O drama espanhol

A Espanha vive mais uma novela política. O primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy renunciou ao cargo para formar um governo de coalizão com a mediação do Rei Filipe VI. Mas os boatos que um novo conselho de ministros poderá ser formado pelos partidos de esquerda como PSOE e Podemos é questão de horas mesmo com a divergência sobre a independência da Catalunha.

Estamos diante de uma indecisão onde os partidos como o conservador PP e o socialista PSOE querem evitar uma nova eleição para terem uma posição de liderança para formar um novo governo em um parlamento fragmentado que teria de ser aprovado por um moção de confiança na Câmara das Cortes assim que for anunciado pelo Rei Filipe VI após as negociações serem encerradas em Madri.

O papel de negociador de um monarca espanhol é uma novidade diante de um parlamento onde nenhum partido tem a maioria absoluta para governar sozinho. Filipe VI terá uma árdua tarefa de convencer os líderes partidários como Rajoy, o socialista Pedro Sanchez e o esquerdista Pablo Iglesias a negociarem a formação de um governo que possa sobreviver a moção de confiança para evitar a convocação de novas eleições.

Não se sabe a posição do centrismo representado pelo Ciudadanos. O partido tem 40 assentos na Câmara das Cortes e defendia a formação de uma grande coalizão entre conservadores e socialistas para isolar as posições radicais de Pablo Iglesias e o Podemos como a realização de um referendo sobre a independência da Catalunha tão rejeitada por PP e PSOE.

O trabalho de Filipe VI será longo para o jovem monarca. Seu pai, o rei Juan Carlos teve uma sensata habilidade política para levar a Espanha para a democracia lidando com conservadores e socialistas durante quase 40 anos. Filipe VI terá que criar uma relação cordial com os líderes partidários para ter a missão de criar um senso de estabilidade neste drama espanhol.

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O recado da Catalunha

Ontem, a Catalunha foi as urnas para escolher se continuaria sob o domínio espanhol ou pediriam a independência de Madrid. Com mais de 2 milhões de eleitores indo aos centros de votação dos 5 milhões aptos a votar. O resultado foi que 80% da população queria a independência da região autônoma espanhola. O referendo considerado ilegal pelo governo central, mas a vitória dos nacionalistas catalães não pode ser ignorada pelo primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy.

A votação foi de grande importância que até o técnico do clube alemão Bayern de Munique, Pep Guardiola foi votar em Barcelona. O presidente da Catalunha, o nacionalista Artur Mas considerou o resultado importante para um eventual referendo de comum acordo com Madrid. Enquanto os conservadores criticaram a votação. O novo líder da oposição, o socialista Pedro Sanchez, adotou um tom moderado ao afirmar que o dia 10 de novembro é um novo marco na história espanhola por redefinir os termos do federalismo.

Um resultado de mais de 80% dos votos não pode ser ignorado. Os catalães querem o mínimo de intervenção do governo central em suas vidas. A população local teve sua língua censurada pela ditadura do general Francisco Franco por 39 anos. Com a redemocratização do país em 1977 sob o comando do rei Juan Carlos. A região começou sentir os ventos da liberdade e conquistar a autonomia no referendo de 2006 durante o mandato do premiê socialista José Luiz Rodrigues Zapatero.

A Catalunha quer a independência porque sempre foi contra a política de austeridade implantada por Rajoy. A região é rica e a mais industrializada da Espanha. Os catalães querem ter o direito de decidir o seu futuro econômico e não sustentar um país estagnado e decadente como o atual momento espanhol. Este sentimento de rejeição e ao mesmo tempo independência é claro nos discursos dos nacionalistas, que gozam uma grande popularidade no território.

Rajoy quer manter a Espanha unida por temer uma derrota nas eleições gerais de 2015. Pedro Sanchez é um líder jovem e pode capitalizar o sentimento de uma população que sente revoltada com as políticas econômicas de Madrid. O recado da Catalunha foi alto e claro. Isto não pode ser ignorado. A discussão sobre o federalismo espanhol foi aberta para que os partidos defenda uma Espanha forte. Mas não pode negar o anseio da emancipação catalã.