Entre os detritos do Skylab e os pagamentos da BBC

Eu escrevo sobre política britânica e australiana rotineiramente desde do ano passado. As minhas fontes de informação são as newsletters do jornal britânico The Guardian e do diário americano New York Times. Além do serviço do Daily Telegraph junto com algumas visitas esporádicas no The Australian e acompanhar o twitter.

Percebo que certos fatos passam despercebidos por nossa imprensa tupiniquim. Um exemplo é a queda de detritos da estação espacial americano SkyLab em 1979 que assustou os moradores do sul da Austrália. Na época, o então premiê australiano Malcolm Frasier disse que estava impressionado com a avançada tecnologia yankee tinha caido em sua nação. Tanto que o presidente americano Jimmy Carter pediu desculpas.

Outro fato dessa dicotomia é não termos alguém em Londres para cobrir a mídia britânica. Amanhã, a BBC irá divulgar a lista de empregados que ganham mais de 100 mil pounds por ano como uma contrapartida que o governo exigiu para renovar a Royal Charter que criou a emissora pública de rádio e TV. Isso cria controvérsias em Londres.

Mas nossa imprensa pede que os nossos correspondentes em Londres foquem apenas em cobrir a última exposição do National Gallery invés de se credenciar para acompanhar os eventos no Nº10 da Downing Street e no parlamento britânico em Westminster. Pior ainda a negligência da mídia em mandar um correspondente para a Austrália em um momento de expansão dos serviços do Guardian e do NYT.

Fico me perguntando porque os nossos jornalistas e editores ainda pensam que Londres é uma cidade onde os britânicos tem o sotaque como estivessem falando com batata na boca e que a Austrália é um território de bichos exóticos como o Canguru, Coala e o Ornitorrinco. Afinal, ainda somos um país fechado para a cultura anglo-australiana. É uma pena para nós que gostamos de falar inglês e ver Doctor Who.

 

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Turnbull e os aborígines

Quando vemos um chefe de governo soltar lágrimas. Nos perguntamos sobre tal assunto é um valor caro para si mesmo. Isso se vale para o primeiro-ministro australiano Malcolm Turnbull que chorou ao falar da situação dos povos indígenas no país. Tal choro é um estopim de uma discussão na mídia local quando o editor de assuntos indígenas do serviço australiano do jornal britânico The Guardian, Stan Grantz, fez críticas ao Australian Day porque o povo se esquecia do sofrimento dos aborígines.

Isso cala fundo a alma e a história dos australianos. Durante a entrevista, Turnbull defendeu a realização do referendo que discute a mudança do status dos povos indígenas australianos de povo tribal para uma nação fundadora das Austrália moderna. A votação será realizada em 2017 caso a coalizão entre nacionalistas e liberais consiga a vitória nas eleições federais no segundo semestre deste ano.

A oposição trabalhista tem um grande legado em relação aos povos indígenas como as leis anti-discriminação criadas pelo premiê Gough Whitlam junto com a atuação pró-aborígines de primeiro-ministros como o discurso de Paul Keating em 1992 e o pedido de desculpas feito por Kevin Rudd tão logo assumiu o governo em 2007. Atualmente o ex-premiê Bob Hawke tem dado apoio ao referendo.

Mas é a primeira vez em que a coalizão liberal-nacionalista adota uma posição pró-aborígine desde do primeiro-ministro Malcolm Frasier (1975-1983), que tinha uma atenção especial em questões de direitos humanos. O ex-premiê Tony Abbott estava ausente nessa questão que só fazia apenas entregas de certificados de posse de terras pertencentes ao estado australiano para os povos indígenas.

Turnbull propõem o referendo de 2017 para confirmar tais mudanças. Mas ele se sente pressionado para realizar uma consulta popular sobre a união civil entre homossexuais seja feita em 2017. Caso aceite a proposta de ambos as votações sejam feitas no ano que vem pode mudar a sua imagem de um homem focado na administração. O seu choro durante a entrevista de Stan Grantz é um sinal disso.

