Os interesses da notícia

Semana passada, o jornalista britânico Peter Oborne pediu demissão do jornal Daily Telegraph. O motivo foi a falta de decisão do diário na cobertura do escândalo HSBC. Desde que o programa Panorama, da BBC One, denunciou um esquema de evasão fiscal praticada pela filial suíça do serviço de private bank do banco britânico. O Telegraph dava pouco espaço para as denúncias feitas pelo consórcio internacional de jornalismo investigativo (uma ong que investiga casos de ordem planetária).

O Telegraph é comandado pelos irmãos gêmeos Frederik e David Barclay desde de 2004. Peter era o correspondente-chefe da editoria de política do jornal. Quando percebeu que os interesses comerciais tinham uma grande influência na linha editorial. Oborne resolveu pedir demissão e denunciar em um artigo no site Open Democracy. A discussão na mídia britânica é se a linha tênue entra a relação comercial com as anunciantes atrapalha uma eventual investigação jornalística como o caso HSBC.

A mídia britânica vive o dilema sobre a relação comercial e a linha editorial. Um dos poucos jornais independentes é The Guardian, que é mantido por uma fundação sem fins lucrativos junto com o The Independent, cujo o dono é o bilionário russo Alexander Lebedev (que é temido pelo presidente Vladimir Putin). Isso cria um clima de quem tem interesse na notícia possa ser divulgada ao público. O próprio Telegraph denunciou a tentativa de lobby feita por dois ex-secretários de relações exteriores e atuais parlamentares Malcolm Rifkind (conservador) e Jack Straw (trabalhista).

A imprensa britânica vive um momento interessante. Desde do fim do julgamento das escutas ilegais feitas pelo tabloide dominical News Of The World no ano passado e a criação da Ipsos (órgão independente que terá a responsabilidade de arbitrar casos entre a mídia e a população) propõem um novo período de conflito. Os jornais estão mais vulneráveis e até mesmo a rede de rádio e tv pública BBC vem sendo criticada por gastar milhões de pounds sem motivo. A proposta de fechar a BBC Trust (comissão que supervisiona os trabalhos da emissora) foi feita pelo Daily Mail em sua edição de amanhã.

Se o jornalismo livre e independente é fundamental em uma democracia. Os britânicos estão discutindo um novo modo de trabalhar com essa conjuntura. A próxima batalha será a renovação da royal charter (o decreto real que pode ser renovado pelo parlamento por um período de tempo) que criou a BBC em 1932. O interesse da notícia é de suma importância para a opinião pública sem ter a interferência de interesses. O caso Oborne traz uma discussão onde a opinião e a sensatez caminham juntas neste momento no Reino Unido para esclarecer o enigma HSBC.

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