O humor em tempos de militância

Ontem, estava no twitter quando li a coluna de Lucia Guimarães no Estadão em que questionava a questão do humor americano nos tempos de pós-verdade. Os humoristas yankees se esqueceram de rir de si próprios. Tanto que investem suas piadas em críticas contundentes ao presidente Donald Trump e seus fatos alternativos.

Isso me soa chato demais. O escritor português Gil Vincente dizia que rindo corrigia-se a sociedade. Mas os nossos colegas americanos estão em uma cruzada contra a população redneck que voltou em Trump. Parece que os presidentes republicanos são mais engraçados do que os comandantes em chefe democratas na história dos Estados Unidos.

Na história recente americana, o único presidente democrata que era alvo frequente de píadas foi Bill Clinton por suas escapadas com as estagiárias. Após George W. Bush, os humoristas se engajaram em desmascarar o crápula-mor da Casa Branca entre 2001 a 2009 diante de um controverso processo eleitoral e as mentiras da Guerra ao Terror.

O humor americano viveu um período de freio-mão puxado durante a Era Obama. As únicas piadas sobre Barack foram feitas por ele mesmo nos jantares dos correspondentes da Casa Branca. Isso criou uma sensação de uma lua de mel prolongada entre os humoristas e o presidente democrata por um medo da volta de um republicano.

Agora, vemos um momento em que os humoristas fazem piadas sobre o topete de Trump como se fossem guerreiros da liberdade de imprensa. Eu desejo que tenha boas tiradas contra Trump, mas peço que nossos colegas americanos menos politicagem e mais sarcasmo anárquico para encararmos os tempos de pós-verdade e de fatos alternativos.

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Os dias de guerra de trincheira

Na história humana, as guerras sempre se modificavam com o tempo. As batalhas de espadas e cavalos davam lugar a farta munição feita base de polvóra e armas de fogo. Os campos de batalhas se transformaram em trincheiras onde os soldados ficavam protegidos e os comandantes militares pensavam em estratégias contra o avanço do inimigo.

Se na primeira guerra mundial, tínhamos a figura das trincheiras. Tal alegoria volta com a batalha entre grande mídia contra os populistas e extremistas que exigem que suas versões dos fatos sejam levados a sério. Prova disso é o anúncio do estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon, que disse que está em guerra contra a imprensa americana tendo como alvos os jornais The New York Times e Washington Post.

Nos tempos de fatos alternativos e sites que não apuram suas informações. Poderá nascer a erva-daninha da desconfiança do público em relação ao governo e a imprensa. A população não é apenas uma criança de cinco anos de idade. Eles querem saber sobre os fatos do mundo e de sua nação sem ter que ver os canais de notícias com suas manchetes de tom sensacionalista.

Se a internet é acusada de produzir o fake news. Nós temos que servir como um apoio para a imprensa e para a população ao destrincharmos as notícias e oferecer a todos uma visão crítica sobre a cobertura de um veículo mídiatico ou de um ato de um presidente que soa controverso e impopular. Isso é importante para uma democracia e para a liberdade de expressão.

Nas trincheiras da primeira guerra mundial. Os nossos antepassados perderam suas vidas em batalhas sangrentas de rifles e baionetas. No século 21, os rifles são os computadores e as baionetas são as palavras. Em tempos de pós-verdades e conflitos de histórias. A melhor arma para dissipar as dúvidas é o esclarecimento com respeito a verdade e a realidade do mundo em que vivemos.

O velho plágio

Em um mundo como uma nítida falta de criatividade original. Todo mundo percebe isso como aconteceu no discurso de Melania Trump, a esposa do candidato republicano Donald Trump onde usou trechos da oratória de Michele Obama quando ela apresentou seu marido e futuro presidente dos Estados Unidos na convenção do partido democrata em 2008.

Mas o tal plágio é evidente. Os estrategistas republicanos não tem bons redatores de discurso como era comum entre os democratas nos tempos de Obama. O atual presidente americano sabe usar as palavras de forma inteligente e simples mesmo que nós discordamos de suas ideias tão utópicas e que não tem um senso realista que o mundo tanto necessita.

