Privatizando a Channel 4

A grande discussão no Reino Unido se trata da renovação da Royal Charter que criou a BBC. Mas poucos prestam atenção do desejo do secretário de Cultura, John Whittingdale de privatizar a Channel 4. A rede de tv de propriedade do estado que permite publicidade. Bem diferente do modelo da BBC que se financia via a receita do License Fee, a licensa de TV cobrada do cidadão britânico anualmente.

Whittingdale defendeu a privatização da Channel 4 durante uma audiência na Câmara dos Lordes na semana passada. Nos últimos anos, a Channel 4 tem sido uma alternativa tanto para a BBC quanto para redes de tv privadas como a Sky News e ITV. Isso permitiu que o canal de TV conquistasse os direitos de transmissão da Formula 1 após a BBC renunciar a mesma.

O Channel 4 foi posta a venda em 1996. Mas não teve compradores interessados. Mas permitiu ter uma gestão bem feita e sem críticas como é frequentes em relação a BBC por gastar muito o dinheiro do pagador de impostos britânico. Tanto que o próprio Whittingdale propõe que a BBC pare comprar formatos como realitys shows para investir em documentários.

Tanto a privatização da Channel 4 e a dura batalha pela renovação da Royal Charter da BBC mostram um partido como o conservador tem que lidar com a mídia sem favorecer o império midiático do magnata australiano Rupert Murdoch, que desejava comprar a operadora BskyB em 2011, mas que foi freado pelo escândalo de escutas ilegais feitos pelo tablóide News of the World.

Não se sabe da palavra do primeiro-ministro David Cameron sobre a privatização da Channel 4. O premiê teve uma péssima performance perante o âncora Jon Snow quando foi questionado sobre o acordo de fornecimento de armas para Arábia Saudita mesmo que o país esteja entre as piores nações em questão de direitos humanos durante a entrevista.

Mas fica claro que a privatização da Channel 4 pode ser mais um tiro no pé para David Cameron.

Adeus Indy

Ontem, o Reino Unido se despediu do jornal The Independent. O diário encerrou suas atividades por causa de seguidos prejuízos em sua versão impressa e os donos, a família Lebedev resolveu focar seus esforços no site do mesmo como uma forma de ter um retorno financeiro de um periódico que sempre inovou entre os seus concorrentes na rua Fleet Street.

O Indy como era chamado pelos leitores começou a circular em 1986 oferecendo uma linha editorial de centro-esquerda junto com inovações como uma edição em cores publicada aos sábados junto com um preço justo para conquistar o público que vivia entre o The Guardian, The Times e os tabloides sensacionalistas como o The Sun e o Daily Mail.

Mas a estratégia agressiva do magnata austrálio-americano Rupert Murdoch que abaixou os preços do The Times e do The Sun prejudicou a estratégia de circulação do Indy. Tanto que o jornal distribui-a 40 mil exemplares em sua última edição de ontem. Várias mudanças foram feitas como a adoção do padrão tabloide como forma de atrair os leitores.

Mas o legado do Indy foi mostrar uma posição de centro-esquerda que sempre questiona qualquer posição adotada pelo governo ou até mesmo da oposição. Isso mostra uma rara independência editorial que foi preservada ao longo de 30 anos de circulação do Indy e ajudou outros jornais do mesmo espectro político como o Daily Mirror e o The Guardian.

Vou sentir saudades do The Independent. Um jornal que fazia um jornalismo corajoso. Teremos a edição online e seu site que tem um bom público assinante de seu conteúdo. Mas será que esta nova fase do Indy não vai mudar o espírito contestador feito por tal diário ao longo de 30 anos de vida. Vamos ter que se acostumar com o fim do Indy e agradecer pelos bons serviços prestados ao Reino Unido.

Jia Jia

Hoje, a BBC revelou que o jornalista chinês Jia Jia desapareceu quando estava no aeroporto de Pequim para viajar para Hong Kong. Tanto jornais hongkongers quanto diários taiwaneses denunciaram isso. Jia teve a coragem de publicar uma carta aberta pedindo a renúncia do presidente chinês Xi Jimping em um site de noticias ligado ao partido comunista.

