As propostas, por favor

Há menos de um mês para o referendo sobre o Brexit. O Reino Unido vive uma guerra de trincheiras de dados e informações sobre as eventuais consequências da saída ou da permanência do país na União Europeia. Mas não se tem uma proposta consistente de ambos os lados quando se discute o day after da votação que pode decidir o destino de uma geração de britânicos.

Tanto que amanhã. Os eurocéticos liderados por Boris Johnson e o secretário de justiça, Michael Gove vão apresentar uma proposta governamental caso o Brexit seja aprovado pelo referendo do dia 23 de junho em áreas importantes como política de pesca e imigração. Essa é a bala de prata da campanha eurocética neste momento no Reino Unido.

Os europeístas apostam na figura do novo prefeito de Londres, o trabalhista Sadiq Khan. Seu carisma é tão importante que dividiu um palco com o primeiro-ministro conservador David Cameron em que afirmou que um filho de um etonian (estudante da escola de elite Eton) pode dividir o palanque com o filho de um motorista de ônibus como Khan usou em sua campanha eleitoral.

Ambos os lados apostam em estratégias diferentes neste momento. Os eurocéticos defendem a tese de imigração e do fim de subsídios em políticas agrícolas e pesqueiras da União Europeia enquanto os europeístas afirmam que o Reino Unido permanecer no bloco europeu irá ajudar na economia e na livre-circulação de bens e serviços no mercado comum continental.

As propostas precisam ser discutidas com cuidado. Tanto que a comissão de relações exteriores da câmara dos comuns contestou dados tanto de eurocéticos quanto de europeístas e os criticou por enganar o público por superestimar e subestimar os mesmos. A longa batalha do dia 23 de junho está apenas começando os combates nas trincheiras.

Usando a imigração

Há menos de um mês para o referendo. O Reino Unido pode ter uma virada no cenário com a decisão dos eurocéticos em focar na questão da imigração invés de falar das vantagens econômicas do Brexit. Isso foi revelado pelo editor de política do programa Newsnight (BBC Two) Nicholas Watt após a enxurrada de dados econômicos divulgados neste fim de semana.

A dificuldade dos eurocéticos em reverter o cenário é lembrada no referendo de 1975 sobre o mercado comum europeu. O então anti-marketeer trabalhista Tony Been mostrou um cenário catastrófico caso a entrada de produtos dos países-membros da então comunidade europeia afetaria a economia britânica que provocaria a perda de empregos.

A campanha pro-marketeer em resposta adotou uma postura de esclarecer os efeitos da adesão a CEE gravando performances de estrelas da campanha como os trabalhista Roy Jenkins e Shirley Williams falando com o público sobre as dúvidas em relação a entrada do país ao bloco europeu e assim mudou o jogo para que o Reino Unido permanecesse na CEE.

Em 2016, as negociações feitas pelo primeiro-ministro David Cameron que reforçam os controles sobre o benefícios de programas sociais e sobre a imigração entre os países-membros. Tanto os europeístas quanto os eurocéticos não conseguem atrair um eleitorado com questões complexas que pouco afetam a vida do cidadão como as regulamentações de Bruxelas.

Se os eurocéticos usarem os dados da imigração junto com o medo da perda de emprego do britânico para um encanador polonês como foi feito nos referendos pela constituição europeia de 2005 na França e Holanda. Poderemos ter um cenário onde os temores podem ditar o rumo se não houver um amplo debate sobre o Brexit sem termos os populismos e temores de ambos os lados.

As palavras de Johnson

A campanha do Brexit mostra uma clara divisão dentro do partido conservador. De um lado se tem europeístas históricos como Michael Heseltine, William Hague e Ken Clarke. Do outro se tem o histrionismo do eurocético e ex-prefeito de Londres Boris Johnson. Isso ficou claro quando Johnson afirmou que a União Europeia pretender unificar a Europa como se fosse Napoleão ou Hitler.

A declaração mostrou um racha no partido. Enquanto Johnson faz uma campanha pró-Brexit em que anda por todo país para angariar apoio. Os falcões dos tories como Heseltine dão entrevistas em que faz duras críticas aos eurocéticos e sua posição contraria a permanência do Reino Unido na União Europeia após o referendo de 23 de junho.