Isso me lembra os textos acadêmicos que exigem que tal pessoa cite sua fonte de citação para que seja melhor compreendida. Foram várias vezes que tive que ler tais notas de rodapé para entender um simples texto de antropologia. Tal esforço é menosprezado na academia porque não tem uma linguagem rebuscada e de difícil compreensão.

O discurso de Melania teve plágios evidentes. Mas isso é a ponta do iceberg do amadorismo do staff trumpista já que o partido republicano está aceitando a indicação de Trump a contragosto por causa de seu populismo exagerado e nenhuma proposta sensata em áreas como bem-estar social, imigração e economia para fazer o tão desejado renascimento americano.

Temos que elogiar o fato de Melania tem um inglês fluente de bom nível (ela é uma cidadã eslovena). Mas o bendito plágio mostra a precariedade do staff trumpista que deseja derrotar Hillary Clinton de qualquer maneira mesmo que custe um longo desgaste para os Republicanos que só será recuperado em 2020 com ou sem plagiariamismos.

A ascensão de Trump

Há pouco minutos, o senador texano Ted Cruz anunciou que irá suspender a sua campanha presidencial após a vitória do bilionário Donald Trump nas primárias do partido republicano no estado de Indiana. Isso deixa claro que Trump pode conquistar a indicação dos republicanos na convenção em Julho na cidade de Cleveland, Ohio. Mas como será este Trump?

Trump sempre foi visto como um candidato falastrão e de opiniões controversas. Isso criou uma persona que é bem vista entre a classe média que perdeu os empregos durante a crise financeira de 2008 e vê o presidente Barack Obama como um ser intervencionista em questões domésticas como o porte de armas e hesitante em assuntos geopolíticos como a crise no Oriente Médio.

Enquanto candidatos como Carly Fiorina, Ben Carson, Marco Rubio, Chris Christie, John Kasich e Jeb Bush tinham uma retórica em que hesitava sobre a questão do conservadorismo enquanto Trump afirmava medidas controversas como a proibição da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos junto com a construção de um muro entre México e EUA.

Trump conquistou o eleitorado conservador ao defender os veteranos de guerra e criticar os acordos comerciais com México e China. Ele não falou de temas caros ao conservadorismo yankee como a legalização do aborto, casamento gay a crítica ao presidente Obama em nomear um juiz para a Suprema Corte no lugar do falecida Antonin Scalia.

A grande questão para Trump será unificar o partido em torno de si além de moderar seu discurso para conquistar o voto dos independentes e centristas. Os republicanos temem uma derrota como foi 1964 com o candidato Barry Goldwater e sua visão extremista nos tempos das reformas dos direitos civis. Isso poderá ser o começo da ascensão de Trump?

Trump paz e amor

A corrida eleitoral americana está produzindo um fato novo. A ascensão de Donald Trump no partido republicano mostra uma nova face: Trump paz e amor. Isso é um trabalho de sua equipe de marketing que viu uma forma do magnata ganhar apoio tanto entre o status quo republicano quanto com os eleitores centristas e independentes.

Trump visa moderar suas palavras como uma forma de ser aceito pelos republicanos e tentar unificar o seu partido. Ao vencer as 5 primárias e caucus desta terça-feira. Donald pode conquistar um eleitorado indeciso e que tinha uma grande rejeição ao seu nome pode defender propostas controversas como deportar imigrantes ou proibir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos.

Sai de cena o boquirroto para entrar um ser moderado. Mas tal metamorfose pode trair eleitores que votaram em Trump durante as primárias. O eleitorado de Trump é um americano branco e que vive desconfiado de uma atitude multicultural como bem representada pelo presidente Barack Obama em que tem a pecha de ser um europeu do que um estadunidense.

Trump representa um conservadorismo esquecido que pode ser visto como uma solução para uma desigualdade que só cresce entre pobres e ricos que só pode ser resolvida com atitudes protecionistas como a revisão dos acordos de livre-comércio com países como China e México como uma forma de trazer os empregos de volta para América.

