A coexistência pacífica

Em 1959, o então presidente americano Dwight Eisenhower e o líder soviético Nikita Kruschev aceitaram um pacto de coexistência pacífica entre americanos e soviéticos durante a Guerra Fria. A foto onde Kruschev foi visitar uma fazenda no estado americano do Iowa mostra bem este retrato. Penso nisso quando lidamos com as guerras culturais tão comuns no mundo contemporâneo onde se prega a pluralidade por meio autoritários invés de criarmos pactos e consensos.

Eu tenho amigos cristãos e convivi com homossexuais. Eles lidam com preconceitos originados em seus gostos e crenças. Mas invés de estabelecer um pacto onde se respeita a liberdades individuais. Vimos um retroalimento de posições radicais onde ninguém ganha com isso. Para pavimentar o estado laico como propõe a constituição. Deveríamos estabelecer que as pautas morais não interfiram em assuntos sociais onde a figura do mediador de conflitos seja preservada.

Poderes constituídos como judiciário, legislativo e executivo deveriam se comprometer com os princípios de um estado laico onde as questões de gênero e de ordem religiosa não interfira na vida das pessoas. Temos que estabelecer um rito processual nas discussões sobre a livre expressão de opiniões junto com um arcabouço jurídico onde os direitos e deveres dos cidadãos possam ser protegidos sobre a égide de um estado de direito como foi consagrado na carta magna.

A repressão de desejos e ideias nos leva a uma sociedade com forte pendor autoritário onde nenhum grupo tem o pleno exercício de sua liberdade intelectual. Não há avanços em meio a retrocessos programáticos. A política nos ensina a criar consensos em meio a conflitos abertos de uma sociedade. Porém, não temos o direito de patrulharmos quem pensa diferente de nós como uma forma de sufocar a livre expressão por temermos uma perda de controle de poder.

Em 1989, o muro de Berlim caiu por meio da pressão popular. Enquanto americanos e soviéticos estavam atônitos. O chanceler alemão-ocidental Helmut Kohl interrompeu a sua visita a Polônia e voltou para Berlim Ocidental onde deixou claro o seu desejo de uma reunificação entre as Alemanhas. Isso foi possível graças as costuras políticas entre diferentes países sobre como iria ser a futura Alemanha. Então, deveríamos pensar em criar consensos invés de dividir uma sociedade.

É tudo dinheiro

Nos anos 1990, eu era uma criança que assistia o noticiário. Meus colegas de Educere não tinham paciência pra conversar sobre a crise dos tigres asiáticos de 1997 ou a desvalorização do Rublo em 1998. Não tínhamos um conhecimento sobre o mundo contemporâneo por mais que eu tivesse o hábito de acompanhar as notícias mesmo não tendo alguém com quem podia conversar com a exceção do meu pai e da minha mãe quando saímos de casa para um restaurante chamado Peperone.

Lembrei disso hoje quando uma mulher que sigo no Twitter pediu ajuda com um app que lida com o bitcoin. A criptomoeda do momento. Fui dar uma olhada no Google e vi sobre o aplicativo que ela precisava de um segundo programa para a autenticação de dois fatores. Então, ela desistiu e soltou os cachorros pra cima dos seguidores cuja as mensagens lhe perguntavam sobre seu trabalho no mundo do entretenimento adulto. Eu fiquei na minha ouvindo Croácia vs Escócia no rádio.

Muitas pessoas não leem os cadernos de economia dos jornais e revistas. Percebi isso quando fui ajudar um estudante de relações internacionais que desejava entender porque uma espécie de Plano Real portenho não daria certo na economia argentina. Umas pessoas que sigo davam a desculpa de precisarem estudar os dados da macroeconomia castelhana enquanto respondi porque Buenos Aires dependente muito dos dólares por causa da moeda americana ser um porto seguro para os argentinos.

