter e whatsapp.

Meus amigos ficam frustrados por não darem certo e ao mesmo tempo, pressionados a serem perfeitos em tudo desde de baladas até nos afazeres domésticos. Isso me preocupa porque eles não tem tato para lidar com tais situações por causa de um certo exibicionismo de redes sociais e a obsessão de ficar online o tempo inteiro por uma obrigação tácita da perfeição.

O doutor Jivago lidava com os soldados feridos e seus dilemas pessoais como a pressão de agradar a família e a pátria em um momento em que o estado pede para que seus cidadãos peguem em armas para defender a tese de um país que se defende de uma conspiração de um inimigo externo em que se torna um enigma para a população comum que crê nas palavras de seu líder.

Este paralelo é importante tanto nas relações pessoais quanto nas questões políticas. Mas percebo que a humanidade está perdida em relação a isso. O desejo de ser perfeito nos cega friamente por que queremos algo que nos pareça inatingível invés de termos o pé no chão em entender a nossa realidade que nos ronda. Então, continuo a ser o Doutor Jivago no front oriental.

As referências

Ontem, estava no twitter de manhã cedo quando vejo um tweet de uma roteirista de TV pedindo que os humoristas se inspirem em Paulo Gustavo, um notório humorista e criador da franquia “Minha mãe é uma peça”. Então, eu respondi em um tweet dizendo que a minha inspiração era um integrante do grupo de humor britânico Monty Python chamado Graham Chapman.

Isso revela um traço de minha personalidade onde exista um intelectual que sempre faz algo diferente do mundo inteiro. Eu lido com isso de boa. Mas não foi assim na minha pré-adolescência onde eu lia os especiais da Quatro Rodas enquanto meus colegas de escola me torravam a paciência por eu ser o inteligente da turma em história e geografia para a alegria dos meus professores.

Lembro disso quando conversei com o meu Thiago no facebook pelo fato de ter citado o livro Doutor Jivago, que relatava a história da revolução russa. Tal romance foi adaptado para o cinema tendo o finado Omar Shariff como o próprio Jivago. Ele comentou comigo que eu sou um cara inteligente que sempre tem referências que todo mundo fica impressionado com a minha pessoa.

Minha amiga de twitter Morga comentou que se sentia estranha porque as pessoas não iam conversar com ela por ter uma face que descreveria como cara de brava. Isso comum em pessoas que se sentem pressionadas em fazer amizades com o mundo inteiro para dizer que tem uma vida normal. Mas são seres reclusos e demasiadamente intelectuais para a sociedade.

Queremos fazer amizades, mas sem perdermos as nossas origens ou nos rebaixarmos a mediocridade tão comum no tempo atual. Temos que criar pontes entre diferentes mundos onde possamos trocar ideias com os outros para termos uma compreensão mutua de si mesmos. Por isso que uso as minhas referências como Doutor Jivago e Graham Chapman.