Mauvais Sang

Em 1986, o cineasta francês Leon Carax filmou Mauvais Sang, que conta a história de dois jovens que vivem os desencontros do amor. A cena emblemática de tal filme é uma cena em que o homem pediu a música Modern Love, do álbum Let’s Dance, de David Bowie, em uma rádio para a sua amada e saiu correndo pelos quarteirões dançando loucamente por ela.

Parece que esquecemos isso. Eu lembro da minha amiga Nickole ficou impressionada quando mandei a música Kiss Me, do seriado The Dawson Creek, para consolar uma amiga em comum desencantada com o amor. Ela falou que tinha um lado romântico por ter ajudado uma amiga como lembrei no filme Mauvais Sang e suas teorias sobre o amor moderno.

Sinto falta das danças inspiradas e individuais. Hoje, vivemos uma vulgaridade onde contamos as nossas vidas sexuais sem pudores como se fosse algo para contar vantagem sobre o seu semelhante. Por mais que os teóricos sexuais afirmam que precisamos não nos censurar os nossos desejos. Mas me pergunto porque pensamos assim e esquecemos do fato de uma dança possa inspirar alguém por quem está apaixonado.

Em 1987, o então shadow foreign secretary trabalhista Denis Healey dançou junto com a sua esposa em uma estação de trem na antiga União Soviética para o espanto do líder Neil Kinnock que cumpria uma agenda protocolar de conversar com a nova liderança soviética sob o comando de Mikhail Gorbachev, que tinha um grande amor por sua mulher Raissa.

Parece que a humanidade se esqueceu dos sentimentos humanos em prol de uma vida sexual rasteira. Eu tenho as minhas dúvidas quando vejo alguém falando das aventuras sexuais como se fosse um comentário de jogo de futebol. Mas ainda prefiro ser o jovem de Mauvais Sang e pedir Modern Love para a minha amada para expressar o meu amor pelos quarteirões de Paris.

Malcolm Rifkind

Tenho uma amiga de twitter que gosta do sotaque britânico de um cantor desconhecido para a minha pessoa. Então, lembrei do ex-secretário de relações exteriores Malcolm Rifkind. Ele tem uma fala carregada e que meu professor de inglês Fabiano dizia ser um tea spoon in a mouth (uma colher de chá na boca). Mas porque estamos discutindo isso nesse blog?

O Brasil é um país de cultura fechada onde qualquer tentativa de inovação é tratada como uma traição a pátria. Parece que nós temos que ser o exotismo do mundo onde a nossa antropofagia é tão admirada quão nefasta para nós que pensamos diferente da tropicália intelectual. O território tupiniquim imita tudo e todos, mas de maneira caricata e sem nexo com o mundo.

Eu sempre estudei assuntos que me interessam e fiz um processo de assimilação e inovação de tais culturas estrangeiras. Quando comecei a escrever sobre política britânica aqui no Homo Causticus. Eu recebia comentários em inglês me elogiando ou fazendo propaganda de um serviço de internet. Mas percebi que tinha pouca coisa em português sobre a história anglófila.

Foi assim que conheci o meu amigo britânico Colin Musk, que é um grande interessado na cultura lusófona e me elogiou em seu blog porque entendia de política britânica durante a cobertura que fiz sobre o Brexit. Nós trocamos ideias por meio dos comentários de nossos posts como uma forma indireta de intercâmbio cultural sem ter um viés ideológico por exemplo.

O que me impressiona até hoje é que a cultura brasileira é interessante, mas os brasileiros são os malas sem alça da humanidade. Esse paradoxo não se muda do dia pra noite. Temos que criar as nossas próprias ferramentas para nos integrarmos ao mundo globalizado tão temido por certos setores de nossa sociedade inculta. Enfim, eles não devem conhecer o sotaque britânico de Malcolm Rifkind.

John Major

john major

Quando era criança, eu tinha um vocabulário que assustava os coleguinhas e gostos como ler revistas de carros. Era um garoto simples de uma cidade do interior como Pindamonhangaba. John Major jogava cricket em um clube na cidade de Brixton, no interior da Inglaterra onde era a única forma de escapismo dos dias difíceis de sua vida de adolescente.

