O desconhecido dentro de nós

Tenho um amigo transgressor chamado Ninguém. Eu o sempre via como um sujeito tresloucado que zoava meio mundo com fotos de velhinhos fazendo uma suruba postando isso no chats do whatsapp. Eu fui dar uma dura no garoto, mas logo percebi que precisava compreender-lo e foi o que fiz. O resultado foi surpreendente para a minha pessoa.

Ninguém é um excelente desenhista de mangás. Nós nos conhecemos em um grupo de discordianistas. O discordianismo prega uma vida de senso de humor do absurdo e sobre ser uma sátira ao pensamento ideológico dos anos 1960. Ele sempre queria zoar com meio mundo e tinha uma grande vontade de ser um transgressor diante da caretice humana.

O que me surpreendeu em ver o Ninguém com vontade de fazer mangás. Quando o conheci em janeiro. Ele contava suas aventuras sobre o mundo da transgressão. Mas vi um desconhecido mundo dos desenhos que ele me mostrou hoje. Ele é um excelente desenhista de quadrinhos japoneses e está participando de um concurso de uma revista com o foco em mangá.

Eu não o imaginava tão disciplinado em busca de fazer algo que lhe desse sentido a vida. É um escapismo do mundo do desconhecido em que nós nos perguntamos porque não fazemos algo interessante em nossas vidas modorrentes e reféns de uma rotina chata onde não podemos ser singulares porque seremos uma provável ameaça a temida coletividade.

O desconhecido dentro de mim pode se mostrar quando desenho as minhas charges em um caderno de papel e faço os rabiscos em um lapís preto. Não tenho a pretensão de ser alguém com notoriedade. Mas desejo me aprofundar em fazer tais desenhos como se fosse uma extensão das minhas atividades. Porém, não tem alguém que desenhe melhor que o Ninguém.

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As fases da vida

Há 10 anos atrás, era um sujeito obcecado pelo maio de 1968. Sempre pedia para professores e amigos que assinavam a Folha e o Estadão para guardar os especiais de tal data para ter nos meus arquivos pessoais. Ficava lendo as resenhas e entrevistas de Dany Le Rouge e estudando a história da quinta república francesa nos tempos do general Charles De Gaulle.

Em 2018, estou completando 30 anos de vida e me reencontrei com os estudos sobre o ano que não acabou. Ao mesmo tempo que vivo outra fase onde me preocupo com as questões individuais invés de fazer um proselitismo ideológico a favor do pensamento conservador diante de tantas rupturas para o nada que vivo ao conversar com os meus amigos.

Logo me deparo vendo uma edição do Taggeschau (o telejornal da rede de TV pública ARD) de 1989 sobre a queda do muro de Berlim onde os alemães foram as ruas para festejar o fim do muro da vergonha tendo como slogan a frase do ex-chanceler alemão Willi Brandt: “Este muro caiu” sendo aplaudido de forma alegre pelos alemães que desejavam a reunificação do país.

George Bernard Shaw dizia se não for comunista aos 20 anos, não tem coração; e se não for capitalista aos 30, não tem cérebro. Em um espaço de 10 anos. Saí do idealismo rumo a um pragmatismo. As paixões políticas e intelectuais deram lugar as preocupações do cotidiano onde lido com o horário de tomar os remédios para a esquizofrenia ou fazer o orçamento de gastos do mês.

Ao lembrarmos dos 50 anos do maio de 1968. Sempre temos que ter em mente que lemas como “É proibido proibir” e “A imaginação no poder” foram sufocadas pelo tempo diante de amplas mudanças no mundo onde os ideiais foram substítuidos pelas contas do fim do mês. Antes de culparmos o capitalismo ou o comunismo. Vamos lembrar que a vida é feita de fases que nunca se repitiram.

Produção própria

Eu escrevo em meus blogs desde de 2008. Mas nessa semana, confessei para amigos próximos que fazia tempo que não desenhava charges. Tanto que a minha mãe se empolgou ao falar para ir a uma papelaria para comprar um caderno de desenho para voltar ao hábito de tirar sarro do mundo e da humanidade por meio de um traço feito a lapís.

