Entre os detritos do Skylab e os pagamentos da BBC

Eu escrevo sobre política britânica e australiana rotineiramente desde do ano passado. As minhas fontes de informação são as newsletters do jornal britânico The Guardian e do diário americano New York Times. Além do serviço do Daily Telegraph junto com algumas visitas esporádicas no The Australian e acompanhar o twitter.

Percebo que certos fatos passam despercebidos por nossa imprensa tupiniquim. Um exemplo é a queda de detritos da estação espacial americano SkyLab em 1979 que assustou os moradores do sul da Austrália. Na época, o então premiê australiano Malcolm Frasier disse que estava impressionado com a avançada tecnologia yankee tinha caido em sua nação. Tanto que o presidente americano Jimmy Carter pediu desculpas.

Outro fato dessa dicotomia é não termos alguém em Londres para cobrir a mídia britânica. Amanhã, a BBC irá divulgar a lista de empregados que ganham mais de 100 mil pounds por ano como uma contrapartida que o governo exigiu para renovar a Royal Charter que criou a emissora pública de rádio e TV. Isso cria controvérsias em Londres.

Mas nossa imprensa pede que os nossos correspondentes em Londres foquem apenas em cobrir a última exposição do National Gallery invés de se credenciar para acompanhar os eventos no Nº10 da Downing Street e no parlamento britânico em Westminster. Pior ainda a negligência da mídia em mandar um correspondente para a Austrália em um momento de expansão dos serviços do Guardian e do NYT.

Fico me perguntando porque os nossos jornalistas e editores ainda pensam que Londres é uma cidade onde os britânicos tem o sotaque como estivessem falando com batata na boca e que a Austrália é um território de bichos exóticos como o Canguru, Coala e o Ornitorrinco. Afinal, ainda somos um país fechado para a cultura anglo-australiana. É uma pena para nós que gostamos de falar inglês e ver Doctor Who.

 

Meu lado Roy Jenkins

1967, o Reino Unido discutia se a homossexualidade ainda era considerada crime. Mas isso foi resolvido com a decisão do então secretário do interior trabalhista Roy Jenkins. Ele foi considerado o mais liberal chefe do Home Office na história por permitir que os gays não fossem punidos e ter permitido o aborto em um país em seu momento conservador como o GBR dos anos 1960.

Percebo isso quando converso com os meus amigos gays sobre variados assuntos. Eles confiam em mim como bom confidente além de não me julgarem por ser um liberal-conservative. Jenkins é considerado um verdadeiro social-democrata por entender as demandas de uma sociedade em constante mudança como uma revolução em marcha.

Isso se reflete em questões externas como a entrada do Reino Unido na então comunidade europeia em 1973 e no referendo de 1975 onde ele fez uma campanha onde gastou a sola do sapato por todo país para explicar as vantagens do mercado comum europeu para uma sociedade que estava desconfiada com o temor da perda de empregos com a integração europeia.

Um momento importante disso foi um debate entre Jenkins e o eurocético Tony Benn (então secretário das indústrias) exibido ao vivo no programa Panorama da BBC One para o desespero do primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson que temia uma profunda divisão dentro do partido trabalhista que pudesse permitir a volta dos conservadores liderados por Margaret Thatcher.

Se sempre existiu a figura personalista de um homem que personificou os ecos de uma sociedade ansiosa por mudanças e ao mesmo tempo, se propôs ao oferecer uma agenda de ideias e propostas que julgavam ser necessárias para o futuro de sua pátria. Tenho que reconhecer o trabalho de Roy Jenkins em favor do Reino Unido e dos homossexuais.

Mais uma eleição no Reino Unido

Eu pensava que teria um ano tranquilo cobrindo as eleições na França e na Alemanha. Mas os meus planos tiveram que ser mudados repentinamente quando a primeira-ministra britânica Theresa May anunciou que irá convocar eleição geral para o dia 8 de junho para ter uma maioria absoluta no parlamento com o objetivo de ter controle sobre as negociações do Brexit.

Isso vai ser maravilhoso para mim. Um amplo trabalho para cuidar do meu blog de política britânica, o The Reino Unido Times. O esforço de acordar cedo no domingo de manhã para ver o Andrew Marr Show, da BBC One e ouvir programas de política da BBC como o Piennar’s Politics da BBC Radio 5 Live e o Westminster Hour, da BBC Radio 4.

Eu lembro desses fatos porque me fizeram aproximar de pessoas em redes sociais por trocar ideias sobre política britânica. Meu amigo MV me disse que poucas pessoas se interessam pelo Reino Unido. Senti isso na pele uma vez no whatsapp quando um sujeito tirou sarro da minha cara porque estava acompanhando o Brexit quando fui perguntado por um amigo.

Em um país em que se interessa por idiotas confinados em uma casa por 24 horas por dia e vigiados por uma nação acéfala. Isso me soa um elogio por fazer o trabalho de acompanhar as discussões sobre Westminster. Além de ter o trabalho de cobrir as eleições para o Palais Elyseé e para o Bundestag para os meus blogs e portais de minha propriedade.

Eu sinto que as pessoas te olham torto por fazer algo diferente. Elas não se esforçam em mudar suas perspectivas de vida e ficam reféns de uma mediocridade de ficar dando dislikes e emoticons porque você faz algo que não lhe agrada. Mas sempre sigo a lógica de um líder da oposição no Reino Unido: ofereça uma alternativa do que ficar tacando as batatas. Por isso que terei um bom trabalho em 8 de junho para fazer.

