A despedida de Salmond

Sempre que alguém se despede de sua área de atuação. Uma festa é feita e tal pessoa faz um discurso de despedida onde sempre lembra daqueles que o ajudaram durante toda a sua carreira. O first-minister escocês Alex Salmond fez isso hoje durante a conferência do SNP, o partido nacionalista escocês. Ele havia prometido deixar a política antes do resultado do referendo da independência de 18 de setembro. Tanto que anunciou o nome da vice-líder Nicola Sturgeon como nova premiê.

O seu discurso de despedida, Salmond enalteceu os companheiros de partido como o secretário de finanças, John Sweeney e Nicola Sturgeon e disse que a Escócia irá se tornar um país independente. Ele afirmou que seu partido respeita o resultado do referendo onde 55% dos escoceses disseram não a independência. O first-minister questionou a atuação dos conservadores e trabalhistas durante o processo que negocia a transferência de poderes de Westminster para Holyrood.

As palavras de Salmond demonstra que os escoceses desejam ter o direito de ser respeitado. Um discurso que reforça o coro dos partidos nacionalistas como Plaid Cymru, de País de Gales e o partido Verde, que discutem uma aliança para as eleições gerais de maio de 2015. A descrença da população britânica na coalizão Tory-LibDem e a impopularidade do líder trabalhista Ed Miliband reforçam as projeções que nenhum dos três grandes grupos de Westminster terá a Overall Majority, ou seja a maioria clara para governar o país.

A ascensão de partidos como o eurocético UKIP e o nacionalista SNP mostra que Trabalhistas, Liberais-Democratas e Conservadores terão um trabalho difícil pela frente. Salmond prometeu eleger MPs escoceses no parlamento britânico. Isso pode causar dores de cabeça para Ed Miliband e David Cameron. O first-minister ainda fez a promessa de evitar a privatização do sistema de sáude publica local, o NHS Scotland, algo que vem sendo discutido pelos tories.

Em um momento de sua despedida da arena política, Salmond fez um discurso em que reforça a independência, mas promete vigor na cobrança das promessas feitas pelos unionistas durante a discussão do referendo. Os escoceses querem uma Escócia melhor. Mas isso exige uma ampla reflexão que o SNP deve fazer ao confirmar o nome de Nicola Sturgeon como próxima first-minister nos próximos dias. Este é apenas um desafio para o futuro do nacionalismo escocês sem Alex Salmond.

 

 

2 anos escoceses

Quando se começa a trabalhar em uma cobertura de um evento histórico. Precisa-se de planejamento e muitas ideias para se contar as histórias, fazer análises além de montar uma estrutura técnica para te dar um suporte em um acontecimento como esse. Isso aconteceu com o referendo da independência da Escócia. Para que esse momento histórico fosse contado de uma maneira simples, informativa e única. Este que vos posta passou dois anos afinando o piano para fazer um amplo relato sobre os fatos ocorridos no dia de ontem e hoje.

Tudo isso começou em um domingo a noite em janeiro de 2012. Eu estava passando o tempo antes de ver o Newsday, da BBC World News. Entrei no site da BBC e vi um video de uma entrevista do primeiro-ministro britânico David Cameron ao programa The Andrew Marr Show, da BBC One. Em um momento, Cameron defendeu a realização de um referendo para decidir se a Escócia se torne um país independente. Assim encerrando uma união de mais de 300 anos de história e divergências.

Aquilo ficou em minha cabeça. Então avisei dois amigos sobre isso. O meu velho amigo Maurício e minha fonte oficial anônima (ela é uma amiga que quer se preservar a sua identidade) sobre o fato escocês. Nos dias seguintes, não vi nenhuma repercussão na imprensa brasileira. Mas a midia internacional estava atenta. Tanto que Cameron foi a região para tratar dos termos do referendo. Eu publiquei um post no serviço em inglês do Homo Causticus, o HC World Service, sobre tal encontro do primeiro-ministro com o lider nacionalista Alex Salmond.