Nosso desconhecimento de assuntos econômicos é enorme. Não tiramos um tempo para lermos sobre as reportagens de economias pelo mundo. Uma amiga dos tempos da teoria junguiana me agradeceu por lhe recomendar um programa da BBC World Service sobre o mundo econômico. Eu ouço a Bloomberg Radio para me informar sobre o noticiário financeiro da Europa e da Ásia. Porém, pouca gente domina o inglês para entender o jargão das economias locais.

Logo entendo o longo desconhecimento de um assunto. Estamos em um tempo de criptomoedas e de compra de ações nas bolsa de valores. Porém, temos que aprender a todo momento sobre o mundo das finanças e seus enigmas para evitarmos a impressão de ignorância sobre como isso funciona. Então, vamos cuidar de nossas economias em um planeta globalizado. Não estamos em 1997 onde tivemos a crise dos tigres asiáticos em que não podia conversar com os meus colegas sobre isso só porque tinha 9 anos.

Tenho que avisar o Davizinho

Meu amigo Davizinho é fã do cineasta americano Steve Spielberg. O diretor de Tubarão anunciou que sua produtora fará uma parceria com a Netflix para a produção de filmes para o serviço de streaming diante da concorrência do Peacock (NBCUniversal) e HBOMax (Warnermedia). Sem contar a recente compra do grupo AMC pela Amazon e a ascensão da Disney com o Disney+. Este arranjo comercial poderá nos render bons filmes ou boas críticas de péssimas produções de cinema.

Aqui no Brasil, pensou-se que Spielberg fosse um inimigo de tal mundo novo por causa de suas críticas a academia em não criar uma categoria do Oscar para as produções de streaming. Porém, ele fez um acordo com a Apple TV para produção de séries e sua produtora tem um acordo com a Netflix como informou a Bloomberg. Logo entendo que verei tal amigo comentando isso comigo no podhaters ou no podgeeks para discutirmos o futuro do cinema contemporâneo.

A pandemia teve dois efeitos na indústria do cinema: o fechamento das salas de cinema junto com os poucos lançamentos do mercado que vão diretamente ao streaming. Logo percebemos que o Disney está lançando filmes como Viúva Negra e Cruella nos cinemas e no Disney+ ao mesmo tempo enquanto a Warnermedia está lançando as suas produções diretamente no HBOMax como uma forma de contornar os problemas e tentar alcançar o público para assinar tal serviço.

Mas tais lançamentos não se traduzem em qualidade. A Netflix lançou o Army of the dead, de Zac Snyder, após o sucesso do snydercut da Liga da Justiça no HBOMax. Porém, isso gerou uma montanha de críticas no Rotten Tomatoes onde o público não estava aceitando a tal produção da Netflix pelo fato de vermos zumbis correndo mais rápido do que o jamaicano Usain Bolt e sem contar a saraivada de questionamentos no HBOMax por uma produção de 4 horas de duração.

Davizinho está trabalhando na crítica cultural como sempre fez. Em minha função de líder da oposição ao críticos de cinema da faixa etária de 20 anos de idade. Vou ter que provoca-los na questão de como iremos ver um filme nos próximos anos se caso a pandemia persistir por mais tempo para retomar a nossa vida normal. Porém, eles não terão respostas a tal questionamentos porque estarão preocupados com os filmes dos anos 1990 para dizer que são descolados.

500 mil amigos, parentes e desconhecidos

Ontem, atingimos uma marca fúnebre de 500 mil mortos pela pandemia. Um fato tão horrível que nos mostra a nossa resistência de mudar o nosso país. A população brasileira lida com isso como resignação do novo normal onde não temos uma solução. Nossas preferências políticas deveriam sair da cena para dar lugar a um pragmatismo dos fatos contemporâneos. Porém, como sairemos de uma realidade tão complicada em nosso labirinto do negacionismo dos dias atuais.

500 mil pessoas morreram que eram nossos amigos, parentes e desconhecidos que viraram um número de uma estatística trágica de nossa realidade onde não aceitamos medidas simples como lavar as mãos e usar álcool em gel. Temos um temor de que tais problemas fiquem sem solução até 2023 diante do cenário de 2022 virou um vale tudo eleitoral onde as pessoas não se sintam confortável ao digitar os números de seu candidato na urna eletrônica tão contestada por uma pseudo-inteligência.

