Um mecânico

Em 2007, eu comecei a trabalhar com o meu pai. Ele queria que cuidasse da oficina de motores elétricos. Isso foi o início da minha vida adulta. Após alguns problemas devido as minhas limitações e as frustrações dele. O patriarca percebeu que serviria para trabalhos em escritórios e assim nós começamos a ter uma boa convivência que não tive na infância e na adolescência.

Eu estou escrevendo sobre isso para discorrer sobre a vida adulta. Alguns amigos sentirem na pele os problemas como preconceito no local de trabalho ou a dificuldade de cumprir um compromisso. Ontem, senti a frustração de não conseguir trocar uma ideia com uma pessoa no facebook. Hoje, uma amiga minha estava irritada por ter que mandar uma mensagem para uma amiga que lhe prejudicou.

Quando passei por tal situação. Eu desabafei com uma amiga. As palavras dela foram importantes por que contei que me vejo como um mecânico que usa peças que outras pessoas rejeitam ou desprezam. Isso foi pensado nos tempos que trabalhei com o meu pai onde via vários trabalhadores pedindo conserto de suas ferramentas e fazerem um trabalho invísivel para seus patrões.

As pessoas se sentem diminuidas ou prejudicadas porque não se tem uma relação de confiança e cumplicidade. Nós somos descartados como objetos que não servem mais. Quando se tem alguém para usar as peças que os outros descartam. Nós mostramos a nossa capacidade de reverter um cenário adverso com recursos que são recusados ou esnobados.

Eu sempre vejo as dificuldades de conhecidos e amigos. Isso me lembra do tempo que trabalhei com o meu pai e mostrei que era possível mudar um cenário adverso. Isto nos ensina em vermos que podemos ir a luta contra tudo e todos não como um revolucionário saniguinário, mas sim como um mecânico que usa as peças que são rejeitadas por todos.

O espírito esportivo

O termo espírito esportivo sempre é usado quando alguém aguenta uma crítica ou provocação de maneira agradável e leve. Bem, eu nem sempre fui um apreciador de tal prática. Mas na minha vida adulta, tais palavras fizeram sentido em momentos onde a fúria cegava a minha sensatez. Porém, voltava ao normal ao perceber que se tratava de uma tempestade em copo d’água.

Eu percebo isso em relação ao futebol. Se na minha pré-adolescência ficava irritado por ser chamado de Corinthiano e na adolescência, o ato de pegar a camisa do Corinthians de um amigo timãolesco e jogar pela janela da escola onde fiz ensino médio como um momento de raiva e ao mesmo tempo de mostrar um descontentamento com o futebol.

Eu sou são-paulino e aturei várias píadas sobre a sexualidade do torcedor tricolor e fama de fritar o brioco (o popular queima-rosca). Mas com o passar dos anos. Isso perdeu a graça para mim. Então, comecei a por em prática o espírito esportivo. Continuei a fazer piadas sobre o futebol, mas sem aquele fervor religioso que vemos nos programas esportivos.

Mas o espírito esportivo ainda é um algo possa se encontrar em extinção diante da falta de bons modos do brasileiro. Isso acontece no futebol americano onde as torcidas de franquias yankees vivem trocando farpas por nada. Isso me soa algo tão grosseiro onde perdemos a civilidade que foi emoldurada por anos de educação e aprender a respeitar o próximo mesmo tendo um gosto contrário ao seu.

Porém, o espírito esportivo resiste por ser uma expressão do pluralismo que foi esquecido junto com o fato de ter pessoas que gostam de zoar, mas respeitam os outros como o meu amigo Bruno, do perfil do twitter Cowboys Mil Grau e ele sabe que torço para o New York Giants. Mas temos uma boa amizade apesar de torcemos para franquias diferentes. Assim é a vida.

