O esforço de aprender francês

Em 2006, eu sempre entrava na van escolar do meu amigo Mauricio e pedia para que colocasse o rádio na Jovem Pan para ouvir os comentários do correspondente de tal emissora em Paris, Reali Jr. Era uma forma de aprender sobre a França mesmo tendo poucos recursos e me esforçando para entender o curso de inglês que comecei a fazer em 2007.

Naquele ano de 2007, a França estava vivendo uma corrida presidencial entre o liberal-conservador Nicolas Sarkozy e a socialista Ségolene Royal. Eu tinha farto material sobre aquele momento graças a ajuda do meu amigo Alexandre que me passou sua senha do UOL para eu poder ler as reportagens do Le Monde traduzidas para o português.

Isso me estimulava a ter responsabilidades como acordar cedo para ouvir os boletins de Reali Jr. e juntar dinheiro para pagar a conta da limpeza da impressora para que pudesse imprimir as reportagens do Le Monde para ler a vontade. Eu acompanhei a eleição francesa quando ligava na tv cultura para assistir o Le Journal da TV5 sobre a campanha.

Isto me manteve são para ter um objetivo de aprender francês por conta própria não por esnobar os cursos de idiomas, mas sim pela necessidade de entender uma cultura tão nova para mim e poder descrever-la de maneira sensata e quiçá ser um correspondente em Paris e ter um trabalho de destrinchar algo pouco explorado pelos brasileiros como a política francesa.

Reali Jr. morreu em 2010 e eu continuei a estudar o francês com pouco material disponível. Mas se não fosse a ajuda de meu amigo Aurélio. Eu vi que conseguia entender a fala sem precisar ler as legendas em 2014. Hoje, tenho um blog de política francesa chamado Le Monde Français e estou cobrindo as eleições presidenciais. Este esforço valeu a pena.

Reformafobia francesa

Hoje, a França viveu mais um dia de protestos em mais de 200 cidades por causa das mudanças no código trabalhista como o fim da jornada semanal de 35 horas adotada pelo governo do ex-presidente François Mittiterrand nos anos 1980. Mas os manifestantes estão protestando contra o presidente François Hollande e seu primeiro-ministro Manuel Valls.

Após a desistência de adotar uma ampla reforma constitucional que poderia permitir que o estado francês retirasse a cidadania francesa de terroristas nascidos no país. Mas as mudanças no código trabalhista despertam a ira dos franceses porque ameaça o seu modo de vida tão bem preservado com os acordos de Grenelle feitos após as greves de maio de 1968.

Mas a realidade econômica mudou. Os custos trabalhistas explodiram com o sistema da jornada de trabalho de 35 horas semanais junto com o fato das empresas não podem reduzir os salários. Tal medida foi tomada unilateralmente pela França como uma forma de iniciar um processo em cadeia de reformas trabalhistas nos países da então Europa Ocidental.

Mas países como Reino Unido e Alemanha adotaram sistema de bem-estar com legislações trabalhistas mais flexíveis junto com uma maior liberdade na negociação entre trabalhadores e empresários. Isso cria um sentimento de que a França está tomando o rumo errado mais por teimosia dos sindicatos e estudantes do que uma análise insensata do governo.

O problema do código trabalhista é que possa refletir uma divisão dentro do partido socialista. A secretária-geral do PS, Martine Aubry é contra as mudanças enquanto o maior defensor das mudanças e o primeiro-ministro Manuel Valls. Mas será que os franceses estão preparados para fazer sacrifícios para ter uma economia competitiva em relação a outras economias do mundo? Essa questão não foi respondida pelos protestos de hoje.

As greves de Paris

Hoje, os franceses foram as ruas protestar contra a reforma do código trabalhista proposta pelo premiê socialista Manuel Valls junto com o ministro da economia Emmanuel Macron e a ministra do trabalho Myriam El Khomri. Dos sindicatos até os estudantes fizeram uma jornada de 24 horas de manifestações para exigir o recuo do governo em implementar tais reformas.