Beautiful Ones

Em 1993, o rock britânico estava estagnado e sem novidades no horizonte. Então surgiu o Brit Pop com bandas como Suede e Oasis. Era um novo frescor em um tempo duro de desilusões em relação a União Europeia, ao primeiro-ministro conservador John Major junto com a descrença no Partido Trabalhista liderado por John Smith nutrido pela população.

Isso se reflete no nosso Brasil atual  onde a população está descrente e o sentimento de que vivemos em um deserto de ideias e inspirações é inimente. Não estamos criando nada de novo. Os internautas brazucas respondem as tretas de uma rapper desconhecida enquanto um colunista acham que o povo da internet tem uma cabeça oca.

Isso impede o florescimento de uma cultura integrada. Existe boas bandas de rock desconhecidas do grande público porque não tem espaço nas rádios e se contentam apenas em serem citadas na Rolling Stone. Os adolescentes ainda insistem em memes do que ler um bom texto de Woody Allen para ter uma noção de humor em tempos de dilemas existenciais.

O Reino Unido lidou com isso a partir do surgimento de uma boa geração de humoristas e comediantes como Rik Mayall, Ben Elton, Dawn French, Jennifer Saunders, Rowan Atkinson, Mel Smith, Pamela Stephenson e Rhys Grifth-Jones. Isso permitiu sobreviver a Era Thatcher e criar uma cultura sarcástica sobre a sociedade local.

Mas o Brasil não tem isso. Parece que nós estamos fadados a sermos um eterno país do futuro. Não avançamos como deveríamos. Não temos uma cultura de empreender, criar e inovar além de não termos um bom sistema educacional. Acho que vou passar longos anos no deserto cultural brasileiro para ver nossa nação fazer uma canção do nível Beautiful Ones, do Suede. Vamos ter um longo trabalho pela frente. Mas temos que tentar.

Um humor bretão

A história é feita por inesperado e fatos que deixam sua marca na vida das pessoas. Ver uma transferência de poder (ou handover) entre um primeiro-ministro demissionário para a nova líder do partido majoritário no parlamento que pode virar o chefe de governo tão logo que o premiê entrega sua renúncia para a rainha e que aconselha a chamar tal postulante ao cargo.

O handover entre David Cameron e Theresa May trata disso com uma certa dose de humor britânico. Cameron anunciou que iria renunciar tão logo fosse escolhido um novo líder conservador. O que nós pensávamos em uma longa disputa entre Andrea Leadsom e Theresa May se transformou em uma aclamação para May e assim ela virou a nova primeira-ministra.

Mas Cameron queria se despedir do parlamento ao falar de seu legado como as reformas econômicas, medidas de austeridade nas contas públicas além da legalização do casamento gay na Inglaterra e País de Gales durante a derradeira sessão de perguntas ao primeiro-ministro e tendo que olhar o encrencado líder trabalhista Jeremy Corbyn.

Um MP norte-irlandês sugeriu novos ares para Cameron como ser técnico da Inglaterra ou apresentar o programa Top Gear da BBC Two. Corbyn deu a ideia para que o ex-premiê fosse jurado em um reality show de dança com celebridades e também agradeceu ironicamente a mãe de David por seu generoso conselho para que Jeremy vestisse um bom terno e cantasse God Save The Queen (o hino britânico).

Após tais sugestões. Cameron afirmou que tem amor por Larry, o gato que caça ratos em Downing Street e  repetiu a frase I was the future once que disse para o primeiro-ministro trabalhista Tony Blair nos tempos que era líder da oposição em sua fala derradeira no parlamento. Bem, temos um humor bretão para ficar na nossa memória de fatos históricos.

Brexit no Twitter

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Nas últimas semanas, eu tenho postado textos sobre o referendo britânico sobre a permanência de tal nação na União Europeia. Bem, os britânicos decidiram sair do bloco europeu e vão ter longos dois anos de negociações com Bruxelas para que o divórcio seja feito sem maiores problemas a menos que os franceses querem fazer um processo doloroso para quem se atreva a sair da UE.

Mas na noite do dia 23 de junho de 2015. Fiquei no twitter para acompanhar as reações em torno da votação. A experiência foi fascinante porque tive uma troca de informações como o colunista da revista Época e excelente resenhista Helio Gurovitz junto com um velho conhecido repórter do jornal Folha de S.Paulo Raul Juste Lores que tinha preocupações com o ex-prefeito londrino Boris Johnson.

Sem esquecer da intensa conversa que tive com o meu amigo MV no facebook. Ele terá muito trabalho pela frente para esclarecer as minúcias do divórcio anglo-europeu. Eu esqueci de perguntar para o âncora da rede de tv britânica ITV, Alistair Stewart, sobre tais implicações sobre o cenário político britânico diante da eminente saída da União Europeia. Mas lembro que ele me enviou uma resposta que manteria sua imparcialidade diante de um cenário nebuloso que o Reino Unido irá viver nos próximos dois anos.

Mas tão logo comecei a minha jornada de desocupado muito ocupado. Meu amigo Diego me perguntou se iria escrever sobre o Brexit nos meus blogs. Caro Diego, vou postar textos de tal tema para que possa entender quão complexa vai ser tal separação de Londres do continente europeu. Vou ter que explicar para os meus amigos como Ron Groo e o britânico Colin Musk.

Passado-se longos três anos de idas e vindas. Os britânicos desejaram viver fora das padronagens europeias que tanto lhe irritaram. Mesmo que Paris vier a oferecer um jogo duro como uma forma de conter um sentimento euroceticismo nutrido pelos nacionalistas. Fica claro para mim que terei mais trabalho nos próximos meses em questões europeias.