Erro e acerto

Minha fisioterapeuta-confindente comentou comigo sobre erro e acerto durante uma paixonite minha no ano passado. Isso me remete a ontem quando tentei fazer uma piada crítica ao humor machista, mas foi um belo tiro no pé. E vou além durante as minhas férias quando vi críticas ao correspondente da Globo News, Jorge Pontual ao imitar os grunhidos do Chewbacca para homenagear Carrie Fischer.

O terreno de uma boa tirada ou piada é a experimentação como disse Fábio Porchat em sua entrevista a Playboy (julho de 2015) e Rafinha Bastos na mesma publicação em fevereiro de 2015. Eu coloco junto a questão do erro e acerto como me disse a minha fisioterapeuta-confidente porque temos 50% de chance de errar garantida do que um 100% de acertos.

A piada em questão era sobre o machismo de um meme yankee em que dizia que o Miami Dolphins joga como mulherzinha e colocando o símbolo da pequena sereia. Consultei uma amiga torcedora do Dallas Cowboys em que me disse que fui machista e além de ter notado o senso de fragilidade que é sempre ligado as mulheres por serem incapazes de serem rígidas e firmes.

Eu fia a piada dizendo que quem fazia aquilo deveria ter piroca diminuta e ter medo das mulheres de miami. Mas como twitter não aceita tiradas de mais de 140 caracteres. Isso foi pelo ralo. Eu assumo o meu erro e tentei ousar. Mas quem vai me ouvir ou dizer que valeu a tentativa?

O grande problema é que vivemos uma era de patrulha hipócrita feito por aquele homem cabeludo e com barba que jura ser um grande defensor do ideário humanista ou daquele ser autoritário que pensa que seus conceitos morais serão a base de uma nova sociedade. Ambos querem impor algo por acharem ser proprietários de uma ideologia ou religião.

Eu tentei fazer uma piada. Mas a cada tentativa de fazer as pessoas rirem. Eu vou levar um pito do cabeludo barbudo ou de uma militante universitária junto com aquele jovem aprendiz a intelectual que leu trechos de um livro escrito por um intelectual francês. A questão da tentativa, experimentação e do erro e do acerto estão sendo tolhidas como nunca e este que vos posta paga o papel de escroto-mor da nação.

Por isso que confio mais em minha fisioterapeuta-confidente do que um cabeludo barbudo.

Adolescentes

Nos anos 1990, os adolescentes viam malhação. Eu era um pré-adolescente que entendia as dores de tais jovens de 14 anos que nutriam paixões por Iron Maiden e Leonardo di Caprio. Na década de 2000, eu fui um adolescente que tinha um monte de píadas sobre George W. Bush e tinha que lidar com a febre do Orkut e a saga Harry Potter que os meus amigos louvavam.

Eu me deparei com isso quando conversei com uma amiga que tentou aplicar um meme em minha pessoa. Ela ficou desapontada porque lhe dei uma cortada (senso de humor britânico tem as suas vantagens). Mas conversando com tal garota. Percebi que ela tenta se socializar sendo uma menina zoeira, mas que não sabe conversar com um adulto.

Atualmente, os adolescentes se sentem pressionados para serem perfeitos e além de lidar com a concorrência dos adultecentes que falam das casas de Harry Potter com a mesma paixão de uma maturidade de 15 anos de idade. Vejo isso na tentativa frustrada de um primo adolescente que tenta ser popular no facebook usando um filtro de imagem do Snapchat.

Não posso bancar um senhor do tempo. Mas tal momento me lembra as palavras do finado documentarista Eduardo Coutinho que tentava arrancar as palavras sinceras de estudantes do ensino médio sempre desconfiados ou nos filmes do diretor John Hughes como Clube do Cinco e Curtindo a Vida Adoiado onde a adolescentes não tinham medo de errar.

Mas hoje, os adolescentes se baseiam em mundos paralelos como a saga crepúsculo e nos romances de John Green e de J.K. Rowling como uma forma de antídoto contra as incertezas da idade adulta. Isso mostra que teremos uma geração perdida em suas ansiedades. A única coisa que podemos fazer é pedir para que tais jovens de 15 a 30 anos possam ler um jornal para ver que o mundo real não é um monstro de 7 cabeças que tanto tememos.

