Kaesong

Hoje, a Coreia do Sul anunciou o fechamento do complexo industrial de Kaesong, que fica na Coreia do Norte. Pyongyang afirmou que tal medida é uma declaração de guerra e declarou que a Kaesong é uma zona militar além de cortar duas linhas de comunicação com Seul que serviriam como formas de contato para negociações entre os dois países em crises diplomáticas.

Seul e Pyongyang assinaram um armísticio para terminar com a guerra entre 1950 a 1953. Mas ambos os países tomaram caminhos diferentes como o capitalismo sul-coreano e o comunismo norte-coreano. Mas a eterna desconfiança entre tais países ganha contornos belicistas desde dos testes de ogivas nucleares feito pela Coreia do Norte que começaram em 2006.

Mas ambos os países viveram um período de aproximação nos anos 2000 que foi feita via a política do sol nascente adotada por Seul e formulada pelo presidente sul-coreano Kim Dae-jung como uma forma de aproximação entre tais nações através um amplo programa de ajuda econômica. Mas isso foi encerrado durante o mandato de Lee Myung-bak por suspeita de Pyongyang desviar o dinheiro para o programa nuclear.

Kaesong foi fruto desta política desde que foi inaugurada em 2004. Esse trabalho de aproximação foi feito por empresários sul-coreanos incentivados pela política do sol nascente. As duras palavras de Pyongyang afirmando que o fechamento do complexo industrial de Kaesong pode significar a ruína econômica para Coreia do Norte que não vive um bom momento econômico.

As sanções econômicas que possam ser impostas a Pyongyang pelos Estados Unidos podem piorar a situação. A Coreia do Norte pode adotar uma postura belicista em que não vai agradar nem o aliado tão poderoso como a China. O fechamento de Kaesong pode ser o estopim de uma nova fase nas relações entre as duas coreias tão distante dos tempos da política do sol nascente.

As novelas sul coreanas em território chinês

Enquanto o Brasil vive as turras com as novelas produzidas pela emissora conhecida como Vênus Platinada ou as produções estúpido-infantiloides de SS ou as históricas bíblicas da TV de Edir Macedo. A grande coqueluche do entretenimento chinês são os seriados produzidos na Coreia do Sul como foi contada na reportagem do jornal The New York Times traduzida na edição de ontem do jornal Folha de S.Paulo (minha leitura matinal). Mas porque o páis de Psy encanta a nação de Deng Xiaoping?

A China é um país que censura tudo para o bem do comunismo de plantão. Mas quando as novelas e seriados sul-coreanos chegaram no mercado xingling em 2012. Uma revolução nos costumes ocorreu por todo território chinês que atrai a ira dos censores. Para agradar o burocratas comunas. Os produtores de conteúdo sul-coreano decidiram atender as exigências feita por tais guardiões da alma comunista para que suas produções possam ser comercializadas em sites de video on demand and streaming locais.

Isso é um sintoma de um povo que não aguenta os autoritarismos do burocratas de Pequim que sempre exigem muita coisa desde de uma simples mudança de casa até mesmo ordens para a construção de uma megalópole como pretendem fazer em Pequim, que pode ter mais de 130 milhões de habitantes. O gigantismo chinês é algo que nos impressiona por sua obediência cega das autoridades comunistas e tem como sua válvula de escape uma simples série produzida na Coreia do Sul.

O pobre povo chinês vive o sofrimento de uma crise financeira que está sendo censurada pela imprensa estatal com a agência de notícias Xinhua. A ditadura comunista sempre vê uma ameaça em sua guerra cultural com os reality shows que foram banidos em 2012 pelo presidente Hu Jintao porque uma chinesa prefere chorar em um banco de uma BMW ( Mao deve estar revirando no túmulo por causa disso até hoje). As novelas sul-coreanas atraem um público que deseja viver em uma democracia.