Não se sabe quem é autor da carta. Mas fica claro a repressão da ditadura comunista diante da dissidência. Desde do sumiço de 5 editores hongkongers no começo do ano. O estado chinês tem se esforçado em manter as aparências e temendo uma reação caso a população desperte a consciência sobre tais desaparecimentos e eventuais censuras ao conteúdo declarado como anti-comunista.

Desde do começo da crise econômica que abateu a economia chinesa. O começo de uma dissidência contra o governo Xi Jimping mostra-se importante. A carta anônima pedindo a renúncia de Jimping por causa da volta do culto a personalidade feita pelo presidente se mostra corajosa e ao mesmo tempo, arriscada diante do recrudescimento da censura governamental.

O temor de Jia é que a China voltasse aos tempos negros de revolução cultural feita por Mao Tse-Tung entre 1966 a 1976. Naquele periodo, qualquer pessoa que não atendia os preceitos do comunismo puro propalado por Mao era mandado para campos de trabalhos forçados. Isso assusta a liderança comunista diante do cenário de crise e a concentração do poder de Xi Jimping.

O desaparecimento de Jia Jia tem que ser divulgado pela imprensa internacional por ser um claro ataque a liberdade de expressão mesmo que a China permanece como uma ditadura comunista sem escrúpulos. A questão do sumiço de Jia Jia vai ser amplamente divulgado por jornais hongkongers e taiwaneses. Mas será que veremos Jia Jia vivo após a essa campanha?

 

Zaman

Sexta-feira passada, a justiça turca decretou a intervenção no jornal de mais lido do país, Zaman. A decisão se baseou no fato do diário ser propriedade de Fetullah Gulen, um clérigo muçulmano e inimigo político do presidente Recep Tayyip Erdogan. Nos últimos três anos, o Zaman adotou uma postura combativa contra o governo de Erdogan, mas pagou o preço de ser contra o mandatário da nação.

A redação foi invadida pela polícia que teve que enfrentar uma multidão de manifestantes favoráveis a liberdade de imprensa. Tão logo que os jornalistas foram expulsos. O jornal adotou uma postura de elogiar o governo de forma proselitista. Mas a última edição anterior a intervenção. O Zaman estampou uma capa preta alertando o perigo da violação da constituição.

Isso mostra que Erdogan tem pouco apreço pela constituição e pela liberdade de imprensa. A Turquia ocupa os últimos lugares nos rankings de países que censuram a mídia. A intervenção do Zaman reforça a tese que o presidente turco gosta da livre-manifestação de ideias. Desde que seja de seu agrado e que não faça críticas ao seu governo ou denuncie escândalos de corrupção.

Nos últimos anos, vários jornais de oposição foram fechados pelo governo. A constituição de 1980 em seu artigo 301 considera insultos contra o espírito turco e o estado crime com pena de prisão. Tal lei nunca foi mudada por governos posteriores ao regime militar de 1980 a 1983. Tal clausula foi usada em um processo penal contra o escritor Orham Pamuk em 2006. Mas a justiça arquivou o caso quando ele ganhou o prêmio Nobel no mesmo ano.

Os turcos tem que ir as ruas para exigir a preservação da liberdade de expressão. Erdogan está querendo enfraquecer os parlamentares de origem curda tirando-lhe direitos e a imunidade parlamentar. As fotos da resistência dos manifestantes em frente a sede do Zaman mostra que a liberdade está sendo defendida de forma honesta e consciente pelo mundo.

Porque nos parece distante?

Hoje, o mundo noticiou mais um ataque terrorista no Paquistão onde 19 pessoas foram mortas dentro de uma universidade no norte do país. Semana passada, atiradores agiram em lugares tão distantes como Jacarta (Indonésia) e Istambul (Turquia) a mando do grupo radical Daesh sendo que tais locais onde a população é de maioria muçulmana. A pergunta que fica: Porque nos parece distante?

Isso me lembra a frase do cantor Morrissey em que pediu que os brasileiros não saíssem do país por causa dos atentados terroristas. O mundo ficou mais inseguro. Mas a população brasileira não é informada sobre os eventos no planeta. Não temos uma rede de correspondentes pela mídia tupiniquim no continente asiático e outros lugares do planeta para contar tais histórias.