Hoje, me deparo com um blog que republicou um texto dando crédito. Mas percebo que falta um senso de noção de produção de conteúdo próprio. Isso é importante para termos certeza em produzir textos, fotos e charges sem ter o sentimento de plágio e preguiça que ronda a internet brasileira onde não temos uma cultura de fazer as coisas pelo esforço próprio.

Quem me alertou sobre isso é a minha mãe porque queria que fizesse uma assinatura nos desenhos que faço. Ela tem razão nisso. O conceito de direito autoral nasceu no teatro elisabetano na Inglaterra do século 16. Shakespeare queria viver de suas peças e cobrava ingressos baratos para o público para se manter profissionalmente falando com as adaptações.

Meu amigo Elton comentou comigo sobre as fanzines dos anos 1980 onde se fazia uma forma de contracultura em meio ao momento em que os hippies viraram yuppies pelo sociedade de consumo. Isso me lembra do meu instagram onde tiro fotos em preto e branco como uma forma de resistência a pandemia de comidas e marombados a rodo pelo mundo.

Estou voltando a fazer charges de forma tímida e no modo manual de lapís e papel. Sem contar que tenho que editar as fotos para o Fotos-Caricaturas com as legendas sacanas sobre a humanidade. Lembro de um conhecido que ficava enputecido porque tinha alguém usando as suas fotos sem o devido crédito. Enfim, vou ter que me precaver sobre isso.

Lidando com o instável

Ontem, um conhecido meu reclamou de uma garota que lhe denunciou para o pinterest por causa de uma cantada tola. Tanto que ele foi chamado de macho na forma pejorativa do termo. Eu falei que a garota deveria estar um mal dia e não teria paciência para conversar com ele. Isso me permite uma reflexão sobre as relações humanas e suas instabilidades.

Com a ascensão de movimentos feministas como Time’s Up e Me Too. As mulheres não querem conhecer um homem que faz uma cantada de um Pick Up Artist (treinador de cantadas). Principalmente em um momento onde o ato de importunar é encarado como um assédio sexual por conta de colocar a mulher em uma posição de vítima perante o patriarcado.

Já passei por isso quando tive que lidar com uma amiga que reclamou da falta de higiene dos homens. Sem contar que fui criticado por ser hétero. A generalização junto com a problematização faz criar uma sensação de estarmos em um terreno minado onde qualquer fala estranha seja justificada para declarar uma terceira guerra mundial em nossos pés.

No começo do ano, intelectuais e artistas francesas lançaram uma carta aberta contra o sentimento puritano das feministas americanas. Entre as signatárias, estava Catherine Deneuve e a escritora Catherine Millet. Isso gerou uma crise diplomática onde as mulheres anglo-saxãs reclamavam da patrulha vinda de Paris em sua liberdade em defender o direito dos homens em seduzir-las.

O grande problema de hoje é que não temos uma fronteira clara entre a sedução e o assédio. Velhos recursos como dizer não foram esquecidos por um bom tempo por causa do medo de mulheres serem impedidas de ter uma ascensão profissional sem submeter as chantagens de um chefe inescrupuloso. Isso me permite concluir que meu conhecido não soube lidar com o instável.

Esqueceram da cumplicidade

A geração contemporânea tem um medo de ficarem sozinhos por serem rejeitados por alguém. Eu lido com isso quando vejo conhecidos meus com problemas de relacionamento e sua concepção conservadora de família onde não desejam que o parceiro ou parceiro ganhe mais do que vossas senhorias por se sentirem envergonhados em si.

Mas eles se esqueceram da cumplicidade. O que adianta juntar as trouxas se você não tem nada em comum com um parceiro ou parceira para toda vida. O pensamento de organizar as contas de casa invés de curtir a vida foi posto de lado pela devoção de estarmos como verdadeiros seres automáticos e mecânicos sobre questões comportamentais.

Se lembrarmos da relação aberta entre os intelectuais franceses como Jean Paul Sartre e Simone du Beauvoir. Eles tinham uma paixão por aquilo que acredita mesmo sem fazer concessões em questões pessoais. Sem contar os velhos revolucionários do ano 1968 que desejavam um mundo do amor livre e sem as amarras de uma sociedade hierárquica sob suas mentes.

Mas o mundo ficou assustado com o amor livre e sem contar com a ressaca chamada Aids nos anos 1980. Então, voltamos ao cenário onde a família do comercial de manteiga se faz presente. Porém, a humanidade tomou consciência de adotar um pensamento conservador por temer um rejeição das pessoas por pensarem diferente do habitual atualmente.