Isso agradou uma leitora britânica, que republicou o meu post no blog dela. Então, iniciei a cobertura do referendo escocês desde de 2012. Quando havia uma notícia relevante sobre a votação publicava no HC World Service. Em outubro de 2012, logo nos primeiros dias que comecei a ver a BBC News, o âncora do BBC News At Ten, Huw Edwards foi para a Escócia para cobrir o acordo que permitiu o referendo. Foi a primeira vez que vi o editor de política escocesa da BBC, Brian Taylor (que entende como poucos a política local)

Apartir disso, comecei a postar notícias sobre política britânica e acompanhar de perto os dois anos de campanha. Este trabalho mudou a minha vida pelo fato neste meio tempo, eu fiz coberturas importantes como as eleições em várias partes do mundo. Em 2014, o Homo Causticus entra na cobertura com textos analisando os principais fatos do periodo eleitoral escocês. Nossa empreitada foi interessante pelo fato de acompanhar o fato desde do começo da jornada. Estes foram os dois anos escoceses de minha vida.

Stay in the union

Após mais de 2 anos de campanha, o não venceu o referendo sobre a independência da Escócia. A opção de continuar como parte do Reino Unido tem criado uma incompreensão daqueles que tem noção um pouco de história britânica, onde o território escocês sempre lutou contra o domínio de Londres desde dos tempos de William Walace, que foi interpretado por Mel Gibson no filme Coração Valente. Para os nacionalistas, isto foi uma ducha de água fria e uma eterna dor de consciência por ter perdido uma oportunidade histórica.

Agora, os unionistas que triunfaram nesta votação terão que cumprir a promessa de mais poderes para o Holyrood (sede do parlamento escocês). A vitória do não se deve ao esforço de última hora do ex-premiê britânico Gordon Brown que conseguiu arrancar um acordo entre os três partidos unionistas como os Trabahistas, Conservadores e Liberais-Democratas em torno desse acordo. Isto mostra a força de um ex-primeiro ministro que viveu a decadência mas que ascendeu com uma esperança como Brown.

O primeiro-ministro David Cameron afirmou que irá cumprir as promessas de campanha com o envio de uma lei dando autonomia para Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales em novembro. O First Minister escocês Alex Salmond pediu a unidade aos escoceses e disse que irá exigir que tais compromissos seja cumpridos. Os ingleses querem a criação de um parlamento próprio. Anseio ouvido pelo vice-premiê Nick Clegg que afirma que tal pedido irá ser atendido em uma vitória liberal-democrata em 2015.

Neste momento, o Reino Unido foi preservado. A vitória do não surpreendeu o mais otimista dos escoceses nacionalistas que previam uma virada do sim nas grandes cidades como Glasgow e Edimburgo. Só resta o nacionalismo escocês engolir mais uma derrota em sua história. Não se sabe se o partido nacionalista SNP poderá voltar ao poder em Holyrood nas próximas eleições locais ou se Salmond continua lider do mesmo ou entrega a liderança a sua fiel escudeira e vice-lider Nicola Sturgeon.

Agora é uma hora para olhar para a frente. Isto vai exigir um amplo bom senso de ambos os lados. As promessas terão que ser cumpridas como forma de respeitar a vontade popular. Não sabemos se o SNP pode perder a maioria em Holyrood ou se os conservadores estarão no poder após as eleições gerais de maio de 2015. Este é um momento onde o escocês quer ser ouvido para ter um futuro melhor. Mas para isso acontecer, a população precisa está atenta e fiscalizar o cumprimento de tais compromissos.

A batalha da Escócia

Daqui a uma semana, os escoceses irão as urnas para decidir se o território britânico pode ser um país independente. A discussão toma corpo nas ruas, pubs e casas em torno do futuro escocês. A batalha da Escócia ocorre de maneira tranquila mesmo com promessas de maior autonomia para Holyrood (sede do parlamento local) por parte dos unionistas ou a emancipação completa do domínio britânico prometida pelos nacionalistas. Isso é um momento histórico para a população escocesa.

Os indecisos serão o fator chave para a vitória dos nacionalistas ou unionistas dado o fato que as pesquisas de opinião indicam uma ligeira vantagem para o não, mas isso pode ser revertido pelo sim. As sondagens que serão publicadas nos próximos dias irão mostrar um cenário incerto. O anúncio de que os bancos britânicos Lloyds, RBS e TBS poderão se mudar da Escócia para Londres assustou os mercados. Tanto que o first minister Alex Salmond pediu uma investigação para descobrir como uma informação privilegiada foi vazada para a imprensa.

As recentes visitas do primeiro-ministro David Cameron (Conservador), do líder da oposição Ed Miliband (Trabalhista) e do vice-premiê Nick Clegg (Liberal-Democrata) para a região pode ter fornecido apoio para os unioinstas. Isto pode ser revertido com o efeito colateral da visita do eurocetico Nigel Farage (UKIP), que tem uma ampla rejeição no território escocês. O esforço unionista para manter a Escócia no Reino Unido pode ser devastado por uma gafe faragiana de proporções épicas.

