A história alemã: A reunificação

O início de 1990 criava uma sensação de esperança para os alemães tanto orientais quanto ocidentais. Se em 1989, os protestos de Leipzig adotaram o slogan “Nós somos um povo” reforçava o desejo de uma nação que desejava viver unida após longos 40 anos de divisão. Mas quem iria conduzir um processo tão delicado em que as nações europeias, Estados Unidos e União Soviéticos estavam desconfiados com os temores de uma Alemanha reunificada.

O chanceler alemão-ocidental Helmut Kohl tinha apoio apenas do primeiro-ministro espanhol Felipe Gonzales. A primeira-ministra britânica Margaret Thatcher tinha os temores de uma Alemanha unificada pelos traumas das duas grandes guerras. O presidente francês François Mittiterrand dizia que gostava tanto da Alemanha que prefiria ver em duas. O trabalho de Kohl tinha o apoio do último líder alemão-oriental Lothar de Mazière.

Ao defender o processo de reunificação em sua campanha eleitoral. Lothar tinha a sabedoria que a Alemanha Oriental não iria sobreviver após o fim do comunismo. Helmut Kohl tinha um aliado e uma população favorável a união de tais nações. As negociações sobre o tratado que permitiria que a Alemanha fosse unificada foram conduzidas de forma honesta. A Alemanha Ocidental foi a principal fiadora do mesmo ao convencer Reino Unido, França, Estados Unidos e União Soviética sobre a necessidade de uma nação germânica.

A população percebia nitidamente os ganhos de reunificação ao ver o desmonte do aparato repressivo comunista e até os pedidos de indenização feito pela União Soviética para aceitar a união das duas Alemanhas. Quando o tratado 2+4 foi ratificado entre os países aliados junto com as partes oriental e ocidental. Começou então um processo de unificação econômica e política da Alemanha como país europeu.

No dia 3 de outubro de 1990, passados 40 anos de desconfiança e divisão. Nascia uma Alemanha reunificada e que tinha uma longa tarefa de se reconstruir e remover todo qualquer entulho autoritário que ainda sobrava em suas leis. No mesmo ano, Helmut Kohl foi eleito chanceler deste novo país multifacetado. Aos 25 anos depois da reunificação, a Alemanha é um país poderoso em tempos de paz que não eram imaginados em 1949.

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A história alemã: A queda do muro

O sentimento de cansaço do autoritarismo estava presente na Alemanha Oriental. Os cultos de segunda-feira organizado pelo reverendo Christian Furher na cidade de Leipzig eram o embrião de um movimento contra o partido comunista. Os cinemas alemães-orientais exibiam filmes que faziam críticas contra o regime além de uma clara consciência sobre as liberdades individuais ao sintonizarem as transmissões das redes de televisão da Alemanha Ocidental.

Mas a queda da cortina de ferro começando na Hungria foi capaz de criar uma ampla onda de refugiados nas fronteiras com a Áustria. Isso criaria uma enorme pressão por reformas que vinha sendo adiada por Erick Honecker. Ao mesmo tempo que a Alemanha Oriental completava 40 anos de existência em 7 de outubro. Mas a crise social fez que sua liderança fosse contestada e que fosse removido do cargo de chefe do partido comunista em 18 de outubro.

Com a liderança de Egon Krenz, a crise ganhou contornos dramáticos. Os alemães-orientais exigiam democracia com o slogan “nós somos o povo” nos protestos de Leipzig. Isso criou uma sensação de coragem ao exigir que a democracia em uma nação dominada pelo comunismo seguindo os exemplos de Hungria e Polônia. O símbolo do esforço alemão-oriental seria a derrubada do muro de Berlim e fugir para a Alemanha Ocidental.