Os males do comunismo com a autoritarismo igualitário além de aguentar os escândalos de corrupção protagonizados pela nomenklatura comunista. Os tempos de reformas na economia e na vida social chinesa estão mais próximos do que nunca na nação de um bilhão e meio de habitantes. Os velhos métodos de um partido que se antecipa aos anseios de uma população parece que não vão atender as demandas de uma nação capitalista em um território comunista. Agora, os sonhos de um chinês é ser um sul-coreano para ver sua novela preferida.

Revendo os conceitos sul-coreanos

Nas últimas semanas, a justiça sul-coreana tem dado decisões interessantes. A condenação do ex-diretor do serviço de inteligência, Won Sei-hoon; e da executiva da Korean Air, Heather Cho junta-se a decisão de hoje da corte constitucional de descriminalizar o adultério no país. O poder judiciário está permitindo uma relação de confiança com os cidadãos. Mas que emperra para uma maior credibilidade das instituições será na condução do caso de balsa que naufragou no ano passado em que centenas de estudantes morreram.

Nos últimos meses, a Coreia do Sul tem se transformado. Os executivos do conglomerados familiares conhecidas como chaebol são condenados pela justiça como foi o caso Heather Cho, filha do dono da Korean Air. Membros de serviços de inteligência como NIS como Won Sei-hoon foram julgados por não manter uma neutralidade política durante a campanha presidencial de 2012 onde soltaram calúnias sobre os candidatos oposicionistas em favor da atual presidente Park Geun-hye, que foi eleita sem nenhuma acusação.

A descriminalização do adultério era uma aberração jurídica local onde sul-coreanos eram condenados por traição, mas não iam para a cadeia cumprindo a pena com prestação de serviço. Tal arcabouço foi introduzido em 1953. A decisão de hoje inicia uma nova era na questão moral sul-coreana. Este que vos escreve não é a favor da traição, mas temos que reconhecer que considerar isso como crime com punição capital como ir para uma prisão soa de maneira estranha e bizarra ao mesmo tempo.

Agora, os sul-coreanos tem uma segurança jurídica. Mas precisam rever os conceitos como o serviço militar obrigatório que virou um problema pelo alto número de ataques de armas de fogo envolvendo soldados e oficiais superiores. Além de reconhecer que os problemas mentais fazem parte da sociedade (fato visto como fraqueza por sociedades do oriente). A Coreia do Sul vai levar um tempo neste processo de reconhecimento de tais mazelas. Este é um momento de liberalização no páis asiático.

A condenação de Heather Cho e Won Sei-hoon junto com a descriminalização do adultério reforça uma mudança de rumo na sociedade sul-coreana que sempre foi dominada por uma hierarquia tácita. Este é um momento onde o sul-coreanos podem festejar que a justiça está sendo feita. Mas problemas como lidar com o passado autoritário ou as recentes tensões com a Coreia do Norte reforçam um certo sinal de enfraquecimento ao sul da península coreana. Mas é apenas uma mudança de costumes.

Como os amendoins explicam a Coreia do Sul

Quando você viaja em uma companhia aérea. O passageiro exige ser bem tratado. Mas na Coreia do Sul, o simples fato de servir amendoins em um saquinho gerou um amplo debate sobre o capitalismo local. Tudo aconteceu em um voo entre Seul e New York. A executiva Heather Cho humilhou uma comissária de bordo da Korean Air por servirem o petisco em saco invés de um prato.Ela foi presa por humilhar funcionários e as leis de segurança de voo. Agora o problema é esse: Cho Hyun-ah é filha do dono do grupo Hanjin, dona da Korean Air.

Cho Hyun-ah aparece chorando diante das câmeras e pedindo desculpas. Mas a grande questão é como os conglomerados familiares sul-coreanos são mal vistos pela população local. Conhecidos como Chaebol, tais companhias foram determinantes para o desenvolvimento do capitalismo sul-coreano. Mas depois de casos de casos como assassinatos feitos por funcionários que não aguentavam a pressão de seus superiores e a sensação de impunidade passada pela justiça local e o governo.