Para os três grandes partidos de Westminster podem ser traumatizados em caso de uma independência escocesa. Os trabalhistas perderão o seu reduto leal desde do nascimento do movimento sindical no século 19. Os conservadores não querem ficar manchados na história por perder um território tão importante, mas os escoceses rejeitam os tories tanto que a piada que se tem mais pandas do que parlamentares tory é uma constante. Os liberais-democratas estão preocupados com o fato da perda de apoio em um momento de declínio como o atual.

Os nacionalistas tentam dissipar a desconfiança. Tanto que apela para o voto feminino e dos jovens como forma de mostrar um futuro prospero em um país independente mesmo com as advertências das redes varejistas como Asda e John Lewis de que os preços de seus produtos irão aumentar caso a região se emancipe do Reino Unido. A batalha pela Escócia ainda tem muitos confrontos até a próxima quinta-feira, dia tão aguardado pela população escocesa nos últimos 300 anos.

Os traumas de 1979 e as reações de 2014

O Reino Unido viveu um dia de instablidade. O Pound se desvalorizou e a Bolsa de Londres caiu. Tudo isso por causa da perspectiva real da independência da Escócia. As pesquisas indicam uma reação dos eleitores favoráveis a emancipação da Grã-Bretanha e isto cria dúvidas como a criação de união monetária que seria dividida entre Londres e Edimburgo. Os escoceses dissipam as dúvidas em torno do futuro incerto e estão determinados a mudar os rumos do território com um simples voto.

Para os nacionalistas, os traumas de referendo de 1979 estão presentes. Quando o ex-primeiro ministro britânico, Alec Douglas Hume liderou uma campanha contra a autonomia do território. O sim não atingiu os 2/3 necessários para que o resultado fosse validado. O SNP tem feito uma campanha onde as principais questões como o uso do Pound e o desejo da Escócia se tornar um membro da União Europeia são o principal caminho para que o novo país possa andar com as próprias pernas.

Para os unionistas, os resultados da pesquisa divulgadas pelo instituto YouGov indicam que os escoceses querem mudanças efetivas em suas vidas. O plano de autonomia proposto pelo ex-primeiro ministro Gordon Brown é uma forma de fazer frente as ideias nacionalistas. O fato que os investidores terem reagido de maneira contrária a uma provável independência escocesa reforçou as apostas que a proposta Brown que defende mais poderes nas áreas de tributação, estado de bem-estar social e finanças.

Ambos os lados propoem uma mudança de vida aos escoceses. Isto permite uma ampla reflexão sobre os 300 anos de união Escócia-Grã Bretanha. Enquanto os escoceses são católicos e os britânicos são anglicanos. Este divórcio é um assunto controverso. Só agora, os unionistas lançaram uma proposta para conter o nacionalismo. A Escócia é um local de votos para os trabalhistas, Tanto que o partido lidera a campanha unionista e isso se reflete na pouca reação dos conservadores e liberais-democratas.

Há dez dias da votação do referendo, o cenário é incerto. Ambos os lados estão empatados em uma pesquisa realizada pelo instituto TNS a mando do jornal The Times. Neste momento, o referendo vira uma batalha de ideias e propostas para o futuro escocês. Tanto nacionalistas quanto unionistas depende de cada voto de um simples escocês indeciso. Ele fará diferença em uma disputa tão acirrada quão equilibrada. Esse é um periodo de mudanças e os fatores precisam ser analisados para explicar os traumas de 1979 e as reações de 2014.

 

Quem venceu na Escócia?

Hoje, os escoceses assistiram o segundo debate sobre a independência da Escócia. O first-minister nacionalista Alex Salmond e o líder unionista Alistair Darling se enfrentaram por 90 minutos em um confronto de idéias organizado pela rede de tv pública britânica BBC. O encontro foi marcado pela informalidade de Salmond em responder as perguntas dos espectadores fora do pulpito enquanto Darling focava na questão de uma eventual união monetária entre o território e o Reino Unido. 

Nessa vez, Salmond respondeu isso de forma tranquila e com bons argumentos. Se no primeiro debate ficou claro a falta de tato de Darling quando era questionado por suas posições. No encontro da BBC, o ex-chancellor of exchequer ficou perdido em meio aos argumentos do first-minister. Darling não soube responder sobre a questão da manutenção do serviço de saúde escocês além de não conseguir argumentar a favor a permanência do sistema de ogivas nucleares Trident em solo escocês caso o território permaneça sobre controle britânico.