Os principais pontos são:

  • Remoção de barreiras para demissões
  • Permitir que os trabalhadores que desejam trabalhar mais de 35 horas semanais ganhem uma remuneração extra
  • Dar poder as empresas para diminuir tanto jornada de trabalho quanto os salários.

Tais propostas são encaradas como um insulto ao legado socialista da reforma trabalhista feita tanto pelo presidente François Mittiterrand (1981-1995) quanto pelo primeiro-ministro Lionel Jospin (1997-2002). Os parlamentares socialistas estão engajados no veto de tal proposta por ser uma traição ao povo francês que faz questão de preservar a sua jornada de 35 horas semanais.

Mas a realidade é muito dura com os franceses. Mesmo adotando uma legislação trabalhista que lhe garante um amplo aparato de proteção social garantido pelo estado. A economia não consegue gerar os empregos necessários junto com um alto custo de sua mão de obra em comparação com o Reino Unido e a Alemanha que tem códigos trabalhistas que equilibram os interesses de empresas e dos trabalhadores.

Esse é primeiro protesto dos sindicatos e de grupos estudantis desde que o presidente socialista François Hollande assumiu o cargo em 2012 prometendo um amplo programa de estímulo econômico que fracassou porque o estado tinha problemas de ordem fiscal. A reforma do código trabalhista terá que ser discutida com maturidade e sem as greves de Paris.

O alerta de Hollande

Hoje, o primeiro-ministro britânico David Cameron fez uma rápida visita a França para cúpula franco-britânica. Além de discutir a situação dos refugiados no porto francês de Calais que desejam ir ao Reino Unido. Cameron ouviu um puxão de orelha de Hollande afirmando que uma eventual saída da Grã-Bretanha da União Europeia teria grandes consequências para a Europa.

O alerta de Hollande vem ao mesmo tempo que o ministro da economia francês, Emmanuel Macron defendeu a vinda dos investidores estrangeiros para La Defense após a saída do Reino Unido na União Europeu em entrevista ao diário financeiro britânico Financial Times em sua edição dessa quarta-feira como uma forma de dizer que a França é um bom lugar para se investir.

Tanto as palavras de Hollande quanto a entrevista de Macron mostram que a França adota um discurso ambíguo em relação ao Reino Unido. Mesmo que os franceses terem concordado com o acordo que deu status especial aos britânicos. Ficou claro que Paris já trabalha em um cenário onde o Brexit seja efetivado em um futuro próximo com duras consequências para a Europa.

No Reino Unido, a campanha anti-Europa ganhou músculos com a adesão de secretários como Michael Gove (Justiça) e Iain Duncan-Smith (trabalho e pensões) junto com o prefeito de Londres Boris Johnson. No lado pró-Europa teve uma surpresa pelo apoio do ministro das finanças da Alemanha, Wolfgang Schäeble durante a sua rápida visita a Londres.

Cameron e Hollande terão que discutir outras questões como a crise humanitária nas estações do Eurotunel entre as cidades de Dover e Calais. França e Reino Unido tem um tratado em que as fronteiras são geridas de forma conjunta. Mas isso foi esquecido pela imprensa que está mais preocupada com a situação política do Reino Unido e sua indecisão sobre a permanência na União Europeia.

 

O respeito as liberdades

Em um democracia, a cultura do respeito as liberdades individuais é um pressuposto de extrema importância como uma forma de preservação da mesma. Duas notícias colocam isso em contexto apropriado. O julgamento dos jornalistas turcos, Can Dundar e Erdem Gul por publicarem reportagens em que a Turquia estaria armando milicias islamista junto com a renúncia da ministra da justiça da França, Christiane Taubira, por sua discordância a nova lei anti-terror proposta pelo premiê Manuel Valls.

Enquanto Dundar e Gul estão sendo julgados por publicar reportagens contrárias aos interesses do governo. A ministra da justiça da França renunciou ao cargo por não concordar com a proposta de remoção da cidadania francesa de pessoas que participam de ataques terroristas por violar os seus princípios além de criar um sentimento de patriotismo extremado.

Tais notícias mostram como as democracias podem ter sido afetadas pelo pendor autoritário da manutenção da ordem. Dundar e Gul estão sendo acusados de espionagem. É comum a prisão de jornalistas na Turquia desde que o partido AKP chegou ao poder em 2002 sob a liderança do atual presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que rejeita a liberdade de expressão de forma veemente.