Mas tal dia chegou em 9 de novembro de 1989. Com uma confusa entrevista coletiva. O partido comunista anunciou a liberalização das leis de imigração como o fim da exigência do visto para viajar para fora da Alemanha Oriental. A população berlinense não acreditou no que ouvia e decidiu ir para o Checkpoint Charlie and Bornholmer Strasse, pontos de fronteira entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental para ver tal mudança diante de seus olhos

A notícia fez que vários alemães pedissem a queda do Muro de Berlim. A população se reuniu diante da fortificação para derrubar a construção de concreto como um desejo de exorcizar um fantasma. A cena de picaretas e martelos além de berlinenses de ambos os lados mostrava que o povo estava sendo representado por aqueles que queriam uma Alemanha unificada. Este desejo teria um longo caminho para ser concretizado.

A história alemã: A cortina de ferro

O cenário de desintegração da Alemanha Oriental era evidente. O beijo dado pelo líder soviético Leonid Brejnev em Erick Honecker durante o aniversário de 30 anos de fundação do país mostrava que o comunismo estaria em franca decadência. Com a ascensão de Ronald Reagan e Margaret Thatcher como líderes dos Estados Unidos e do Reino Unido seria decisiva para a queda dos regimes comunistas na cortina de ferro.

Mas na Alemanha Ocidental, a saída de Helmut Schmidt para a ascensão de Helmut Kohl permitiria que o país fortalecesse seus laços com a Europa Ocidental. Kohl estava preparando uma nova relação com a França comandada pelo presidente François Mittiterrand. Ao celebrar os 70 anos da batalha de Verdin. França e Alemanha Ocidental criariam uma nova relação para consolidar o projeto da comunidade europeia em franca expansão.

Mas com a morte de líderes soviéticos de inspiração stalinista como Andrei Andropov e Constantin Tchernenko. O politburo do partido comunista soviético escolheu Mikhail Gorbachev como novo líder do país. Gorbachev tinha em mente reformas econômicas e políticas para fortalecer a União Soviética. Isso implicaria em várias mudanças na Europa Oriental controlada pela União Soviética e os partidos comunistas locais.

A criação de um sindicato independente na Polônia em 1980 chamado Solidariedade expôs os problemas da Cortina de Ferro. Diante de um desafio de atender as mudanças pedidas por sociedades que estavam cansadas por anos de autoritarismo. Os pedidos de Gorbachev por adoção de políticas liberais na economia e uma abertura política enfraqueceria os apparatchiks do partido comunista em tais países do leste europeu.

Com o desmantelamento da cortina de ferro iniciou-se um período de mudanças em tais países com a queda do comunismo na Polônia e na Hungria. Isso estimulou a fuga de alemães-orientais que desejavam emigrar para a Alemanha Ocidental passando pela fronteira do país com a Áustria. Isso criou uma crise imigratória sem precedentes que deixariam perdidos o politburo do partido comunista e o desejo de reunificação estava próximo da realidade.

A história alemã: Ostpolitik

A disparidade entre o ritmo de desenvolvimento entre a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental era muito clara. Enquanto os alemães orientais esperavam mais de dez anos para ter um carro Tribant. Os alemães orientais poderiam comprar um Volkswagen, Mercedes Benz, BMW ou Audi em algumas semanas. Mas a esquerda radical da Alemanha Ocidental ainda queria aterrorizar o capitalismo local e sua sociedade de consumo.

A grande questão para os políticos alemães-ocidentais era pode unificar a Alemanha novamente. Quem teria essa ideia era o chanceler social-democrata Willy Brandt (1969-1974). Ele estava determinado a aproximar os dois países. Então, criou uma política externa especial para a Alemanha Oriental chamada Ostpolitik. Isso consistia em promulgar tratados que permitissem a livre circulação de pessoas entre os dois países.

Mas a desconfiança do lado alemão-oriental era nítida. Walter Ulbricht foi retirado do posto de secretário-geral do partido comunista para Willi Stoph. Tanto que a Stasi, a polícia secreta alemã-oriental, conseguiu infiltrar o agente Gunter Guillaume como um assessor do chanceler alemão-ocidental Willi Brandt. Tão logo que o caso foi revelado. Brandt teve que renunciar ao cargo para ser substituido por Helmut Schmidt em 1974.