 

Asha

Como um bebê de um ano de idade pode criar uma crise política na Austrália? A resposta para isso se chama Asha. Ela é tem uma história que comoveu os australianos pelo simples fato do governo desejar deportar a garotinha para um centro de imigrantes ilegais na ilha de Nauru. Com o medo que a menina de origem nepalesa seja deportada. Os médicos do hospital Lady Cilento, da cidade Brisbane protelam a entrega da tutela do nascituro.

Isso criou um amplo debate sobre a política de imigração no país. Canberra recusou a oferta da Nova Zelândia de dar asilo para Asha e sua família. Mas o que complica a questão é a resistência do ministro da imigração Peter Dutton em aceitar o pedido de ativistas de direitos humanos para que Asha possa morar no país juntos com os seus pais nepaleses na Austrália

Os efeitos políticos de tal resistência estão sendo sentidos nas pesquisas eleitorais onde o primeiro-ministro liberal Malcolm Turnbull está em desvantagem com um empate técnico com o líder da oposição trabalhista Bill Shorten em que indica uma rejeição a política de imigração da coalizão do partidos liberal e nacional. Isso acabou com a lua de mel que Turnbull teve após derrotar Tony Abbott no caucus no ano passado.

Dutton quer assegurar que os pais de Asha serão bem tratados em um centro de detenção de imigrantes ilegais em Brisbane. Mas os ativistas estão revoltados com as condições oferecidas pelos centros offshore em países como Papua Nova Guiné e Nauru. Os australianos estão fazendo campanhas nas redes sociais como Twittet e Facebook com a hashtag #LetThemStay.

O histórico da política de imigração australiana sempre foi para favorecer os imigrantes de origem europeia e profundo desrespeito as pessoas de nacionalidade asiática. Os centros de detenção em Papua Nova Guiné e Nauru fazem parte do projeto Pacific Solution, do ex-primeiro-ministro liberal John Howard e foram reativadas pela premiê trabalhista Julia Gillard em 2012. Agora, tanto Turnbull quanto Shorten terão que dar explicações sobre o futuro de Asha.

Big Blue Sky

Quando um vocalista de uma banda de rock se transforma em ministro do meio ambiente. Nós nos perguntamos sobre como uma pessoa que representou tão bem seus ideais nas músicas que cantou ao longo de sua carreira. Mas na função de um cargo político, tem uma série de problemas cuja a solução não é a melhor para tal situação que se encara de frente. Essa é a autobiografia de Peter Garrett, vocalista do Midnight Oil e ex-ministro do meio ambiente no governo trabalhista de Kevin Rudd.

Garrett era a personificação do vocalista engajado em um momento onde o mundo em que vivia a Guerra Fria e a Austrália ainda discutia questões como a relação com o povo aborígine em músicas como Blue Sky Mine, King of Mountain, Beds are Burning e Forgotten Years. Desde dos anos 1980, Garrett tentou uma vaga no parlamento australiano pelo partido do desarmamento nuclear por defender um mundo sem armas atômicas.

Mas quando os trabalhistas obtiveram a maioria no parlamento sobre a liderança de Rudd. Garrett foi destaque por ser um rockeiro que se tornou ministro de uma pasta tão importante como o meio-ambiente. Mas sua política de combate ao aquecimento global se provou um fracasso além da morte de quatro pessoas na instalação de isolantes que permitiam o controle de emissão de gases em casas de australianos.

Na autobiografia, Garrett critica a condução do governo feito por Kevin Rudd. Ele acusa o premiê trabalhista de megalomaníaco e vaidoso. Isso corrobora com as críticas feitas contra Rudd em recente biografia feita pela ex-primeira ministra Julia Gillard. Rudd é tido como um primeiro-ministro popular, mas não conseguiu fazer que o Labor Party conquistasse a maioria do assentos na câmara baixa e no senado australiano.