Isso é um claro sinal de nossa pequenez. Invés de vermos uma discussão tola sobre a contratação de Kim Kataguiri como novo colunista da Folha de S. Paulo. Não vejo uma alma que esteja disposta a propor um investimento maciço na formação de novos correspondentes e contratar pessoas que já viveram ou trabalharão na função em países como Israel ou Turquia por exemplo.

Se os recursos das empresas de mídia fossem investidos de forma correta e atrair um novo público para ler um jornal e uma revista teria que ser focado na formação de jornalistas e na contratação de colunistas que analisam um assunto e não fazem um propaganda de suas ideias para ser um guru das massas incultas por ser um porta-voz de uma agenda que não leva a lugar nenhum.

A pergunta-título deste post vai continuar enquanto não tivermos uma analíse da situação política do Paquistão ou uma reportagem sobre as atitudes prudentes do presidente indonésio Joko Widodo. Vamos ter um longo caminho para que a nossa imprensa faça um bom serviço de informar o leitor sobre este mundo tão inquieto que nos faz parecer tão distante dos fatos.

A crise dos canais de noticias

Em 1981, o conceito de canal de notícias foi posto em prática com a criação da CNN por Ted Turner para abastecer o nascente mercado americano de TV fechada. Mas passados 35 anos. Fica-se claro que este modelo de televisão não pode ser praticado por emissoras públicas como a britânica BBC e a qatari Al Jazeera diante dos altos custos de manutenção e produção de conteúdo.

No Reino Unido, está se discutindo o debate do fim do BBC News Channel e que seus jornalistas possam trabalhar no site da BBC e em aplicativos em celulares. A emissora britânica está passando por um preço de corte de gastos além do processo de renovação do Royal Charter que regula as atividades da mesma que vai ser analisada pelo parlamento britânico durante esse ano.

No caso da Al Jazeera, a emissora qatari luta com todas as suas forças para entrar no mercado americano desde do lançamento do serviço em inglês no ano de 2006. A monarquia decidiu comprar uma operadora de TV por assinatura e criar o Al Jazeera America como uma forma de fortalecer a sua posição diante de concorrentes como CNN e Fox News.

Os custos dos canais de noticia mostram muito caros por causa de manter uma ampla rede de correspondentes e jornalistas para produzir conteúdos 24 horas por dia e 7 dias por semana. Enquanto a BBC News pode ser fechada por custar caro. O governo britânico decidiu repassar mais recursos para a BBC World News e o serviço de rádio BBC World Service.

O debate sobre os canais de notícia vai exigir uma ampla discussão sobre como as pessoas vão consumir conteúdos noticiosos através de computadores e celulares. A sobrevivência dos mesmos vai depender em como se resolver a questão dos custos de produção junto com a manutenção de tais serviços. Assim teremos informação de boa qualidade a qualquer hora do dia.

 

Polônia e a mídia

Ontem, a Polônia promulgou a nova lei de mídia. O presidente Andrzej Duda assinou a medida onde os diretores do canais de tv e rádio públicos tem que ser indicados ou demitidos pelo governo. Antes, isso era feito por um órgão independente. Isso criou uma grande controvérsia entre o país e a União Europeia

Duda acredita que a mídia pública polonesa tem jornalistas que podem influenciar na cobertura dos fatos. A nova lei vai ajudar a ter meios de comunicação isento, confiável e imparcial. Mas como um decreto pode garantir a credibilidade do serviço público de informações trocando diretores a qualquer momento.

Fica claro que o novo governo polonês quer uma mídia mansa. A polônia tem quatro canais de tv e 200 rádios de origem pública. O líder do partido populista Justiça e Paz, Jaroslaw Kaczinski, quer remodelar a Polônia. A simples lei que permite demitir e contratar diretores dependendo do seu humor é inaceitável.

Tanto que a União Europeia ameaça usar o artigo 7 do tratado de Lisboa em que retira o poder de voto de ministros de um país-membro do conselho europeu caso não cumpra as determinações dos princípios que regem o bloco. Tal ato poderia ser usado em último caso como uma forma de pressionar Varsóvia.

Acusar os jornalistas de influenciarem o público com a sua visão ideológica é puro primarismo cometido por um governo como o nacionalismo polonês. A oposição e a União Europeia podem conter tal absurdo promulgado pelo presidente Andrzej Duda. Mas não será fácil para reverter isso.