O caso turco complementa a notícia francesa ao vermos o estado como um fiador da lei e ordem. Os grupos de direitos humanos tanto na França quanto na Turquia pleiteiam a preservação das liberdades individuais. Mas isso soa como se fosse uma pregação no deserto diante de um cenário desolador no mundo geopolítico como a guerra civil na Síria e os ataques terroristas do Daesh.

Dundar e Gul são o exemplo da resistência do jornalismo diante das pressões de um governo que age de forma autoritária enquanto Taubira representa aqueles que tem princípios e não os violam em favor de uma decisão política que pode lhe custar a carreira. Agora é um momento onde turcos e franceses precisam ir as ruas para defender a liberdade como fazem Dundar, Gul e Taubira.

 

Uma aliança improvável

Na semana passada, o mundo fica impressionado com a liderança do partido de extrema-direita Front National nas eleições regionais francesas. Eis que o segundo turno realizado neste domingo teve uma grande virada em favor para os conservadores e socialistas que evitou uma vitória do FN.

A aliança entre os socialistas junto com o partido de centro-direita Les Republicaines é algo improvável como me disse o meu amigo professor da Faap. Mas não podemos duvidar de nada em se tratando da união entre a esquerda e a direita para evitar uma surpreendente vitória da extrema-direita.

Isso é uma prévia das eleições presidenciais de 2017. Os Les Republicaines vivem uma luta interna entre o ex-presidente e atual secretário-geral Nicolas Sarkozy  e o prefeito de Bordeaux e ex-ministro de relações exteriores Allain Juppé tentam conquistar o eleitorado nas prévias do partido sem data definida para acontecer.

No caso do partido socialista, o presidente François Hollande ainda vive com a sua crise de popularidade devido a crise econômica. Mas pode ser considerado um bom estadista nas questões de defesa e política externa que foram importantes nas últimas semanas como os atentados de 13 de novembro e o acordo final que resultou no tratado de Paris sobre o meio ambiente.

Mas fica a dúvida sobre o Front National, que pode lançar a candidatura de Marine Le Pen em 2017. Ela enfrentou o próprio pai e fundador do FN Jean-Marie Le Pen para fortelecer o partido e lhe retirar a pecha de antissemita, mesmo defendendo políticas anti-Europa e anti-imigração. Isso pode unir os socialistas e os conservadores novamente em 2017.

 

 

A doutrina Hollande

Em um país que sofre dois grandes atentados como a França neste ano. A figura do presidente François Hollande pode ser considerado um estadista nos momentos difíceis que a nação francesa vive. Mas a pergunta que fica é se a estratégia de combater o terrorismo e ao mesmo tempo, preservar as liberdades individuais será eficaz de derrotar tal mal.

Hollande conseguiu o apoio da população por sua estratégia de estar pronto caso a França seja atacada. Seu discurso no dia dos atentados de 13 de novembro mostrou o compromisso do presidente francês em derrotar o terrorismo como fez nos ataques de 7 de janeiro deste ano. É uma nova fase do Monsieur Normal.

O presidente francês que é impopular por seu fracasso econômico tem o apoio da população por sua postura sensata diante de atentados terroristas. Mas fica comprovado que não existe uma estratégia militar para derrotar o grupo Estado Islâmico mesmo com o apoio de Rússia e Estados Unidos.

Hollande adota uma postura de mandar tropas francesas em ex-colônias africanas como o Mali em resposta a ameaça terrorista no norte da áfrica. Mas hoje, um ataque a um hotel na capital malinesa que deixou 27 mortos põe em cheque qualquer estratégia em usar soldados para combater terroristas em territórios distantes.

As próximas semanas, Hollande terá que costurar os acordos para que se tenha uma grande coalizão militar contra o Estado Islâmico. Tanto que ele vai viajar aos Estados Unidos e a Rússia para ter apoio para tal empreitada. Isso vai exigir um amplo arranjo diplomático para evitar que a doutrina Hollande não fracasse.