Mas Garrett como político é um excelente cantor. Gostaria de ver ele como aquela vocalista alto e de um jeito desajeitado de dançar de voltas aos palcos para cantar músicas como Read About It ou Put Down That Weapon ou fazer protestos contra o tratamento do governo com os aborígines como fez na festa de encerramento das olimpíadas de Sydney em 2000 deixando o primeiro-ministro conservador John Howard com vergonha e assim a Austrália agradece.

A ascensão de Turnbull

Hoje, a Austrália tem o seu quarto primeiro-ministro desde 2013. Após falhas e uma alta taxa de rejeição, o conservador Tony Abbott foi derrotado pelo seu ministro das comunicações Malcolm Turnbull em um caucus (um desafio de liderança feito por um parlamentar ou ministro contra o primeiro-ministro). Turnbull já era cotado como primeiro-ministro meses atrás em uma moção de desconfiança (ou motion spill) apresentada por um parlamentar liberal.

A grande questão de Turnbull é se ele vai mudar a posição do governo sobre as políticas de mudanças climáticas e o casamento gay. O líder da oposição trabalhista Bill Shorten já afirmou no twitter que a Austrália não precisa de outro primeiro-ministro arrogante, mas sim uma mudança no governo. As pesquisas de opinião dão uma clara vantagem para os trabalhistas que estão unidos desde do duelo fratricida entre Julie Gillard e Kevin Rudd entre 2012 a 2013.

Turnbull precisa recuperar uma economia dependente da exportação de matéria-primas como minério de ferro e fortalecer a industria local com a abertura da economia para acordos comerciais com Japão, China e Coreia do Sul. Abbott era criticado por ter pouco tato em questões sociais como o casamento gay e o referendo sobre o status da população aborígine. Isso fez que Turnbull se tornasse um político muito popular entre a população australiana.

O novo primeiro-ministro teve uma carreira bem sucedida como banqueiro no banco de investimentos Goldman Sachs antes de entrar na vida pública. Ele foi líder do partido Liberal entre 2008 a 2009, quando foi derrubado por Tony Abbott.  Sempre foi cotado para ser premiê por ter uma boa avaliação junto ao eleitorado. Tanto que foi um dos poucos ministros a defender a votação do casamento gay mesmo com a censura de Abbott.

Não se sabe com Turnbull como primeiro-ministro pode mudar o cenário eleitoral em 2017 como as pesquisas dando vantagem aos trabalhistas. Mas a mudança no cargo de premiê pode ajudar na eleição do distrito de Canning no estado de West Australia. O temor de perder um assento federal para os trabalhistas pode ditar o futuro do governo Turnbull. Mas ainda sim, os australianos terão longos dois anos de um governo estável de Malcolm Turnbull.

A indecisão de Abbott

O casamento gay está sendo discutido em muitos países. Mas na Austrália, isso pode provocar uma crise política. O representante liberal Warren Entsch apresentou o seu projeto de lei que muda a lei de casamentos no país para que possa permitir o reconhecimento da união homoafetiva. Mas o primeiro-ministro Tony Abbott rejeita qualquer alteração na constituição com parte de acordo entre os partidos liberal e o nacionalista que formam a coalizão que governa o país desde de 2013.

As grandes decisões sociais tomadas pelo parlamento australiano sempre teve apoio de primeiro-ministros vanguardistas como o liberal Malcolm Frasier e o trabalhista Gough Whitlam. Mas Abbott está sendo varrido pelos os ventos da mudança diante do fato de 7 de cada 10 australianos são favoráveis ao casamento gay. Isso criou uma divisão dentro do gabinete com o ministro das comunicações Malcolm Turnbull apoiando a mudança na lei de casamentos e o seu colega de questões sociais Scott Morrison rejeitando isso.