Tanto na ditadura militar dos anos 1960 até 1987 quanto na democracia dos tempos atuais. As chaebols como Samsung, Hyundai e a própria Korean Air são questionadas por causa dos herdeiros mimados emmeio de uma população que vive uma cultura rígida na questão social ou na gestão corporativa. Isso gera uma sensação de fraqueza em meio ao mundo ultra-competitivo que o país vive. Os casos de doenças mentais são vistos como vergonha além de gerar um mal-estar para os parentes do doente.

A presidente Park Geun-Hye tem adotado uma postura diferente. A prisão de uma executiva por infringir a lei de segurança de voo é um avanço ao mesmo tempo, uma reflexão sobre o modo que a economia e a sociedade sul-coreana vivem. O acidente da balsa que matou muitos estudantes no ano passado foi motivo de muitas criticas a mandatária e o resultado de uma investigação independente decepcionou os parentes das vítimas que ficaram acampadas perto do parlamento para pressionar o governo.

A sensação de que a liberdade de expressão vem diminuindo preocupa os artistas. Várias galerias de arte temiam sofrer retaliações por expor obras críticas ao governo. Este é um momento em que um país como a Coreia do Sul precisa rever seus conceitos. Apesar de ser um país avançado e com uma moderna infraestrutura e com empresas ultra-competitivas que faz frente aos concorrentes ocidentais. Essa reflexão foi feita apenas por um simples amendoim e destempero de uma herdeira.

A democracia de Park Geun-hye

A Coréia do Sul é um país desenvolvido nos escombros de uma guerra com a Coréia do Norte. Agora, a democracia conquistada depois uma luta entre os militares e os estudantes nos anos 1980 está em frangalhos. Desde da tragédia da balsa em Sewol até o processo criminal contra o jornalista Tatsuya Kato, correspondente do jornal de extrema-direita Sankei. Os dias de liberdade estão sendo tolhidos por políticos que não aceitam as críticas merecidas de uma população descrente.

Nos últimos meses, a Coréia do Sul tem sido palco de uma ampla censura contra aqueles que são críticos da presidente Park Geun-hye. Os jornais sul-coreanos como o de centro-esquerda “Hankyoreh afirmou em sua edição de 11 de outubro: “Ainda que o jornalista possa ser criticado no nível ético”; “não há nenhuma razão para que ele sofra processos criminais.” E o jornal suspeita de um “indiciamento por motivos políticos.”

Kato foi indiciado pelo crime de difamação, cuja a pena é 7 anos de prisão. O correspondente questionou o sumiço da presidente durante as primeiras horas do desastre marítimo. Mais dois jornalistas, Kim Ou-joon e Choo Chin-woo, serão julgados em dezembro pela mesma acusação por terem citado o irmão da líder sul-coreana,  Park Ji-man, no envolvimento da morte de dois parentes na família Park em 2011.

Isto cria um clima de tensão no país. As famílias das vítimas da tragédia de Sewol tem acampado nas ruas de Seul para exigir uma ampla investigação sobre a atuação da guarda-costeira e da tripulação da balsa onde os jovens estudantes estavam. Eles desconfiam da atuação de Park além do fato de questionar como o status quo sul-coreano não se importa com seus dramas pessoais. Isto é nitido na forma como os parentes são tratados de forma rigorosa pela população local.

O fato que os artistas também são censurados é preocupante. Eles não podem fazer nenhuma crítica contundente ao governo sob a mesma acusação de difamação. Tanto que as galerias estão preocupadas em não vender obras de arte que soam ofensivas ao governo. Park Geun-hye vive sobre a desconfiança por ser filha do ditador Park Chung-Hee. Mas a jovem democracia sul-coreana terá que lidar com as opiniões polêmicas e as críticas que o governo teme.