 

Beautiful Ones

Em 1993, o rock britânico estava estagnado e sem novidades no horizonte. Então surgiu o Brit Pop com bandas como Suede e Oasis. Era um novo frescor em um tempo duro de desilusões em relação a União Europeia, ao primeiro-ministro conservador John Major junto com a descrença no Partido Trabalhista liderado por John Smith nutrido pela população.

Isso se reflete no nosso Brasil atual  onde a população está descrente e o sentimento de que vivemos em um deserto de ideias e inspirações é inimente. Não estamos criando nada de novo. Os internautas brazucas respondem as tretas de uma rapper desconhecida enquanto um colunista acham que o povo da internet tem uma cabeça oca.

Isso impede o florescimento de uma cultura integrada. Existe boas bandas de rock desconhecidas do grande público porque não tem espaço nas rádios e se contentam apenas em serem citadas na Rolling Stone. Os adolescentes ainda insistem em memes do que ler um bom texto de Woody Allen para ter uma noção de humor em tempos de dilemas existenciais.

O Reino Unido lidou com isso a partir do surgimento de uma boa geração de humoristas e comediantes como Rik Mayall, Ben Elton, Dawn French, Jennifer Saunders, Rowan Atkinson, Mel Smith, Pamela Stephenson e Rhys Grifth-Jones. Isso permitiu sobreviver a Era Thatcher e criar uma cultura sarcástica sobre a sociedade local.

Mas o Brasil não tem isso. Parece que nós estamos fadados a sermos um eterno país do futuro. Não avançamos como deveríamos. Não temos uma cultura de empreender, criar e inovar além de não termos um bom sistema educacional. Acho que vou passar longos anos no deserto cultural brasileiro para ver nossa nação fazer uma canção do nível Beautiful Ones, do Suede. Vamos ter um longo trabalho pela frente. Mas temos que tentar.

2016 se foi

Tirei uma folga do blog. Pode aproveitar o tempo para ler as retrospectivas de 2016 nas revistas Época e Veja e além de ficar fuçando no twitter. Passado o turbilhão de 2016, posso fazer uma reflexão sobre o ano tão complicado que vivemos em momentos como a eleição de Donald Trump, Brexit, Impeachment, Zika, PEC 241 e 55, Síria e outros cataclismas.

Mas 2016 foi um daqueles anos que não terminam no dia 31 de dezembro. Vamos ter muitos eventos em 2017 que serão as sequelas de 2016 como a posse de Donald Trump ou a invocação do artigo de 50 do tratado de Lisboa para que inicia-se o processo de saída do Reino Unido da União Europeia. Pelo jeito, vou ter muito trabalho pela frente em 2017.

2016 pode ser considerado um annus horribilis pelas perdas humanas como as mortes de David Bowie e Muhammad Ali. Parece que o longo século 20 se encerrava com tais perecimentos patrocinados pelo ceifador de almas. Mas temos que seguir o nosso rumo e entender o ciclo humano onde nascemos, crescemos, desenvolvemos e morremos.

Parece que nós criamos uma 2016fobia. Tanto que o publicitário Nizan Guanaes disse que tal ano deveria ser dois mil e dezechega. Lembro que a Alessandra Alves ter tweeted que tal conjunto de 12 meses deveria ter a seguinte mensagem: escrito e dirigido por Quentin Tarantino enquanto minhas amigas Lauane e Jéssica acreditam que tal ano foi roteirizado por George R.R. Martin (Game of Thrones) ou planejado por Frank Underwood (House of Cards).

2017 vem com um grande desafio de revertermos o sentimento de que tudo está perdido como sentimos em 2016. Vamos ter um longo trabalho de vigiar o governo e não esquecer das pessoas que passam por privações ou estão fora de suas casas por causa das carnificinas internacionais. Pelo jeito, vou ter muito trabalho em descrever 2017 no Homo Causticus.