A disputa britânica

Amanhã, os britânicos vão as urnas para votar no conselhos locais ingleses, parlamento escocês e as assembleias tanto galesa quanto norte-irlandesa. Tanto que a mídia britânica reconheceu que se tratava de uma super thursday junto com as eleições para as prefeituras de Londres e Liverpool. A questão é como se reflete no cenário político.

Em Londres, o candidato trabalhista Sadiq Khan se afastou do novo status quo do partido representada na ascensão do líder Jeremy Corbyn. Para afastar os boatos de não ter convidado Corbyn, mas ele afirmou que o apoia. Já o conservador Zac Goldsmith tem apoio do prefeito londrino Boris Johnson e do primeiro-ministro David Cameron mesmo tendo feitos ataques pesados a Khan na questão de sua relação com líderes radicais islâmicos.

Na Escócia, o SNP pode conseguir mais um mandato caso mantenha a maioria absoluta em Holyrood como um voto de confiança para que a devolução de poderes entre Edimburgo e Londres seja efetiva. No País de Gales, os trabalhistas tentam se manter no poder com quase 17 anos no comando de cardiff mesmo com a ameaça dos conservadores e dos nacionalistas do Plaid Cymru.

Na Irlanda do Norte, os unionistas tentam manter a maioria na formação de uma coalizão com os separatistas do partido Sinn Féin, que é o braço político do IRA. Esse vai ser um duro teste para o unionismo desde da renúncia do first-minister norte-irlandês Peter Robinson no ano passado. O resultado da eleição pode definir a composição do executivo local.

Na Inglaterra, os trabalhistas lutam para manter o controle de conselhos locais que conquistou em 2012, mas que não foi o suficiente para uma vitória do partido na eleição geral de 2015. Esse vai ser um duro teste para Jeremy Corbyn e evitar que seja desafiado em um leadership ballot caso o Labour perca de 100 a 300 conselheiros no pleito da amanhã.

Assim é uma disputa britânica.

 

A ascensão de Trump

Há pouco minutos, o senador texano Ted Cruz anunciou que irá suspender a sua campanha presidencial após a vitória do bilionário Donald Trump nas primárias do partido republicano no estado de Indiana. Isso deixa claro que Trump pode conquistar a indicação dos republicanos na convenção em Julho na cidade de Cleveland, Ohio. Mas como será este Trump?

Trump sempre foi visto como um candidato falastrão e de opiniões controversas. Isso criou uma persona que é bem vista entre a classe média que perdeu os empregos durante a crise financeira de 2008 e vê o presidente Barack Obama como um ser intervencionista em questões domésticas como o porte de armas e hesitante em assuntos geopolíticos como a crise no Oriente Médio.

Enquanto candidatos como Carly Fiorina, Ben Carson, Marco Rubio, Chris Christie, John Kasich e Jeb Bush tinham uma retórica em que hesitava sobre a questão do conservadorismo enquanto Trump afirmava medidas controversas como a proibição da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos junto com a construção de um muro entre México e EUA.

Trump conquistou o eleitorado conservador ao defender os veteranos de guerra e criticar os acordos comerciais com México e China. Ele não falou de temas caros ao conservadorismo yankee como a legalização do aborto, casamento gay a crítica ao presidente Obama em nomear um juiz para a Suprema Corte no lugar do falecida Antonin Scalia.

A grande questão para Trump será unificar o partido em torno de si além de moderar seu discurso para conquistar o voto dos independentes e centristas. Os republicanos temem uma derrota como foi 1964 com o candidato Barry Goldwater e sua visão extremista nos tempos das reformas dos direitos civis. Isso poderá ser o começo da ascensão de Trump?

Privatizando a Channel 4

A grande discussão no Reino Unido se trata da renovação da Royal Charter que criou a BBC. Mas poucos prestam atenção do desejo do secretário de Cultura, John Whittingdale de privatizar a Channel 4. A rede de tv de propriedade do estado que permite publicidade. Bem diferente do modelo da BBC que se financia via a receita do License Fee, a licensa de TV cobrada do cidadão britânico anualmente.

Whittingdale defendeu a privatização da Channel 4 durante uma audiência na Câmara dos Lordes na semana passada. Nos últimos anos, a Channel 4 tem sido uma alternativa tanto para a BBC quanto para redes de tv privadas como a Sky News e ITV. Isso permitiu que o canal de TV conquistasse os direitos de transmissão da Formula 1 após a BBC renunciar a mesma.

O Channel 4 foi posta a venda em 1996. Mas não teve compradores interessados. Mas permitiu ter uma gestão bem feita e sem críticas como é frequentes em relação a BBC por gastar muito o dinheiro do pagador de impostos britânico. Tanto que o próprio Whittingdale propõe que a BBC pare comprar formatos como realitys shows para investir em documentários.

Tanto a privatização da Channel 4 e a dura batalha pela renovação da Royal Charter da BBC mostram um partido como o conservador tem que lidar com a mídia sem favorecer o império midiático do magnata australiano Rupert Murdoch, que desejava comprar a operadora BskyB em 2011, mas que foi freado pelo escândalo de escutas ilegais feitos pelo tablóide News of the World.

Não se sabe da palavra do primeiro-ministro David Cameron sobre a privatização da Channel 4. O premiê teve uma péssima performance perante o âncora Jon Snow quando foi questionado sobre o acordo de fornecimento de armas para Arábia Saudita mesmo que o país esteja entre as piores nações em questão de direitos humanos durante a entrevista.

Mas fica claro que a privatização da Channel 4 pode ser mais um tiro no pé para David Cameron.