Francisco vai a Seul

Desde de quinta-feira, o Papa Francisco tem iniciado a sua visita de 5 dias pela Coreia do Sul. O país asiático tem mais de 5 milhões de católicos (10.4% da população). Ele se reuniu com jovens sul-coreanos por causa da jornada asiática da juventude. Onde defendeu a unificação da Coreias (tanto sul quanto norte) além de prestar homenagens as famílias das vítimas do acidente do ferry boat Sewol. Em seu sermão, ele criticou o cancer das sociedades materialistas com seus modelos econômicos desumanos 

Outro fato importante é que o avião do santo padre pode sobrevoar o espaço aéreo chinês com a permissão de Pequim. Isso lhe permitu que enviasse uma mensagem de agradecimento que não chegou ao destino final. É a primeira vez em mais de 60 anos que o Vaticano e a China permitiram este ato. O catolicismo no país asiático é proibido além de ser considerado subversivo. Este simples gesto pode significar um gesto de distensão de ambas as partes para que se normaliza as relações diplomáticas.

Francisco tem agradado os sul-coreanos com o seu estilo acessível e carismático. Ele tem permitido que os jovens tirem selfies dele. Além de falar tanto em coreanos quanto em inglês. Isso mostra como ele tem conseguido cativar os católicos após anos de decadência e crise do papado de Bento 16. Os asiáticos tem a curiosidade de conhecer um pontífice que sempre quebra os protocolos e com um sorriso no rosto. Isto tem sido a tônica do papado de Francisco desde que foi eleito em março de 2013.

Mas o que isso siginifica para a igreja católica? O catolicismo é uma religião em ascensão no continente asiático pelo fato da ampla colonização europeia além de significar uma crença no cristo do que nas religiões locais como o budismo e o xintoísmo. Enquanto há perda de fieis na Europa por causa dos recentes escândalos de pedofilia. Francisco tem adotado uma postura de reconhecer os erros e procurar repará-los. Ele pede aos fiéis que orem por ele e seu pontificado como uma forma humilde de reconhecer que não é alguém especial.

O Papa está determinado a conseguir influenciar mais fiéis asiáticos. Tanto que é esperado mais de 1 milhão de pessoas na missa de beatificação de 124 martíres católicos de origem coreana que foram perseguidos nos séculos 18 e 19. O evento acontecerá na praça Gwanghwamun. Para muitos sul-coreanos, este é um momento histórico. Mas a viagem de Francisco a Ásia terminará bem quando ele voltar para Roma e talvez receber uma mensagem de volta de Pequim. Isso será uma vitória do padre jesuíta Francisco.

O xadrez asiático

Na semana passada, a Asia foi testemunha de momentos históricos entre os líderes locais. Os momentos foram: 1) a aprovação do governo japonês de mudanças na constituição pacifista para dar maior liberdade para as forças armadas: 2) a visita do presidente chinês Xi Jimping a Coreia do Sul; 3) a visita de Zhang Zhijun, o chefe do departamento da China para questões taiwanesas, para o Taiwan a convite do colega taiwanês Wang Yu-chi, presidente do Conselho de Questões Continentais (chinesas).

Estes fatos mostram quão complicado será o xadrez asiatico. A China está adotando uma política de boa vizinhança com Taiwan e Coreia do Sul como forma de fazer frente as ambições japonesas. Enquanto Tóquio quer ter a liberdade para suas forças armadas para fazer frente ao poderio chinês por causa da disputa por ilhas inabitadas.

Os taiwaneses vem com desconfiança a aproximação entre Pequim e Taipé. Tanto que os estudantes fizeram a revolução do girassóis, onde barraram o capitulo onde a China poderia investir na ilha. A visita de um oficial poderia amenizar as tensões dentro da política taiwanesa.

Já a Coreia do Sul vive o melhor momento de sua relação com a China. Tanto que Jimping não fez uma visita a Coreia do Norte como era de praxe em qualquer visita a peninsula coreana. Tanto Jimping quanto a presidente sul-coreana Park Geun-Hye estão prestes a assinar um tratado de livre-comércio.

Tanto Seul quanto Pequim protestaram sobre o nacionalismo defendido pelo premiê japonês Shinzo Abe. Esse é um momento onde as potências asiaticas estão se articulando para ver como vão lidar um futuro de ampla liberdade econômica, mas com tensões políticos. Isto é o xadrez asiatico.