Os trabalhistas apoiam a mudança tendo em vista as eleições gerais de 2016. O líder da oposição trabalhista Bill Shorten liberou que os parlamentares do partido votem com consciência. Abbott rejeitou a medida que libera o voto dos representantes da coalizão. O efeito colateral dessa medida pode ser a perda de 36 assentos caso as eleições fossem convocadas hoje. Cogita-se que Tunrbull possa substituir Tony em caso de uma moção de desconfiança for aceita pela maioria liberal.

Para conter isso, Abbott propõem que um plebiscito ou referendo seja feito em 2017. Mas em 2017, a coalizão liberal-nacionalista prometeu uma consulta popular sobre a mudança de status do povo aborígine na constituição. Os aborígines exigem que sejam reconhecidos com parte da nação que fundou a Austrália moderna. Os trabalhistas podem ganhar as eleições em 2016 escorados na promessa de defender as mudanças pedidas tanto na questão indígena quanto na lei de casamentos.

O tsunami que está sendo feito pelos parlamentares dissidentes liberais como Warren Entsch junto com o apoio entre os trabalhistas, verdes e independentes podem trazer uma dor de cabeça para Abbott. Países da comunidade britânica como Reino Unido e Nova Zelândia aprovaram o casamento gay mesmo tendo parlamentos de maioria conservadora. Tony teme perder votos entre o eleitorado conservador. Mas o premiê não tem que fechar os olhos diante de um pedido da sociedade tão bem representado por Warren Entsch.

Como o vegemite explica a Austrália?

vegemite é uma pasta de amendoim usada no café da amanhã dos australianos. Em 2011, o então ministro de relações exteriores Kevin Rudd foi parado por um funcionário da imigração de um aeroporto dos Estados Unidos por ter um pote de tal geleia em sua bagagem. A questão Vegetime é discutida na Austrália do primeiro-ministro conservador Tony Abbott, que sobreviveu a uma crise política com a renúncia da speaker da câmara baixa do parlamento, Bronwyn Bishop e a eleição de Tony Smith para substitui-la.

O que traz mais dor de cabeça para Abbott é tanto a proibição da venda do vegemite para comunidades indigenas remotas. A pasta é matéria-prima para bebida alcoólica quanto a pressão da sociedade australiana para que se aprove o casamento gay no país. O primeiro-ministro afirmou que a questão homossexual será decidida no parlamento e não em um referendo como pede os ativistas. Pesquisas de opinião afirmam 50% dos australianos são favoráveis a união homoafetiva, que espanta a ofensiva de Abbott.

Os políticos australianos estão sofrendo críticas sobre seus gastos. Os MPs terão que cortar na própria carne com suas viagens custeadas pela população. Isso pode abalar a popularidade de Abbott. Ele é um conservador que defende sua visão realista. Ao mesmo tempo que rejeita a idéia de um referendo sobre o casamento gay; ele defende um plebiscito sobre a mudança de status do povo aborígine como nação fundadora da Austrália. É como se Abbott fosse um equilibrista em cima de uma fina corda.

Mas a situação não lhe favorece. O fim da indústria automobilística local que pretende demitir funcionários e transferir suas linhas de produção para a China e Japão. Por mais que Abbott aposta no acordo de comercial entre os Estados Unidos e os países da região da Ásia-Pacífico onde inclui a Austrália possa recuperar a economia interna e tentar estancar o déficit fiscal que o país vive. Em 2016, os australianos irão as urnas para escolher um novo parlamento e as projeções indicam uma vitória do líder da oposição, o trabalhista Bill Shorten.

O vegemite é uma simples analogia sobre o momento político e econômico que vive a Austrália. Isso reforça a convicção de que o conservadorismo de Abbott não consegue dialogar com uma sociedade que está descrente com a classe política. A renúncia de Bronwyn Bishop é um sinal que uma população que está atenta ao uso do dinheiro público feito por senadores e parlamentares. Mas Abbott insiste em negar a proibição de um simples pote de tal pasta que ameaça a pax australiana.