Adams e Charles

Há 20 anos atrás, seria impensável um cumprimento de mão entre um membro da família real britânica e um líder do movimento republicano irlandês. Pois esse gesto aconteceu hoje. O príncipe Charles se encontrou com o líder do Sinn Féin, Gerry Adams durante a sua visita a Irlanda. Ambos trocaram apertos de mão e além de ter uma longa conversa privada por 20 minutos numa sala a portas fechadas. Isso é um grande avanço no processo de paz entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte.

O Sinn Féin é o braço político do IRA. Tal grupo terrorista matou em um membro da família real britânica, o lorde Earl Mountbatten, tio-avô de Charles e um dos confidentes do príncipe, em um atentado onde uma bomba foi colocada em seu barco durante suas férias na Irlanda do Norte em 1979. Isso foi muito traumático para a Casa de Windsor, onde se temia quem seria a próxima vítima de um novo ataque do IRA. As relações entre Reino Unido e Irlanda se mantiveram estagnadas por anos.

Mas desde do acordo da sexta-feira santa de 1998. Católicos e protestantes iniciaram um longo processo de paz, mas que as feridas estavam longe de serem cicatrizadas passados 17 anos. O IRA largou a luta armada enquanto o exército britânico retirou suas tropas da Irlanda do Norte. Mas faltava um gesto de aproximação entre o Sinn Féin e a família real. O encontro entre a Rainha Elizabeth 2º e o deputy first minister norte-irlandês e ex-comandante do IRA Martin McGuinness em 2012 pavimentou a melhora de relações entre ambas as partes.

O passo definitivo foi tomado hoje com o encontro de Adams e Charles durante a visita do príncipe a Irlanda. Isso foi muito importante para ambos. Charles conseguiu mostrar que pode ser um rei atento a seu papel político como um monarca não alienado a realidade do país enquanto Adams mostra um Sinn Féin comprometido com a paz. Mesmo com o braço norte-irlandês não assumir os assentos que tem direito no parlamento britânico e a sua perda de relevância política na Irlanda com a ascensão dos trabalhistas.

Este é um momento de reflexão. As famílias das vítimas de tanto do IRA quanto do exército britânico ainda protestam sobre qualquer tentativa de aproximação resulte no esquecimento das mortes de pobres inocentes que morreram como um efeito colateral do conflito. A paz não vem com um acerto de contas após anos de uma luta sangrenta e cheia de feridas que não foram cicatrizadas. Mas um simples aperto de mão entre Gerry Adams e o príncipe Charles já é um gesto definitivo.

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