Volto ao tema de John Major após lembrar de uma reação de uma amiga após ler uma crônica que escrevi no Homo Informadus sobre Major e o cantor folk americano Tom Petty por causa da música Learning to fly. Ela ficou impressionada com o texto e pediu para que meus amigos compartilhassem o post depois de ler-lo. Assim é a minha vida de observador da humanidade.

Em um país onde os garotos simples do interior sempre são olhados com um olhar torto de quem mora nos grandes centros. Temos que nos superarmos. Não queremos uma revolução maoísta. Só queremos ser compreendidos sem um olhar de exotismo porque eu acompanho a política internacional como na minha época de assistir o Jornal Nacional porque não tinha assinatura da Folha ou Veja e nem acesso a internet.

No Reino Unido, os ingleses valorizam esse determinação do garoto do interior. O destemor de enfrentar um mundo hostil e sem medo de se machucar. Major foi um destemido premiê que enfrentou a resistência dos eurocéticos enquanto negociava o tratado de Maastritch, que fornecia a base legal para a criação de União Europeia em 1992.

Sempre lido com isso mesmo na vida adulta. Parece que os cidadãos dos grandes centros ficam com medo de alguém que mora no interior e que acompanha a política britânica. Tanto que fui considerado um ser exótico por um baladeiro carioca por simplesmente fazer isso. Eles nuncam vão entender a lógica de um simples garoto de Brixton que virou premiê.

As devoções modernas

Quando estudava no Colégio Educere. Eu tinha a aula de formação onde falávamos de biblia como nunca. Em um momento nos dez mandamentos tinha a frase que não poderíamos colocar deus em vão. Percebo que a vida contemporânea está lidando com isso com o fato de vermos pastores evangélicos que estão no atual governo falando sobre a devoção do senhor.

Percebo que a humanidade se perdeu um pouco em relação a isso. Lembro de uma conversa com um conhecido olavista que afirmava que o iluminismo destruiu a Europa católica por abolir a religião cristã em prol de um multiculturalismo tão criticado por afastar a plebe dos mandamentos de deus em um momento onde as igrejas estão sendo vendidas em países laicos como a Holanda.

Ultimamente, a humanidade tem uma devoção por um gadget do que ter uma conversinha como o chefão dos céus para explicar como vai a tua vida desde das agruras até as pequenas alegrias. Mas temos que entender que não temos um deus uniforme para todos e sempre terá diferença nas crenças individuais quando falamos a palavra do senhor dos ares.

Nós vimos a grande louvação por ideologias, drogas psicotrópicas, modos de vida, animais e afins. Me pergunto como a humanidade quer me pregar a palavra de deus enquanto dois seres humanos ditos religiosos vão ao bar cometer o pecado de beber uma cerveja e de falar mal do próximo sem o menor sentimento de culpa porque pensa que o chefão perdoa tudo?

Essa pergunta não tem uma resposta clara e objetiva. Mas faz uma baita reflexão sobre a questão da religião no mundo contemporâneo tão imperfeito e incompreendido onde nós vivemos os nossos dilemas existencias. Não adianta apelarmos para a biblia ou o último livro de Theodore Daryllimple. Enfim, vamos precisar de uma conversinha com o chefão dos céus.

Os grupos de whatsapp

Volto de minhas férias e lido com os velhos problemas humanos de sempre. Meu amigo filósofo baiano saiu de um grupo de whatsapp e foi colocado em outro agrupamento com a sua inimiga de sempre que gerou treta por causa dos amigos paranaenses que gostam de ver o circo pegar fogo como na Roma do imperador Nero sem o propósito de fazer uma poesia (Nero estava entendiado com o império romano pelo jeito).

Eu não me incomodo com isso por que já fiz partes de vários grupos ao longo da minha vida. Sempre fui um lobo solitário em questão de relações humanas tanto por causa do autismo quanto por ser portador da esquizofrenia. Então, atuava como um chefe da casa civil como o General Golbery (governo do presidente-ditador Ernesto Geisel) para pacificar os membros com uma fala mansa.