Mas a Ostpolitik continuou viva mesmo com os problemas como o terrorismo do grupo Baader-Meinhof. Schmidt era um homem determinado em fortalecer o processo de aproximação com a Alemanha Oriental e com outros países da Europa Ocidental como a França. Esse foi um processo que facilitou posteriormente as negociações para a reunificação de tais países. A Ostpolitik ainda tinha grande apoio popular por estender a mão para um país como a Alemanha Oriental.

Schmidt não fechava os seus olhos para os problemas da ditadura alemã-oriental. Tanto que usou a estratégia de pagar a liberdade de refugiados alemães-orientais que tentavam fugir para a Alemanha Ocidental para ter uma vida melhor. Eles fugiam usando o expediente de viajar para um país comunista como a Bulgária para passar ir a Áustria. Mas isso iria terminar tão cedo do que se imaginava na visão da Ostpolitik.

A história alemã: O muro

Nos pós-guerra, a Alemanha Ocidental ganha ajuda dos Estados Unidos e Europa Ocidental. A Alemanha Oriental ainda tinha problemas para se reerguer. A transferência de indústrias do lado oriental para o ocidental causa muito problemas. Os soviéticos queriam transformar a Alemanha Oriental em um país moderno com a sua ideologia comunista. Mas este desafio iria causar muitos problemas para os alemães orientais.

A Alemanha Ocidental adotava uma reforma capitalista que permitiria o renascimento de sua indústria destruída durante a guerra. Isso era coordenado por Ludwig Erhard, um poderoso ministro das finanças junto com o novo chanceler Konrad Adenauer. Ao permitir a entrada do capital estrangeiro para financiar os projetos locais como o fortalecimento da montadora Volkswagen e com a fabricação do Fusca deu um ânimo a economia local.

A falta de investimentos na Alemanha Oriental lhe causava crises internas. Tanto que uma revolta de operários foi sufocada pelo exército soviético em 1953. Havia pouco dinheiro para investir em um plano de reconstrução. Isso se refletia em Berlim. Enquanto o lado oriental vivia sobre os escombros da guerra. O lado ocidental recebia vultuosos recursos para a sua reconstrução de uma maneira de exibir a ilha capitalista no mar comunista.

O fluxo de imigrantes do lado oriental para o lado ocidental só aumentava desde da revolta de 1953. Isso era um desafio para o novo secretário-geral do partido comunista, Walter Ulbricht. Vendo que tal situação não seria resolvida com medidas econômicas. Ulbricht decidiu que um muro deveria ser construído dividindo Berlim e uma cerca por toda a fronteira com a Alemanha Ocidental em 13 de agosto de 1961 como forma de conter a crise imigratória.

A construção do Muro de Berlim foi feita de surpresa. Muitos berlinenses que moravam no lado oriental se mudavam para o lado ocidental antes que a construção fosse terminada. A sensação de uma divisão entre oriente e ocidente era brutal para a nação alemã. Mas a decisão de Ulbricht foi criticada por Estados Unidos e Alemanha Ocidental. Quando o presidente americano John Kennedy disse que era um berlinense, foi o momento de liberdade que a população queria ouvir.

A história alemã: A divisão

Quando um país perde uma guerra. Os vencedores pedem que o perdedor aceite suas condições. Isso foi feita com a Alemanha ao fim da segunda guerra mundial. Com a Conferência de Postdam feita pelo presidente americano Harry Truman, o primeiro-ministro britânico Winston Chruchill e o ditador soviético Josef Stalin. Eles decidiram que tinham que desmilitarizar a Alemanha e dividir o país em zonas controladas por americanos, britânicos, franceses e soviéticos.