Isso cria uma sensação de guerra aberta entre os tories. Isso traz más lembranças como a guerra fratricida entre o primeiro-ministro John Major e os rebeldes eurocéticos liderados por John Redwood em 1995. Isso criou um leadership ballot onde Major venceu com larga vantagem, mas isso o enfraqueceu para as eleições gerais de 1997 perdendo para o trabalhista Tony Blair.

A perspectiva de uma divisão é assustadora para o primeiro-ministro David Cameron. Ele quer evitar a todo custo o desgaste vivido pelos trabalhistas quando convocaram um referendo sobre a permanência no então mercado comum europeu em 1975 tendo o protagonismo do eurocético Tony Benn e o antagonismo do europeísta Roy Jenkins. Isso enfraquecia o primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson.

Cameron deseja unir o partido após o referendo para estabelecer quem vai seu sucessor para disputar as eleições gerais em 2020. Uma eventual divisão poderia ajudar os trabalhistas que vivem sob intensa desconfiança desde que Jeremy Corbyn assumiu o comando do partido. Mas os britânicos estão pensando nas palavras de Johnson do que na luta interna conservadora pela Europa.

 

 

Pax Britannia

Nessa semana começou no Reino Unido a campanha do referendo sobre a permanência do país na União Europeia. O Brexit começa com as declarações do primeiro-ministro David Cameron e do ex-prefeito de Londres Boris Johnson sobre a União Europeia. Enquanto o premiê defendeu que a UE permitiu um período de paz. Johnson afirmou que o bloco europeu tem uma política externa confusa.

Ambos deram a entender que temos uma Pax Britannia onde a participação do Reino Unido na União Europeia foi importante para isso. Mas se lembrarmos que a União Europeia tem com motor a relação entre França e Alemanha e foi complicado para convencer tais nações sobre os benefícios da entrada da nação britânica no bloco europeu em 1973.

A Pax Britannia começou como uma jornada obstinada de Edward Heath tanto como negociador-chefe no governo do conservador Harold Macmillian quanto o próprio Heath se tornou primeiro-ministro em 1970 onde teve uma intensa negociação com o presidente francês Georges Pompidou que permitiu o destrave das negociações em Bruxelas naquele período.

A garantia de acesso ao mercado comum que permitia uma intensa relação comercial entre os países-membros junto com a livre-circulação de pessoas e de bens e serviços. Mas os britânicos ficaram assustados com um cenário de integração política que era defendida pelo então presidente da comissão europeia, o francês Jacques Dellors nos anos 1980.

Agora, tanto Cameron quanto Johnson estão defendendo a Pax Britannia sob diferentes perspectivas. O primeiro-ministro defende a conquista de status especial dentro do bloco enquanto ex-prefeito de Londres quer que o Reino Unido tem uma liberdade fora da UE. Assim, a pax britannia está sob discussão por longas 6 semanas na nação britânica.

A renúncia de Werner Faymann

Hoje, a Áustria acordou surpresa com a decisão do chanceler social-democrata Werner Faymann de renunciar ao cargo diante do cenário eleitoral onde a extrema-direita ganhou campo nas eleições presidenciais do mês passado com a ascensão Nobert Hoffer. O vice-chanceler conservador Reinhold Mitterlehner assume o comando do país europeu até a escolha de um novo líder.

A renúncia de Faymann é uma surpresa para muitos austríacos. Mas fica claro que ele não tinha forças para lidar com a ascensão de Hoffer tão logo ele vença o segundo turno presidencial marcado para este mês. Tanto conservadores quanto sociais-democratas foram derrotados ao não conseguirem que seus candidatos continuassem na disputa.

Os austríacos estão preocupados com a imigração e a crise humanitária pelo fato de seu território ser usado como um caminho para os imigrantes possam chegar a Alemanha. Tanto que o país iniciou as negociações de um acordo com os países da região da Península dos Balcãs como forma de conter tal onda migratória e proteger suas fronteiras.

A população sentia uma liderança hesitante de Faymann diante da ascensão da extrema-direita como aconteceu nos anos 2000 com Jorg Haider. Mas tão logo que ele morreu em 2008. O eleitorado de Haider descobriu que ele era gay tanto que teve que esconder isso por toda vida para ser aceito como um líder político perante o ceticismo de seus apoiadores.