Sempre lembro aos meus amigos de redes sociais e do mundo real da minha função como primeiro-ministro francês no sistema da quinta república onde o presidente tem funções imperiais desde dos tempos do general Charles De Gaulle. Sempre tive que ser um diplomata discreto que conversa diretamente com os outros com aquele jeito humano de ser.

Minha mãe e meu pai sempre se preocupavam com o filho único que gosta de ficar em casa. Mas eles entenderam que não sou um sujeito que traga problemas para chamar a atenção do patriarca e da matriarca. Mas ambos tinham o seu lado de premiês franceses como o trato dos clientes da oficina do meu pai e os problemas que as amigas da minha mãe desabafavam com ela.

Os meus amigos e amigas vivem em mundos diferentes do meu aconchego. Mas não fico fazendo lamúrias por causa disso. As vezes, desabafos com eles sobre os meus problemas de vida adulta mais para ouvir uma opinião sensata e ter a sensação de não estar sozinho no mundo. Enfim, isso não acontece em um grupo de whatsapp da vida onde brigamos por nada e não criamos afinidades com o próximo.

Assuntos para conversar em uma rede social

Ultimamente, eu vejo muitos amigos vivendo em bolhas. Porém, não consegue conversar sobre outros assuntos cotidianos diante de não-convivência com pessoas de mundos diferentes. Pensando nisso, nosso instituto de assuntos interpessoais do HC sugere pautas para conversas:

Relações Internacionais

Ultimamente, o mundo está mais louco do que o mal da vaca louca (pesquise no site da BBC Brasil para saber de tal referência). Mas pauta geopolítica pode incluir:

  • Estados Unidos com Trump
  • Brexit
  • União Europeia
  • Tensões entre russos e ucranianos
  • Argentina

Cotidiano

As conversas sobre o cotidiano podem resultar em grandes descobertas sobre as fofocas da vizinhança. Mas temos uma pauta para você:

  • As eleições na Austrália
  • O título de Facundo Ardussio na Super GT Argentina
  • A nova série da BBC
  • Os novos espetáculos teatrais de SP.

Coisas intelectualescas

As discussões sobre os rumos da humanidade tem tomado as pautas dos cadernos da área intelectual dos jornais brasileiros. Temos a pauta

  • A obra de Knaussgard
  • O novo livro de Steve Pinker
  • A nova edição de Mac e seus contratempos, de Enrique Villa-Matas
  • E a falência das livrarias brasileiras

Bem, temos assunto. Só falta um interlocutor para conversar sobre isso.

As referências

Eu estava no instagram quando vi uma foto da capa do livro do escritor espanhol Enrique Villa-Matas. A obra se chama O Mac e seus contratempos. Sugeri a minha amiga editora catarinense que pudesse publicar uma resenha sobre tal calhamaço. Mas ela afirmou que não era uma boa resenhista e sugeriu uma amiga dela que publica fotos dos livros que lê no insta.

Isso me lembra a questão de termos poucas discussões sobre literatura nas redes sociais por mais que tivessémos a guerra entre críticos literários e booktubers semanas atrás. Não se discute a produção literário com o devido respeito. Isso fica reservado aos clubes de leitura tão herméticos como o sarcófago de metal construído para proteger o reator 4 da usina de Chernobyl.

Não temos referências de críticos e booktubers. As editoras não buscam apostas para o nosso pequeno mercado editorial. As grandes livrárias estão perto da falência por não serem bem administradas e não terem força para fazer frente a Amazon. Então, o leitor brasileiro não tem acesso a bons livros diante dessa tempestade perfeita de crise nos trópicos.

Mas as pequenas livrarias podem nos salvar? sim. Mas onde vamos achar um livreiro que possa explicar as obras literárias de Voltaire e de Alexander Dumas para um público que está acostumado a acompanhar as últimas novidades das vidas das celebridades. O Brasil precisa de um choque cultural, mas que não será feito pelo nosso presidente-capitão.

Enrique Villa-Matas escreve mais em catalão (idioma usado na região espanhola da Catalunha) do que espanhol em si. Ele deve ter problemas em usar um computador projetado nos Estados Unidos e fabricado na China como um Mac da Apple. Os computadores podem ser um objeto que rouba a nossa atenção, mas fornece boas leituras de escritores espanhóis que não conhecemos.