Por isso que prefiro uma amizade do que um casamento. Meus contemporâneos de geração ainda desejam formar uma família de comercial de magarina. Mas me pergunto se eles estão preparados para isso? Eu vejo que não porque os velhos conceitos estão persistindo, mas o pessoal não reconhece isso porque tem medo de uma patrulha moral. Por isso que esquecemos a cumplicidade.

Don’t wanna be the one

Estava no twitter quando uma amiga pediu sugestões para músicas de formatura. Ela não queria ouvir “We are the Champions”, do Queen. Então, lembrei de uma música de tal banda de rock britânica chamada Rock it (Prime Jive), do álbum The Game, lançado em 1980. Bem, ela agradeceu pela indicação. Mas como nunca fiz uma faculdade, fiquei matutando sobre isso.

Muitos formandos ralam para estudar e são bancados pelos pais. Não se tem uma cultura de correr atrás dos sonhos como trabalhar nas férias em uma lanchonete como é comum nos Estados Unidos (isso me lembra nas várias oportunidades que trabalhei com o meu pai na oficina de motores elétricos para ganhar um pagamento para custear a compra de revistas e livros).

Eu lembro disso porque vejo vários colegas que estudam em faculdades e universidades para ter um diploma, mas não conseguem um emprego na área. Esse era um dos medos que tive até pouco tempo atrás onde o fracasso me perseguia porque nunca estudei em uma faculdade. Mas percebi que as coisas foram diferentes por que fiz um curso técnico de informática e conheci o John Major para me ensinar a ter um blog.

Temos um problema crônico no Brasil onde os estudantes se formam, mas não conseguem um emprego bom. Isso cria o sentimento de fazer um concurso público onde se criou uma indústria de concurseiros. Além de não estimular a livre iniciativa de começar uma empresa do zero praticamente por causa de uma enorme burocracia que temos.

Minha amiga ainda está procurando uma música para a sua festa de formatura. Ela pede para os amigos em comum como uma forma de ter um momento importante para a sua vida adulta. Tanto que já lhe mandei outra sugestão como Photograph, do Def Leppard. Mas se fosse um formando, eu pediria para tocar a música Don’t Wanna Be The One, do Midnight Oil.

Estes homens que não tem assunto para conversar com uma mulher

Em 1999, completava-se 30 anos que o homem foi a Lua. Naquele tempo onde se discutia a corrida espacial entre americanos e soviéticos nos anos 1960. Eu conversava com uma amiga e amor platônico sobre isso quando estávamos na van escolar. Hoje, ela é analista de sistemas enquanto este que vos posta está escrevendo neste humilde blog sobre o mundo e a humanidade.

Conto-lhes tal história porque vi dois conhecidos conversando sobre como conversar com uma garota. Parecia um papo de colegial onde os garotos tinham uma enorme insegurança ao lidar com suas reações e medos perante uma garota bonita que lhe provocava o senso de conquista amorosa mesmo não tendo habilidades para lidar com isso.

No meu caso, eu tive tal problema no ensino fundamental em 2002 quando tinha 13 anos e nenhuma amiga mais velha. Mas tinha uma determinação em ter uma conversa com o mundo feminino que consegui em julho daquele ano quando conversei com uma tia de uma colega minha que tinha a minha idade e tinha levado um exemplar da revista capricho onde fizemos um teste juntos e a convenci a dançar comigo para o espanto dos meus provocadores.

Mas os meus contemporâneos de geração perderam a tal habilidade de conversar com o sexo oposto. Principalmente em assuntos relacionados aos gostos pessoais. Muita gente quer conversar sobre a teoria junguiana, mas se depara com um intelecto que ouve sertanejo universitário. Tal tentativa de construir a ponte para o desconhecido se dá em uma balada e isso não dá certo em momento onde todo mundo quer pegar geral.

Meus amigos querem ter uma conversa interessante com uma mulher. Mas lhe recomendo abrir a mente para novas possibilidades. Pode ser assustador para um homem moderno que defende teorias abstratas sobre o mundo contemporâneo. Mas é essencial para que tenhamos uma boa conversa com uma garota sobre a corrida espacial dos anos 1960.