Em Viena, os sociais-democratas já afirmam que não vão convocar eleições antecipadas diante do cenário de derrota para a extrema-direita. O prefeito de Viena, o social-democrata Michael Haeupl assumirá interinamente o comando do partido até a escolha de um novo líder que será feita em um encontro do comitê executivo em 22 de maio. Assim, a Áustria se despede de Werner Faymann.

Sadiq Khan

Há uma hora atrás. Londres conheceu seu novo prefeito. O trabalhista Sadiq Khan foi eleito com uma vantagem de 300 mil votos para o conservador Zac Goldsmith. Os conservadores perdem sua joia da coroa para o primeiro muçulmano a ser eleito prefeito em uma cidade conhecida por seu multiculturalismo e que foi o coração do império britânico.

Nunca os britânicos imaginavam em que um filho de um motorista de ônibus pasquitanês pudesse chegar ao cargo de prefeito de uma cidade de 8 milhões de habitantes. Como disse um amigo meu: é como se fosse um colonizado ter conquistado a metrópole. Mas isso traz um panorama político para o Reino Unido prestes a realizar um referendo sobre o Brexit em 23 de junho.

Os trabalhistas perderam o terreno na Escócia para os nacionalistas escoceses e os conservadores. Mas o líder trabalhista Jeremy Corbyn celebrou o fato de ter poucas perdas nos conselhos locais da Inglaterra e ter mantido o controle da assembleia do País de Gales. Mas a conquista de Londres é mais uma vitória de Khan, que se distanciou da liderança do Labour durante a campanha.

Os conservadores sentem o peso da derrota em Londres ao adotar o estilo agressivo de campanhas negativas feitas pelo marqueteiro australiano Lyington Crosby. Isso pode refletir na campanha do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia se os europeístas adotarem um tom positivo do que usar a tática do medo do futuro incerto.

Com o anúncio do resultado das eleições locais na Irlanda do Norte será conhecido amanhã. Fica claro que teremos um longo trabalho para Cameron e europeístas em conquistar o eleitorado. O papel de Khan será fundamental para que os eleitores possam ouvir o filho do motorista explicar que tanto Londres quanto a Europa sempre terão espaço para um muçulmano progredir dentro de uma sociedade multicultural.

A disputa britânica

Amanhã, os britânicos vão as urnas para votar no conselhos locais ingleses, parlamento escocês e as assembleias tanto galesa quanto norte-irlandesa. Tanto que a mídia britânica reconheceu que se tratava de uma super thursday junto com as eleições para as prefeituras de Londres e Liverpool. A questão é como se reflete no cenário político.

Em Londres, o candidato trabalhista Sadiq Khan se afastou do novo status quo do partido representada na ascensão do líder Jeremy Corbyn. Para afastar os boatos de não ter convidado Corbyn, mas ele afirmou que o apoia. Já o conservador Zac Goldsmith tem apoio do prefeito londrino Boris Johnson e do primeiro-ministro David Cameron mesmo tendo feitos ataques pesados a Khan na questão de sua relação com líderes radicais islâmicos.

Na Escócia, o SNP pode conseguir mais um mandato caso mantenha a maioria absoluta em Holyrood como um voto de confiança para que a devolução de poderes entre Edimburgo e Londres seja efetiva. No País de Gales, os trabalhistas tentam se manter no poder com quase 17 anos no comando de cardiff mesmo com a ameaça dos conservadores e dos nacionalistas do Plaid Cymru.

Na Irlanda do Norte, os unionistas tentam manter a maioria na formação de uma coalizão com os separatistas do partido Sinn Féin, que é o braço político do IRA. Esse vai ser um duro teste para o unionismo desde da renúncia do first-minister norte-irlandês Peter Robinson no ano passado. O resultado da eleição pode definir a composição do executivo local.

Na Inglaterra, os trabalhistas lutam para manter o controle de conselhos locais que conquistou em 2012, mas que não foi o suficiente para uma vitória do partido na eleição geral de 2015. Esse vai ser um duro teste para Jeremy Corbyn e evitar que seja desafiado em um leadership ballot caso o Labour perca de 100 a 300 conselheiros no pleito da amanhã.

Assim é uma disputa britânica.