Para as pesquisas de opinião divulgada pelo jornal britânico The Guardian há poucos minutos afirmam 71% dos entrevistados pensam que Salmond foi o vencedor deste debate. Isso mostra uma melhora na posição do nacionalista. Isso se deve ao fato do first-minister ter anunciado que irá renunciar caso o sim vença no referendo do dia 18 de setembro na semana passada. Salmond está determinado a dar uma independência a Escócia. Isto é um momento único que os nacionalistas do SNP tem de ver Edimburgo longe da influência de Londres.

Os escoceses desejam a independência desde do referendo de 1979, quando o resultado pró-independência não atingiu os 2/3 necessários para ser validado. Salmond está apostando as suas fichas em uma vitória apertada do nacionalismo enquanto Darling tenta preservar a união de um território que sempre vota contra os conservadores nas eleições para o parlamento britânico. Tanto que a piada que se tem mais pandas no zoológico de Edimburgo do que parlamentares tories na Escócia.

As Tvs britânicas tentam marcar mais um debate antes do dia 18 de setembro. Para Darling, isso permitiria uma mudança nas intenções de votos dos escoceses. Mas o encontro da BBC pode ter sido o decisivo pelo fato de ter sido organizado de comum acordo tanto pelos unionistas quanto por nacionalistas. Salmond é um político que sabe fazer discursos de improviso e de forma informal. Neste momento onde os resultados das pesquisas de opinião são inconclusivos. O debate pode ter dissipado as dúvidas. O resultado será conhecido em 18 de setembro.

Com a colaboração de Natalie Braido

 

A gafe de Abbott e outros palpites não-britânicos

Tem horas que nós esquecemos de ligar o cérebro quando falamos como dizia o jornalista Jorge Kajuru. Então, cometemos uma gafe homérica. Isso aconteceu com o premiê australiano Tony Abbott. Em entrevista ao jornal britânico The Times em sua edição de sábado. Ele afirmou que a independência da Escócia é uma má idéia. Abbott disse que quem gostaria de ver uma divisão do Reino Unido não é amigo da liberdade e da justiça. Em resposta, o first-minister escocês Alex Salmond classificou os comentários como hipócritas, tolos e ofensivos aos escoceses.

A independênca escocesa está sendo conduzida de forma democrática como disse Salmond. Os escoceses vão decidir o seu futuro em um referendo no dia 18 de setembro. Muitos líderes estrangeiros como o presidente americano Barack Obama e o primeiro-ministro chinês Li Keqiang tem defendido a união do Reino Unido. Eles se esqueceram das palavras do presidente francês Charles de Gaulle (1958-1969) quando disse que desejaria uma Quebéc livre (provincia canadense que vive aspirando uma independência por ser de colonização francesa) em 1967.

Em suma, nenhum dirigente estrangeiro tem que intevir em uma questão interna. Mas os temores de ver uma independência de um país aliado tira o sono de qualquer dignatário. Tanto que o premiê espanhol Mariano Rajoy tem defendido o eventual bloqueio da candidatura escocesa para ser um país membro da União Européia por temer a mesmo movimento na região da Catalunha. Mas as palavras usadas por Abbott são um verdadeiro absurdo porque o primeiro-ministro australiano não acompanha de perto o processo escocês.

Os escoceses vivem discutindo isso faz tempo. O partido nacionalista escocês SNP tem 81 anos de existência e tem sido um fator importante para que o território britânico tenha uma grande autonomia de Londres. Mas a campanha está focada na economia e no nacionalismo. Salmond irá enfrentar o lider unionista Alistar Darling em um debate que será transmitido pela BBC no dia 25 de agosto (Espero que Abbott assista o debate). Teremos um confronto interessante sobre o futuro escocês. 

Abbott deveria ter ficado calado ou ficar neutro em relação a isso. A questão da independência da Escócia deve ser tratada pelos escoceses. Um político australiano ficaria incomodado quando o seu colega escocês questionar sobre o referendo que pretende mudar o status dos aborigines na constituição australiana. Mas isso é uma outra discussão onde pediremos para que nenhum líder estrangeiro meta o dedo em uma questão interna para o bem da humanidade. Espero que o premiê australiano tenha aprendido a lição e não cometa o mesmo erro novamente.