Meu lado Roy Jenkins

1967, o Reino Unido discutia se a homossexualidade ainda era considerada crime. Mas isso foi resolvido com a decisão do então secretário do interior trabalhista Roy Jenkins. Ele foi considerado o mais liberal chefe do Home Office na história por permitir que os gays não fossem punidos e ter permitido o aborto em um país em seu momento conservador como o GBR dos anos 1960.

Percebo isso quando converso com os meus amigos gays sobre variados assuntos. Eles confiam em mim como bom confidente além de não me julgarem por ser um liberal-conservative. Jenkins é considerado um verdadeiro social-democrata por entender as demandas de uma sociedade em constante mudança como uma revolução em marcha.

Isso se reflete em questões externas como a entrada do Reino Unido na então comunidade europeia em 1973 e no referendo de 1975 onde ele fez uma campanha onde gastou a sola do sapato por todo país para explicar as vantagens do mercado comum europeu para uma sociedade que estava desconfiada com o temor da perda de empregos com a integração europeia.

Um momento importante disso foi um debate entre Jenkins e o eurocético Tony Benn (então secretário das indústrias) exibido ao vivo no programa Panorama da BBC One para o desespero do primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson que temia uma profunda divisão dentro do partido trabalhista que pudesse permitir a volta dos conservadores liderados por Margaret Thatcher.

Se sempre existiu a figura personalista de um homem que personificou os ecos de uma sociedade ansiosa por mudanças e ao mesmo tempo, se propôs ao oferecer uma agenda de ideias e propostas que julgavam ser necessárias para o futuro de sua pátria. Tenho que reconhecer o trabalho de Roy Jenkins em favor do Reino Unido e dos homossexuais.

Life on mars

Nos anos 2000, a BBC lançou uma série chamada Life on mars, onde um policial é ferido em 2003 e acorda em 1973. Foi a minha sensação ao ver um Panorama da BBC One transmitido em 1975 com um debate sobre o referendo pela permanência do Reino Unido na Comunidade Europeia entre o pró-marketeer e secretário do interior Roy Jenkins e o anti-marketeer e secretário das indústrias Tony Benn.

Eu fiz uma viagem mental no tempo em minha Tardis emprestada pelo Doctor Who para entender o contexto de 1975. Os britânicos estavam discutindo o mercado comum europeu com os prós e contras. A economia britânica teria acesso a bens e serviços oferecidos por países da Europa Ocidental como a França, Holanda, Bélgica, Holanda, Itália e Alemanha.

Percebi a figura de Jenkins como um entusiasta do mercado comum como uma forma de impulsionar o desenvolvimento do Reino Unido enquanto Benn fazia ponderações sobre as consequências do mercado comum na vida dos britânicos. O Panorama exibido na segunda-feira, 2 de junho de 1975 foi importante para o referendo sobre o CEE dias depois.

Mas o que me impressionava como duas figuras como Roy e Tony defendiam suas ideias sem termos insultos e com uma civilidade nunca antes vista por mim. Isso é importante para compreender que um debate deve ser feito com ideias e não com o velho apontamento de dedo tão comum no Brasil de 2016 que me traz muito desgosto em minha mente.

Mas se fosse o policial de Life on Mars. Eu teria as minhas dúvidas ao lidar com figuras como Roy Jenkins e Tony Benn. Ambos são muito carismáticos e defendem seus pontos de vista de forma magistral. A oratória é de alto nível para a língua inglesa para compreender seus prós e contras sobre o tal mercado comum. Bem, preciso acordar em 2016 para lidar com o Brexit e o apontamentos de dedos.

As palavras de Johnson

A campanha do Brexit mostra uma clara divisão dentro do partido conservador. De um lado se tem europeístas históricos como Michael Heseltine, William Hague e Ken Clarke. Do outro se tem o histrionismo do eurocético e ex-prefeito de Londres Boris Johnson. Isso ficou claro quando Johnson afirmou que a União Europeia pretender unificar a Europa como se fosse Napoleão ou Hitler.

A declaração mostrou um racha no partido. Enquanto Johnson faz uma campanha pró-Brexit em que anda por todo país para angariar apoio. Os falcões dos tories como Heseltine dão entrevistas em que faz duras críticas aos eurocéticos e sua posição contraria a permanência do Reino Unido na União Europeia após o referendo de 23 de junho.

Isso cria uma sensação de guerra aberta entre os tories. Isso traz más lembranças como a guerra fratricida entre o primeiro-ministro John Major e os rebeldes eurocéticos liderados por John Redwood em 1995. Isso criou um leadership ballot onde Major venceu com larga vantagem, mas isso o enfraqueceu para as eleições gerais de 1997 perdendo para o trabalhista Tony Blair.

A perspectiva de uma divisão é assustadora para o primeiro-ministro David Cameron. Ele quer evitar a todo custo o desgaste vivido pelos trabalhistas quando convocaram um referendo sobre a permanência no então mercado comum europeu em 1975 tendo o protagonismo do eurocético Tony Benn e o antagonismo do europeísta Roy Jenkins. Isso enfraquecia o primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson.

Cameron deseja unir o partido após o referendo para estabelecer quem vai seu sucessor para disputar as eleições gerais em 2020. Uma eventual divisão poderia ajudar os trabalhistas que vivem sob intensa desconfiança desde que Jeremy Corbyn assumiu o comando do partido. Mas os britânicos estão pensando nas palavras de Johnson do que na luta interna conservadora pela Europa.