Não há solução fora da política. Porém, temos um trabalho de reerguer uma nação tão devastada por um vírus onde não tivemos uma política de combate a doença como vimos em várias nações europeias e como foi comprovada nos depoimentos da CPI onde vimos a negligência de um desgoverno que negou os contratos de compras de vacinas em virtude de um remédio de sua eficácia não era comprovada por meio de estudos científicos em nossa sociedade e nos organismos internacionais.

Estamos em uma tragédia onde a sociedade reage de maneira exemplar com as manifestações antigoverno nas ruas das cidades. Mesmo respeitando os protocolos da OMS. Queremos dar a volta por cima para retomar o crescimento econômico e o desenvolvimento social. Mas é desolador o cenário político em nossa busca por uma alternativa as opções apresentadas pela política como o despresidente e o ex-presidente onde se retroalimentam com uma polarização estúpida.

Não há solução sem sairmos da política. Deveremos cobrar do governo medidas, mas vemos o desministro da economia divagando sua demofobia contra a população mais simples onde não aceitam que compre livros e não tem dinheiro para comprar a comida. A armadilha da renda média deveria impulsionar um programa reformista na área econômica. Porém, temos que enterrar os nossos 500 mil mortos sem cerimônia. É uma triste realidade onde vamos mudar com nossa teimosia e nossas ideias.

Hay gobierno, soy contra

A recente discussão política sobre como foi eleito o despresidente nos mostra como não aprendemos com a história. Em 2018, o país queria acabar com a corrupção onde a classe política era vista com descrença. Então, votamos nele por causa de um antipetismo. Em 2019, ele fez a prometida reforma da previdência diante de um consenso nacional para conter o déficit fiscal. Porém em 2020, a pandemia surgiu e sua fase nefasta revelou uma dura realidade para a população.

Em 2018, eu declarei no Twitter que ia anular o meu voto. Não me arrependo. Mas não faço caça as bruxas. Tanto que comentei com uma amiga que teria 4 anos de trabalho pela frente. Mas hoje, vivemos em uma sociedade polarizada onde nós patrulhamos as escolhas políticas do nosso vizinho e de nossos parentes. Este é o pior estágio do autoritarismo em que esquecemos de respeitar a pluralidade de ideias com o cerceamento da liberdade alheia em prol do bem comum.

Eu anulo o meu voto desde 2008 por ser contra a obrigação de votar mediante punições burocráticas. Na minha concepção, isso deveria ser facultativo. Porém, os Estados Unidos são citados como exemplo disfuncional por causa das leis de restrição do direito de votar que foram aprovadas em estados governados pelo Partido Republicano como Texas, Geórgia e Florida por causa da derrota na eleição de 2020 onde Donald Trump não foi reeleito e os Democratas ganharam o controle do Senado e da Câmara dos Representantes.

Na Europa, vários países como Reino Unido criaram sites para cadastro de registro de voto. Ou seja, basta se cadastrar na comissão eleitoral para ser apto a votar sem ter sanções como é comum no Brasil ou a supressão do direito a voto nos Estados Unidos. Enquanto os adeptos de obscurantismo deflagram desconfiança no processo eleitoral ser totalmente eletrônico. Eu confio nas urnas por conhecer o mecanismo de voto diante da ignorância e má-fé de tais pessoas em não aceitar uma derrota.

Uma democracia forte tem de permitir o debate de ideias e não uma caça as bruxas com o intuito de recuperar a alma de uma nação. Os indicadores como ativismo político junto com uma imprensa forte por meio de um jornalismo profissional e independente é um fator importante. Não basta ficarmos com a sensação de culpar o próximo pelos males da nação. Temos que mostrar a necessidade de uma cultura política que sobreviva as intempéries contemporâneas.