Elas querem ver Formula 1

Eu sempre acordo cedo no domingo para ver Formula 1 desde de 2013 e participo no twitter desde 2015. Encontrei garotas que entendem do esporte mais do que muito homem que só vê por orelhada ou quando tem brasileiro na frente. Hoje, minha amiga Bia Rosenburg ouviu um desaforo machista pelo fato de ser mulher e entender de Formula 1.

Eu achei algo tão arcaico e prepotente. Se uma mulher como a minha mãe assistia corrida de Formula 1 para ver a pilotagem ousada de Gilles Villeneuve nos anos 1970. Porque uma garota como a Bia não pode opinar sobre acidente envolvendo Sebastian Vettel e Daniil Kvyat. Isso soa com o velho preconceito tolo de que uma garota não pode assistir uma prova.

Se os homens podem ver novela. Porque as mulheres não podem ver uma corrida. Parece que nossos torcedores de Formula 1 tem problemas em aceitar que uma mulher possa integrar o seu espaço de ver aquela narração chata do Galvão Bueno ou tweetar sobre uma ultrapassagem feita de forma espetacular e que aprendeu ver o esporte com um pai, mãe e afins.

Muitas amigas minhas sempre quiseram ver algum esporte. Mas o pai não aceitava que sua filha gostasse de ver um jogo de futebol ou assistir uma partida de Rugby. Uma amiga começou a gostar de Rugby durante a copa do mundo no ano passado porque falava do esporte de uma maneira que pudesse compreender e explicar isso com paciência.

Agora temos um sexismo entre aqueles que curtem um esporte a motor. Mas a melhor maneira de se combater isso é permitir que as mulheres possam entender a categoria sem que os homens tenham um preconceito arraigado ou menosprezar o desejo feminino de ver uma bela ultrapassagem. Assim que teremos uma garota como a Bia Rosenburg para inspirar outras meninas que desejam ver uma corrida.

Trump paz e amor

A corrida eleitoral americana está produzindo um fato novo. A ascensão de Donald Trump no partido republicano mostra uma nova face: Trump paz e amor. Isso é um trabalho de sua equipe de marketing que viu uma forma do magnata ganhar apoio tanto entre o status quo republicano quanto com os eleitores centristas e independentes.

Trump visa moderar suas palavras como uma forma de ser aceito pelos republicanos e tentar unificar o seu partido. Ao vencer as 5 primárias e caucus desta terça-feira. Donald pode conquistar um eleitorado indeciso e que tinha uma grande rejeição ao seu nome pode defender propostas controversas como deportar imigrantes ou proibir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos.

Sai de cena o boquirroto para entrar um ser moderado. Mas tal metamorfose pode trair eleitores que votaram em Trump durante as primárias. O eleitorado de Trump é um americano branco e que vive desconfiado de uma atitude multicultural como bem representada pelo presidente Barack Obama em que tem a pecha de ser um europeu do que um estadunidense.

Trump representa um conservadorismo esquecido que pode ser visto como uma solução para uma desigualdade que só cresce entre pobres e ricos que só pode ser resolvida com atitudes protecionistas como a revisão dos acordos de livre-comércio com países como China e México como uma forma de trazer os empregos de volta para América.

Temos um novo Trump que mostra que uma simples mudança de retórica é essencial para vencer a nomeação do partido republicano junto com uma equipe de assessores que foi montada durante as primárias e mostra-se mais afinada com a cúpula republicana e quiçá conquistar os votos dos eleitores indecisos na eleição presidencial de novembro de 2016. Agora são os tempos de Trump paz e amor.

Os 96 heróis de Hillsborough

Quando um torcedor do Liverpool entoa a canção “You’ll never walk alone”. É um sentimento de companheirismo que nasceu diante de uma tragédia como os 96 torcedores mortos no desastre no estadio de Hillsborough em 15 de abril de 1989. Mas hoje, os familiares das vítimas, torcedores do Liverpool e os cidadãos britânicos sentiram o gosto da justiça após um inquérito decidir que as 96 pessoas são inocentes de tal tragédia.

Isso é um ensinamento para os britânicos. A mudança da narrativa começou a ser feita em 2009, quando o secretário de esporte e torcedor do Everton (rival do Liverpool), Andy Burnham, anunciou que os documentos relacionados a tragédia seriam publicadas. Com isso, as famílias criaram um painel independente que foi capaz de revelar os erros da polícia do distrito de South Yorkshire junto com o serviço de ambulância local.

Isto permitiu que um novo julgamento fosse realizado para que se apurasse os erros cometidos pela polícia. O juri levou dois anos para chegar a conclusão que os familiares tanto lutaram pela honra das vítimas. Os 96 torcedores foram inocentados e iniciou-se as investigações onde a polícia de South Yorkshire está sendo questionada por ter obstruído a justiça por longos 27 anos.

Agora, o foco das investigações está na comandante da polícia David Duckenfield. A imprensa britânica estampa o sentimento de dever cumprido das famílias menos o tablóide The Sun e o jornal The Times, ambos de propriedade de Rupert Murdoch. O The Sun encampou a versão da polícia e tanto que foi banido da cidade de Liverpool mesmo pedindo desculpas em 2012.

Hoje, quando a decisão do juri foi divulgado. O Reino Unido percebeu que os individuos são capazes de mudar a versão oficial mesmo com muita luta e o inabalável fé em que um dia a justiça e a verdade fossem conhecidas de forma completa. A face de Andy Burnham após ver que seu esforço não foi em vão mostra que a canção “You’ll never walk alone” fosse cantada como um sinal de liberdade e de homenagem aos 96 heróis de Hillsborough.