Isso criou vários problemas para os alemães. Em 1948, Stalin deu a ordem de fechar a fronteira entre a zona soviética e as zonas dos países ocidentais. Isso criou uma crise de abastecimento em Berlim em que os Estados Unidos e seus aliados França e Reino Unido criaram uma ponte aérea para fornecer suprimentos mesmo com o bloqueio imposto pelos soviéticos por via terrestre e assim ajudar os berlinenses.

Mas com o começo da Guerra Fria entre americanos e soviéticos. Em 1949 fez o surgimento de duas nações alemãs. A Alemanha Ocidental, capitalista e fundada com a união das zonas americanas, britânicas e francesas e a Alemanha Oriental, comunista a partir da zona soviética. A divisão também acontecia em Berlim. A capital alemã foi dividida entre os aliados, mas duas cidades foram criadas na Guerra Fria. Berlim Oriental e Berlim Ocidental.

As duas Alemanhas foram concebidas como vitrine para a guerra ideológica que estava por vir. Enquanto a Alemanha Ocidental apostava no capitalismo e nas reformas de mercado para atrair os investimentos previstos pelo Plano Marshall (programa de financiamento de projetos de reconstrução de países europeus feito pelo Estados Unidos e comandados pelo então secretário de Estado americano George Marshall em 1948) e a Alemanha Oriental dependia da ajuda da União Soviética.

Esse foi um começo de reconstrução difícil de ser feito. Os alemães dependiam de seu próprio esforço como uma maneira de recomeçar as suas vidas depois de anos de guerras perdidas. A desconfiança da ascensão de ideologias tirânicas como o nazismo criou a sensação de que uma Alemanha dividida seria a melhor solução em tempos de um conflito aberto entre americanos e soviéticos cuja a união seria uma longa luta por 40 anos.

Netzpolitik

A Alemanha vive um período onde a discussão sobre as liberdades individuais em alto nível. O caso de site de jornalismo investigativo Netzpolitik.com é uma prova disso. O website revelou documentos secretos que provam a expansão da vigilância e espionagem do serviço secreto local conhecido como BND. O procurador geral Harald Range pediu uma investigação criminal contra os dois jornalistas por trás da revelação mesmo em desacordo com o governo representado pelo ministro da Justiça, Heiko Maas.

Range foi demitido por Maas por suas declarações incompreensíveis e por ter dois pesos e duas medidas pelo fato de defender uma investigação sobre a espionagem americana que grampeou o celular da chanceler Angela Merkel. Mas a imprensa criticou a medida de forma dura e a população foi as ruas para defender as liberdade de expressão. Isso criou um cenário desconfortável para o governo além de um conflito aberto entre executivo e o judiciário sobre a legalidade do processo criminal.

As reportagens do Netzpolitik publica desde de fevereiro sobre os abusos feitos pelos serviço de inteligência alemão. Em uma sociedade que conviveu com os escândalos de espionagem feito tanto BND (Alemanha Ocidental) quanto pela Stasi (polícia secreta da Alemanha Oriental). Os alemães tem consciência sobre a preservação das liberdades individuais desde do fim do nazismo até a unificação entre as partes comunistas e capitalistas após a queda do muro de Berlim em outubro de 1990.

Passado esse histórico de espionagem e contra-espionagem que sabotavam a política de aproximação entre as partes oriental e ocidental conhecida como Ostpolitik (que o chanceler alemão-ocidental Willy Brandt foi derrubado após um assessor chamado Gunter Guilhaume confessar que fazia parte da Stasi enquanto a BND mantinha mais de 10 mil informantes no lado oriental). Mas isso criou um trauma na sociedade alemã que levou anos para ser cicatrizado as duras penas.

A campanha pelo arquivamento do caso Netzpolitik continua na internet onde uma petição online defende a inocência dos dois jornalistas do site. Não sabemos se a demissão de Harald Range pode diminuir as tensões que ainda existem entre várias partes da sociedade alemã. Mas temos a certeza que o princípio da liberdade de imprensa foi defendido de forma incondicional pela população que fez protestos. A democracia exige um pacto de confiança entre os poderes e o povo. Isso foi preservado na Alemanha ontem.