Temos um novo Trump que mostra que uma simples mudança de retórica é essencial para vencer a nomeação do partido republicano junto com uma equipe de assessores que foi montada durante as primárias e mostra-se mais afinada com a cúpula republicana e quiçá conquistar os votos dos eleitores indecisos na eleição presidencial de novembro de 2016. Agora são os tempos de Trump paz e amor.

A voz dura do Brooklyn

Ontem, a CNN realizou o debate entre os candidatos democratas a presdência. Bernie Sanders e Hillary Clinton protagonizaram um confronto tenso. Bem diferente das gentilezas que eram vistas nos encontros do ano passado até o começo das primárias em fevereiro deste ano. Ambos apontavam os dedos para controvérsias que ocorreram em suas carreiras políticas.

Sanders foi acusado por Hillary na questão do porte de armas. A ex-secretária de estado afirmava que Bernie foi apoiado pelo lobby do NRA (poderoso grupo que defende a manutenção de posse de rifles e afins) logo que foi eleito para o senado pelo estado de Vermont em 1988. O senador afirmou que votou contra os interesses do NRA desde de então.

Hillary sofreu uma artilharia pesada por Sanders quando ele perguntou sobre o teor de uma palestra feita para o banco de investimentos Goldman Sachs. Bernie utiliza a tática de contestar o discurso de Clinton de que fará reformas no sistema de bem-estar social junto com o fato de ela representar os interesses de Wall Street como afirma o senador democrata.

Porém, houve consensos como a discussão sobre as mudanças climáticas junto com a revisão de leis sobre o sistema penal diante de uma clara discriminação entre negros e brancos diante dos recentes casos de violência policial junto com a ascensão do movimento Black Lives Matters. Tanto Sanders quanto Clinton fizeram um mea culpa nessa questão.

O que fica claro que os democratas estão unidos. A plateia do debate sempre vibrou quando Sanders ou Hillary respondiam as perguntas ou faziam declarações contundentes. Ambos adotavam um tom conciliador caso exageravam nas críticas que faziam durante o confronto. Mas diante da confusão entre os republicanos. Não ficarei surpreso com uma vitória democrata em novembro.

Uma dor de cabeça chamada Wisconsin

Ontem, o estado americano de Wisconsin realizou as primárias tanto de republicanos quanto de democratas. As vitórias do republicano Ted Cruz e do democrata Bernie Sanders mostram o vigor da disputa presidencial americana e reforça que teremos uma disputa pela indicação de ambos os partidos de maneira acirrada como há muito tempo não se via.

No lado republicano, o favorito Donald Trump pode não conseguir a indicação mesmo liderando a disputa nas primárias do partido. Caso nenhum candidato atinga o número mágico de 1.237 delegados e super-delegados. Quem vai indicar o postulante será um colegiado de líderes do partido como representantes, senadores, governadores e afins na convenção marcada para julho.

No lado democrata, nota-se uma união caso Sanders ou Hillary Clinton vence as primárias do partido. Mas as recentes vitórias de Bernie diminuíram a vantagem que Hillary tinha desde do começo das primárias. Isso pode ser interessante porque os democratas não estão em uma guerra aberta e podem fazer seu candidato conquistar o eleitorado.

As disputas de ambos os lados são interessantes. Após uma pausa na maratona de debates que se reinicia amanhã com o encontro organizado pela CNN no lado republicano. Enquanto Bernie e Hillary fazem um duelo por ideias. Os republicanos se digladiam entre Ted Cruz, Donald Trump e John Kasich para ver quem conquiste o eleitorado que mantém uma distância prudente da política.

O cenário parece indefinido para ambos os lados. Existe uma certa aura de esperança em que Sanders, Clinton, Trump, Cruz e Kasich tentam se apresentar. Mas vemos mais troca de insultos no campo republicano e uma hesitação no lado democrata que parece afastar o eleitor de centro e independente. Mas a dor de cabeça de Wisconsin pode solucionar isso.